Escrever para acertar contas com o passado

O que você faria se descobrisse que um antepassado seu, amplamente cultuado pela família, foi soldado a serviço de um projeto fascista de poder? Como já escrevi aqui, a respeito do perturbador livro de Kazuo Ishiguro – que acompanha a história de um artista cultuado pelo regime japonês na Segunda Guerra e a mácula que ficará em sua imagem -, lidar com a sombra de um passado manchado pelas más escolhas não é fácil, mesmo para quem delas não participou.

Pois o escritor e jornalista espanhol Javier Cercas passou boa parte de seus quase 60 anos ouvindo as histórias a respeito de Manuel Mena, seu tio-avô pelo lado materno, integrante das forças franquistas em plena eclosão da sanguinária Guerra Civil Espanhola, que em poucos anos dizimou milhares de vidas e a breve experiência republicana, mergulhando o país em uma das mais longas ditaduras de todos os tempos. Mena não viveu para contar histórias, porque morreu no front, aos dezenove anos. Mas deixou um tênue rastro de bravura, na forma de condecorações pelos feitos militares e ferimentos nas batalhas, até o tiro fatal. E, na família, jogou luzes e sombras. As luzes, advindas de seu apregoado heroísmo, repetido por gerações. As sombras, espalhadas pelos diferentes modos como o clã familiar de Cercas e toda sua pequena vila natal estiveram envolvidos nos acontecimentos da Guerra Civil. Desses contrastes, surgiu o romance O rei das sombras, ao qual eu cheguei após ler entrevista com o autor no Caderno 2, do Jornal O Estado de São Paulo. A edição brasileira, pela Biblioteca Azul, com ótima tradução de Bernardo Ajnzenberg, novinha em folha, estava dando sopa na Livraria da Vila, com aquele cheiro de tinta que os amantes de livros tanto curtem. Compra feita, fui à leitura.

Rei das sombras

Para nos contar a história de Mena, Cercas monta uma narrativa em dois planos diferentes. Um dos narradores é ele mesmo, em primeiríssima pessoa. São capítulos em que relata as dificuldades que teve para achar os rastros do tio-avô, que eram raros e imprecisos. Ele brinca com a impossibilidade dessa história se tornar um livro e enumera as peripécias para conseguir depoimentos dos poucos sobreviventes, entre eles sua mãe, fonte da maioria das lendas que Cercas ouviu ao longo da vida.

Ainda nesse plano narrativo, descobrimos que todo o processo vai sendo documentado em vídeo, ora com o auxílio luxuoso do cineasta David Trueba, amigo e parceiro do escritor na adaptação de outro romance, também ambientado na Guerra Civil, para as telas. Trueba é um interlocutor sagaz, sarcástico e perturbador. É ele quem afirma que Cercas não pode mais fugir desse personagem e, pela escrita, pode expiar o passado, jogar luzes nas faixas nebulosas da história da família, mas não sem antes lhe dizer que as pessoas já estão cansadas de histórias sobre a Guerra Civil. Preferem enterrar o passado. Quando Trueba não está presente, é Mercè Mas, a mulher de Javier, quem faz a documentação dos depoimentos e também muitos contrapontos importantes.

Para juntar os retalhos do que restou da memória de Manuel Mena, Cercas, que atualmente mora em Barcelona, atravessa a Espanha e faz várias incursões ao vilarejo de Ibahernando, onde nasceram o tio-avô, a mãe e o próprio Javier. Encravado na Estremadura, província que faz divisa com Portugal, o lugar, essencialmente agrícola no começo do século XX, é descrito como algo que ainda restava de um feudo medieval. Terras mais extensas pertencentes a nobres da corte de Madri, que mal conheciam suas propriedades. E entre os locais, quem não era subempregado nessas terras, era pequeno proprietário. Ambos de classes miseráveis e dependentes. A fome era o que havia de mais palpável em Ibahernando nos anos 1930. Na busca da história da família, Javier vai juntando pedaços da política e da economia do vilarejo, pontuados pelas tensas relações sociais, o papel do clero conservador e a presença de alguns liberais. Do lado paterno, uma família de simpatizantes dos republicanos, do lado materno, monarquistas. Mas dos dois lados, a incrível capacidade de adaptação às novas e duras realidades também se mostra muito ativa. Ser republicano quando a banda toca pra esse lado. E logo se converter ao falangismo e ao franquismo quando a República é derrubada. Tudo uma questão de sobrevivência.

É aí que entra em cena o segundo plano narrativo. Quase que em um ensaio historiográfico, ou relato jornalístico, vamos conhecer os dados objetivos da breve vida de Manuel Mena. Escrita em terceira pessoa, essa narrativa se dá em capítulos mais longos, acompanhando os passos dados pelo tio-avô. Desde a infância, a presença alegre e vivaz na família, sua ambição por se formar e ser o primeiro da família a romper com a sina da dependência de terras cada vez mais escassas, o encantamento pela causa dos franquistas e, por fim, a inscrição na carreira militar, passando por uma forte preparação para atuar em zonas de conflito intenso. Os relatos de armamentos, batalhas, número de baixas, avanços das forças franquistas e o completo aniquilamento dos republicanos são minuciosos, resultado de uma pesquisa ampla e criteriosa e de uma escrita plena de rigor científico.

Esse jogo entre a subjetividade das impressões pessoais do autor e a objetividade do relato dos fatos documentais dá um balanço interessante ao livro. Não sem antes entendermos que os documentos achados têm lacunas e, por vezes, os vestígios das batalhas são relatados pela voz dos vencedores, uma das sinas da narrativa histórica que é muito bem problematizada em algumas passagens do livro.

Ao final de 270 páginas, o leitor percebe que Javier Cercas tinha a certeza de que poderia escrever um livro sobre seu tio-avô que fosse honesto e, senão desprovido de paixão, carregado de uma vontade genuína de compreender o contexto. As conjecturas sobre os motivos que levaram o rapaz a se alistar do lado sombreado da história são muito pertinentes e também ajudam a entender o porquê da ambiguidade daquela figura no ambiente familiar. Perceber as nuances daquela guerra era quase impossível para grupos de camponeses que mal sabiam o que se passava na aldeia vizinha. E ter um herói de guerra foi algo com que muitos se apegaram em Ibahernando, como motivo de orgulho, a ponto de que o jovem militar ainda dá nome a uma das principais ruas da vila.

O jovem Manuel Mena morreu sem saber o porque lutava. Essa é a sina dos soldados, que não se diferenciam na escala social daqueles camponeses mantidos à margem da história. Javier Cercas pode agora perguntar a cada espanhol: o que sua família fez durante a Guerra? Ele sabe da sua.

P.S.: na foto em destaque, que fiz em 2015 na fronteira entre França e Espanha, na região da Catalunha, uma homenagem aos combatentes republicanos e anti-fascistas que tombaram na Guerra Civil Espanhola.

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