Em uma galáxia muito distante, a Anarquia

As melhores obras de ficção científica nunca dão um peso muito grande à tecnologia. Quando ela aparece, é pra resolver um ou dois problemas narrativos, como o tempo de viagem entre um planeta e outro ou a comunicação entre universos diferentes. Ficção científica das boas torce a cabeça do leitor discutindo questões humanas, sociais e, por isso mesmo, mais do que contemporâneas: atemporais. Nesse campo, Ursula K. Le Guin tem me trazido experiências imbatíveis. Nela, o recurso do futuro distante é sempre uma desculpa para experimentar ficcionalmente com a condição humana e com as relações políticas e sociais.  

Dela, já faz um tempo que eu resenhei A mão esquerda da escuridão, no qual um emissário terráqueo é enviado a Inverno, um planeta na borda do sistema solar, para estabelecer relações comerciais. Só que em Inverno a raça humana evoluiu de forma diferente, com uma biologia andrógina. Sem o binarismo de gênero, a sociedade se desenvolve sobre bases completamente distintas no que diz respeito a relacionamentos, maternidade/paternidade e estruturas de poder. Ainda impactada por este livro, no final do ano passado comprei Os despossuídos na Festa do Livro da USP, junto com vários outros títulos da Editora Aleph – e que experiência, senhoras e senhores.

Lançado em meados da década de 1970, Os despossuídos narra o embate entre dois planetas gêmeos com sistemas políticos antagônicos – uma metáfora nada sutil da Guerra Fria, numa época e em que ela estava plenamente vigente. Dos dois, Urras possui as melhores condições de habitabilidade para a raça humana, e é também o de colonização mais antiga. Anarres, quase completamente inóspito, era apenas uma lua de Urras, mas acabou sendo colonizada como parte de um acordo político para apaziguar uma revolta popular em escala mundial. O motivo da rebelião? A desigualdade entre a elite financeira e os demais habitantes de Urras, submetidos a condições degradantes de trabalho e vida.

Urras é como a Terra que conhecemos e reproduz mais ou menos as condições sociais e relações de poder do sistema capitalista. Já a a colonização de Anarres se dá, em meio à revolta, sob os preceitos de uma utopia anarquista: não há governo central, não há hierarquia, não há propriedade pessoal, sequer quanto aos objetos de uso cotidiano. O sexo é livre, a obrigação de cuidar das crianças é coletiva e o trabalho não é obrigatório, embora seja desejado que todos colaborem na medida de suas capacidades. A comida, escassa, é distribuída conforme as necessidades sociais (quem trabalha recebe mais etc). Para refletir essa organização política, uma nova língua é criada – e nela, não há pronomes possessivos, ou palavras que denominem conceitos ligados a poder individual.

Anarres era uma página em branco no qual um grupo de idealistas funda do zero uma nova sociedade, totalmente horizontalizada. Em outras palavras, Anarres é o que seria chamado, no Brasil atual de um planeta comunista-esquerdopata-abortista-gayzista-feminazi.

Quando o livro começa, a colonização de Anarres tem pouco mais de 100 anos; desde então, perdura um isolamento quase completo com relação a Urras, autoimposto pelos primeiros habitantes do planeta na tentativa de proteger seu projeto social. Os anarresti têm um enorme orgulho do seu modo de vida e desprezam os urrasti, a quem consideram simples escravos de uma lógica de possessão (vem daí o título do livro). Mas como aprendi desde A mão esquerda da escuridão, nada é assim tão simplista em Ursula K. Le Guin.

Pois há problemas mesmo dentro dessa utopia social, e nem me refiro à escassez de alimentos ou às outras agruras de se viver em um país semidesértico. O cerne do romance está resumido magistralmente em sua primeira e brilhante frase:

“Havia um muro.”

Quem “descobre” esse fato, a duras penas, é Shevek, jovem físico anarresti que toma a drástica decisão de migrar para Urras quando percebe que suas descobertas potencialmente revolucionárias para toda a humanidade correm o risco de nunca vir a público. Pois embora a anarquia libere Anarres de um governo central, as convenções sociais e os sentimentos demasiadamente humanos do medo, do ciúme e da ambição movem sorrateiramente os mecanismos de poder – mesmo que eles não sejam institucionalizados. Questionar o que é liberdade, nessas condições, é inevitável. Qual seria então o papel da sociedade?

“(…) nenhuma sociedade pode mudar a natureza da existência. Não podemos evitar o sofrimento. Uma ou outra dor, sim, mas não a Dor. Uma sociedade só pode aliviar o sofrimento social, o sofrimento desnecessário. O resto permanece. A raiz, a realidade. Todos nós aqui conheceremos o sofrimento; se vivermos cinquenta anos, conheceremos a dor por cinquenta anos. E, no fim, morreremos. Esta é a condição em que nascemos”.

Shevek não é um anarresti qualquer. Ele é cientista e trabalha numa teoria sobre a circularidade do tempo que pode mudar a forma como se viaja pelo espaço, mas que também tem implicações sobre como a humanidade entende a ética – pois a percepção sobre causa e efeito, meio e finalidade só têm sentido num tempo inexoravelmente linear. Como alguém capaz de questionar as próprias bases de como entendemos o antes e o depois, é esperado que ele também questione as estruturas de seu planeta – ainda que o adore e seja fiel aos ideais revolucionários que iniciaram sua colonização.

Voltando uns três parágrafos para atar uma ponta solta, Os despossuídos apresenta uma das mais poéticas definições sobre liberdade que eu já vi:

“aquele reconhecimento da solidão de cada pessoa que, em si, já transcende a solidão”.

Tudo é passível de ambiguidade em Ursula K. Le Guin. Tudo é genialmente passível de ambiguidade.

 

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