Água funda, o clássico fantástico de Ruth Guimarães

O fantástico e o terror têm seu espaço na produção literária brasileira. E de longa data. As histórias de assombro produziram alguns clássicos, que deixaram suas marcas. É só lembrar de Incidente em Antares, de Érico Veríssimo, e de parte considerável da obra de Guimarães Rosa. Ou os causos de Grande Sertão não flertam com o gênero? Temos os contos de J.J.Veiga, já resenhados aqui e as narrativas curtas e misteriosas de Murilo Rubião, também comentadas no blog.

Se é pra falar de clássicos, vamos ao incrível Assombrações do Recife Velho, de ninguém menos que Gilberto Freyre. E se falei do Recife, vamos aos contemporâneos de lá. Na cidade mais fantástica e dada a lendas e assombrações neste país, floresce nos últimos anos um vigoroso movimento de literatura fantástica. Tem o coletivo O Recife Assombrado, uma galera que faz coisas de arrepiar. E que recentemente teve presença marcante na Bienal do Livro de Pernambuco. Aqui no Lombada você encontra as resenhas dos livros de João Paulo Parísio, André Balaio e Frederico Toscano, com uma produção que mantém vivo o espírito de O Recife Assombrado, botando terror, literalmente, no mercado. Ah, mas não são best sellers. Diga aí, quantos best sellers se tornam referências e sobrevivem à onda? Por isso, dá pra afirmar que existe, sim, uma literatura fantástica consistente no Brasil. E que tem seu público e influencia novos escritores .

Água fundaMas esta resenha é para falar daquele que talvez seja o primeiro grande clássico do gênero no Brasil. Um livro que sobrevive ao tempo como se tivesse sido escrito anteontem. A obra em questão é Água funda, de Ruth Guimarães. Lançado em 1946, meses antes de Sagarana,  o romance teve ampla repercussão, foi sucesso de público e de crítica, com direito a prefácio de Antonio Candido, e projetou no cenário literário a jovem escritora paulista, nascida na pequena Cachoeira Paulista, no Vale do Paraíba, região em quem se encontram os estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.

Foi nesse ambiente rural que ela situou uma história recheada de mistérios, escrito em um léxico muito particular, com o sotaque do matuto caipira, transbordando a lendas, causos e a uma oralidade cadenciada, lenta por vezes, ligeira quando a situação pede, inserindo o leitor em rodas de conversa em torno da fogueira, transpondo em palavras os sons da natureza, dos animais domésticos, da boiada, do tropel de cavalos, a passarinhada do fim da tarde, o murmurar das águas do rio, o farfalhar das folhas de árvores, o vento, a chuva, a vida rural, enfim. Na leitura, lembrei muito do verso “não se espante assim seu moço, com a noite do meu sertão”, da canção que Tavinho Moura e Milton Nascimento fizeram para o filme Noites do sertão, baseado em conto também ele fantástico de Guimarães Rosa e que você pode ouvir nesta playlist de música e literatura no Spotify.

Água funda é ambientada na fazenda Olhos D´Água, em um lugar perdido entre o sul de Minas e a porção paulista do Vale do Paraíba. A narrativa tem duas camadas temporais, carregadas de dramas. Começamos por conhecer os primevos moradores da propriedade, ainda no século XIX, em pleno período escravocrata e, de repente, a história dá um salto no tempo, chegando ao começo do século XX. Entre Sinhá, a senhora dos primórdios, e Joca e a bela Curiango, personagens da segunda parte, o elo entre as histórias está na loucura que os acomete. Visões, superstições, casamentos desejados e amaldiçoados, o desatino, o abandono da casa, a vida na pequena cidade, os falatórios, a desonra e a desgraça marcam as vidas dessas criaturas atormentadas.

Em meio a uma sucessão de dramas, a vida rural se manifesta pelas palavras oriundas da tradição indígena, nas expressões dos matutos, na forma bruta dos conflitos, na jogatina no bar, na bebedeira, nass festas religiosas, pontuando a transição entre o mundo das aparências e os subterrâneos de quem vive isolado das notícias do mundo “lá de fora”.

Se na primeira parte a vida é pautada pela exploração da mão-de-obra escravizada, cujo status está ameaçado pela iminente mudança de modelo econômico e político, na segunda história, a ruptura se dá pelo choque com a modernidade e a chegada dos gringos que vão mudar o processo de produção do açúcar e do álcool na usina da fazenda, diversificar a produção, construir estradas. Nesse momento a escravidão institucional não existe mais, mas o modelo de relacionamento com a força de trabalho continua baseado em formas de exploração e sujeição à dependência econômica que a legislação de hoje chamaria de “trabalho em situação análoga à escravidão”.

Toda essa dose de realidade econômica, social e política é contada em um registro fantástico, com um lirismo e um ritmo narrativo que antecipa muito do que se produziu na literatura mágica latino-americana. Ruth Guimarães estreou na literatura com 26 anos, já produzindo um clássico. Mulher, negra, pobre, migrou para a capital paulista com filhos pequenos, a quem criou enquanto trabalhada, estudava e lançava novas obras. Contos, ensaios sobre tradições indígenas e caipiras. Teve uma carreira no serviço público e ocupou a cadeira 22 da Academia Paulista de Letras até 2014, ano de sua morte. É uma obra a ser visitada e propagada. Água funda é um clássico.

Li a edição mais recente, da Editora 34. Caprichada,  traz o prefácio de Antonio Candido e, no final, trechos de críticas publicadas quando do lançamento e uma saborosa entrevista com a autora.

 

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