Mulher sob a influência de um algoritmo

Todo mundo sabe como as redes sociais manipulam a entrega de informações a cada usuário, mantendo-os em suas bolhas particulares e imutáveis: “são os algoritmos”, é a resposta uníssona. Mas já parou para pensar o que é um algoritmo? Nada mais do que um conjunto de instruções pormenorizadas do se deve fazer para chegar a um determinado resultado. Uma receita de bolo é uma espécie de algoritmo, tanto quanto a programação que faz com que, com base no meu perfil de navegação, o Facebook me entregue tantos vídeos de cachorrinhos fofos, mas nenhum defendendo o terraplanismo.

20190304_102439A poeta carioca Rita Isadora Pessoa toma o termo popularizado na era digital para tratar de forma contemporânea o que não é novidade nos últimos milênios: o fato de que a existência das mulheres é cingida por padrões sociais em maior ou menor grau, em praticamente todos os aspectos da vida prática e psicológica. Em seu Mulher sob a influência de um algoritmo, ela transforma este incômodo numa poesia vigorosa, feminista e, por se recusar ao silenciamento (parte do algoritmo), também política. As personagens de seus poemas são mulheres que fogem aos padrões – “uma mulher que não é um robô / que se recusa a ser escrita / em linguagem java ou html” – e isso também tem o seu preço.

A ideia do algoritmo é trabalhada desde os títulos dos poemas, uma espécie de lista de tipos femininos: uma mulher com qualidades, uma mulher desavergonhada, uma mulher com o estômago perigosamente vazio; uma mulher rebelde, sem smartphone; uma mulher exausta, com delineador líquido (um dos meus preferidos, na foto abaixo).

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A obra é feita de tensionamentos que se revelam em contraposições inesperadas. A mulher em queda “que do chão não passa”, de repente não só passa do chão como vinga, estabelece raízes e brota. Ou “uma mulher que sabe desossar um carneiro / mas não sabe o que fazer / com a carne que pinga / na pia”; ou ainda, uma mulher que gosta de mulheres e que “faz três refeições completas por dia / mas não está satisfeita”.

O viés político aparece hora ou outra de maneira declarada, como no epílogo uma mulher que cultiva um gesto de desaparição, uma crítica direta às mulheres que pregam o antifeminismo, sem sequer tentar entender de que forma são atingidas elas mesmas pela lógica patriarcal, a despeito dos privilégios pessoais que amenizam cargas várias. Reproduzo aqui apenas as duas primeiras linhas do poema:

[uma mulher que escapa ao movimento político
de sua geração e se justifica em primeira pessoa]  

Mulher sob a influência de um algoritmo foi editado em 2018 depois de receber o III Prêmio Cepe Nacional de Literatura, na categoria poesia. A Cepe, bom que se diga nesses tempos bicudos para a cultura, é a editora oficial do Governo de Pernambuco, a mesma responsável por publicar a revista Continente e o Suplemento Pernambuco, um dos mais relevantes cadernos literários do País, notável pelo destemor com o qual mantém sua autonomia de opinião.

 

PS: a foto em destaque eu tirei em Santos, numa intervenção urbana que por sua vez usa uma foto famosa da passeata dos 100 Mil no Rio de Janeiro, em 26 de julho de 1968. À frente, estão as atrizes Eva Todor, Tônia Carrero, Eva Wilma, Leila Diniz, Odete Lara e Norma Bengell.

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