Pra começar a ler Thomas Mann

Thomas Mann é daqueles autores cuja grandeza do nome mete medo aos leitores com pouca rodagem – o caso clássico em que o endeusamento e a indiscutibilidade acabam criando uma certa barreira psicológica, só a muito custo (e leituras outras) derrubada. De fato, o alemão (de mãe brasileira) tem das escritas mais eruditas que já encontrei: na escolha dos temas, nas referências, na análise da condição humana. Mas – e aí está a mágica da coisa – é uma erudição sem pedantismo.

Eu mesma estou entrando aos poucos no universo de Mann. Comecei anos atrás com Os Büddenbrook, romance inspirado na sua própria família; e ano passado encarei A montanha mágica, seu livro mais conhecido, um romance de formação já resenhado pelo blog. Ainda quero ler Doutor Fausto este ano, mas se eu tivesse que recomendar um livro de entrada para quem nunca leu Thomas Mann, responderia na lata: O eleito. 

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Traduzida pela primeira vez no Brasil por Claudia Dornbusch, a novela lançada no ano passado pela Companhia das Letras é totalmente diferente do que já conhecia do autor. A história trata da vida do jovem do papa Gregório, até ele virar o líder da Igreja Católica, tudo isso no século 6, ali no limiar entre a Idade Antiga e a Idade Média.

Thomas Mann usa como base poemas e romances medievais que surfavam em uma lenda mirabolante sobre o nascimento do sumo pontífice: ele seria fruto da relação incestuosa entre irmãos gêmeos, filhos de um nobre duque. Por isso, foi abandonado pela mãe ainda bebê e atravessou o mar em um barquinho precário, indo parar numa vila de pescadores rudes que o criaram até que tivesse idade para entrar em um seminário. Vida afora, foi vítima de uma série inacreditável de desventuras em busca de redenção do que considerava o pecado de seu nascimento.

Se não entro em mais detalhes sobre a narrativa, é para não estragar a surpresa das dezenas de plot twists que Thomas Mann espalha ao longo da história para desespero do desafortunado personagem. Basta dizer: não é que Gregório tenha comido o pão que o diabo amassou. Ele era o próprio pão.

Que deprimente, você deve estar pensando. Aí é que está a surpresa. Thomas Mann não se inspirou apenas no enredo, mas no tom dos romances de cavalaria, tão populares na Idade Média, base também para Miguel de Cervantes em seu (maravilhoso!) Dom Quixote. Em comum, Cervantes e Mann têm também o uso da paródia, cheia de ironia e sarcasmo, para desconstruir em novelão o que a princípio parece um tema muito sério.

No caso d’O eleito, acrescente-se um narrador delicioso: um frade, que alega ter conhecido Gregório jovem e, por isso, tem o dever de registrar sua história. Por meio desse narrador, Thomas Mann brinca com o próprio exercício da escrita e com a coerência interna do texto: o frade discorre sobre gramática, sobre a escolha de palavras e sobre seu próprio papel de narrador, arvorando-se de posição de um espírito da narrativa zombeteiro e sagaz – equivalente ao próprio deus – que faz determinadas escolhas para que a história finde melhor contada.

Daria pra fazer uma coleção de frases maravilhosas para ilustrar isso. Veja alguns:

“(…) o espírito da narrativa é um espírito solto até a abstração, cujo recurso é a língua em si, e como tal, a própria linguagem, que se coloca como absoluta e não se importa muito com dialetos e deuses linguísticos nacionais. Na verdade, isso seria politeísta e pagão. Deus é espírito, e acima das línguas está a linguagem”.

“É possível que eu só escreva para me apropriar um pouco das duas coisas, a felicidade e o sofrimento humanos”. 

“Mas os critérios humanos não vão longe, à exceção do caso do narrador, que conhece toda a história até o seu final miraculoso, participando inclusive da Providência Divina”.

“Muitas vezes, a narrativa é apenas um substituto de prazeres que nós mesmos nos negamos ou o céu nos nega”. 

“O fato de ele ter cortado o outro no meio, de tal modo que este não percebeu e só depois caiu pela metade, isso fui eu quem acrescentou ao canto; na verdade, isso não aconteceu”. 

O eleito é uma daquelas obras que se revelam em camadas, segundo a experiência própria de cada leitor. A erudição está lá para quem quiser procurá-la mas, numa leitura menos experiente ou mais relaxada, é um livro, sobretudo, muitíssimo divertido. Por isso, é também daqueles livros que tendem a revelar novas surpresas a cada releitura. Enfim, um romance pra ter na estante, como um amigo zombeteiro a quem sempre se pode recorrer pra alegrar um pouco a vida.

PS:

“(…) sou da opinião firme de que a religião de Jesus e o cultivo de estudos clássicos devem andar de mãos dadas no combate à rudez, de que é a mesma ignorância que nada sabe nem de um nem do outro, e de que onde aquela estabeleceu raízes, sempre este se expandirá”. 

Era só isso mesmo. 🙂

4 comentários sobre “Pra começar a ler Thomas Mann

  1. Pois é, Renata. Comprei “O Eleito” toda prosa, achando que finalmente leria meu primeiro Thomas Mann. Ilusão. Não consigo deslanchar. Mas sigo insistindo. Quem sabe em um outro momento?
    Beijos e obrigada pelas dicas sempre tão bacanas.
    Cintia

    Curtido por 1 pessoa

  2. eu comprei A montanha mágica, pensei em começar por este (fiquei no desejo de Os Buddenbrook, mas deixei passar). vou pela montanha mesmo, rsrs, no momento, meu bolso não está bom para O eleito =P

    abração, Renata!

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