O oráculo de Olinda

O jornalista pernambucano Álvaro Filho perdeu quase tudo o que tinha quando o prédio histórico onde morava com a família na Alfama, em Lisboa, desabou em decorrência de um vazamento de gás. Por sorte, ele estava fora, enquanto mulher e filhos tinham acabado de sair do apartamento. Todo o resto se perdeu entre escombros. Dentre os poucos objetos recuperados, envolto em poeira e lama, o notebook onde tinha escrito e guardava o único arquivo de Meu velho guerrilheiro, romance que publicou em 2018 no Brasil pela editora Jaguatirica, e com o qual ganhou o Prémio Fnac Novos Talentos em Portugal.

O livro é um sobrevivente improvável, assim como o personagem principal: os restos de memória de um velho professor universitário acometido por demência, quase irreconhecível para a própria família, exceto pela permanência de suas convicções políticas e o apego a Olinda, cidade onde nasceu, cresceu, casou, criou os filhos e manteve sua vida profissional, apesar da sempre presente possibilidade de buscar faculdades mais promissoras. Um velho professor universitário que escolheu permanecer observando o mar da mesma cadeira e pela mesma janela por onde antes o seu pai o havia feito; um velho cuja teimosia atuava como uma âncora para a família.

20190217_162315A narrativa é dada ao leitor por um dos filhos do professor, um escritor chamado pela mãe a voltar à casa de sua infância para ajudá-la a cuidar do velho. Assim, Meu velho guerrilheiro é também um exercício de autoficção e de metalinguagem, pois o livro que temos nas mãos é o livro escrito por este filho para tentar compreender o pai perdido numa memória esgarçada, mas amparada pelos marcos físicos de uma casa e de um bairro que permanecem inalterados. Numa aposta arriscada, Álvaro Filho escreve em espécies de volutas – aqueles ornamentos gregos em torno de espirais labirínticas que se ligam a outras espirais, indefinidamente, mas cujas bordas nunca se tocam.

O texto é inteiro feito de repetições de frases crutas e de temas, que evoluem apenas um pouco de um parágrafo ao outro (o fim de uma voluta iniciando outra), reassentando novas repetições, e assim por diante – o que poderia ser cansativo, mas feito com muita habilidade torna-se uma das maiores qualidades desta novela, desde sua abertura:

Não, não sei ao certo se foi o meu pai quem matou o presidente. Sei apenas que andou a planejar fazê-lo. Não, não sei ao certo se foi meu pai quem puxou o gatilho. Sei apenas que andou a procurar por armas. Não, não sei ao certo se meu pai é um assassino. Sei apenas que é o meu pai. E, por enquanto, isso basta. Meu pai também pode ter previsto tudo isso. Claro que pode.

Previu o crime como previu o golpe. Meu pai já falava do golpe meses antes do golpe. Antes da eleição. Antes de tudo isso. Bem antes de o golpe ganhar os muros e a internet. Meu pai, a barba e os cabelos brancos compridos e desgrenhados. Olhos esbugalhados. Mãos trêmulas. Dedo em riste. A apontar para o nada. A apontar para frente. Para o futuro. Um profeta. O oráculo de Olinda. 

O ano não está claro e embora não haja nenhuma referência direta aos acontecimentos recentes da política brasileira, a alusão é mais do que evidente. A senilidade do velho personagem transforma-se numa ponte entre o passado efetivamente vivido (o golpe de 1964) e este presente alterado por outro golpe, cujas engrenagens ficam por esclarecer. Inconsciente do tempo que separa os dois momentos, o professor age como se fossem um só continuum, e tenta resistir como tal. Personagens do golpe passado retornam em outros papéis nesse presente não especificado, reforçando este ambiente borrado.

O livro foi escrito antes da eleição de Bolsonaro à presidência, quando esta era uma possibilidade medonha. Portanto, Meu velho guerrilheiro também guarda um quê de distopia imediata, uma extrapolação pessimista do porvir, que Álvaro Filho representa como um retorno a certos rituais e práticas da ditadura. [E que melhor representação para os tempos atuais? Escrevo este post na véspera do 31 de março, aniversário do golpe militar que, a depender do presidente, deveria ser comemorado em todo o País].

Meu velho guerrilheiro deixa sua marca como um grande elogio à integridade de caráter, que neste personagem singular, sobrevive à perda da memória. Infelizmente, não podemos dizer o mesmo da sociedade brasileira.

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