A novela perfeita de Tolstói

Minha relação com a literatura russa começou, de fato, muito recentemente. Até 2017, as leituras de autores daquelas bandas estavam limitadas a Recordações da casa dos mortos, de Fiódor Dostoévski, que li nos anos 1990 e adorei. E de Exército de cavalaria (ou Cavalaria vermelha), de Isaac Bábel, que li já neste século, com muito custo, pois foi um dos livros mais chatos que já encarei. Mas a literatura russa sempre me rodeou. Em mesas de eventos literários, entrevistas com autores e autoras e citações nas mais variadas obras de ficção, lá estavam os russos, tomados como referência e inspiração de um bocado de gente que respeito. Confesso que tinha uma ideia preconcebida de que a literatura russa era chata. Talvez influenciado por catataus de trocentas páginas como Guerra e Paz, Crime e Castigo e Anna Karienina, embora, é preciso afirmar com um montão de amontoado de letras, nada tenho contra livros com muitas coisas escritas, ao contrário de certo capitão.

E eu estava de boa, achando que poderia evoluir como leitor, prescindindo dos russos. Bobagem que terminou com uma ruptura. A Flip de 2017. O homenageado era Lima Barreto. Como sói acontecer no pós Flip, eu e Renata saímos comprando livros, descobrindo obras não lidas e relendo aqueles livros que ficaram no passado, como foi o caso de Triste fim de Policarpo Quaresma, leitura dos tempos de colégio que ao ser relida na maturidade ganhou novos significados. E foi com outro livro de Barreto, do qual, confesso, jamais tinha ouvido falar, que veio o interesse definitivo pelos russos. A leitura de O cemitério dos vivos, cuja resenha está publicada aqui, fez uma série de sinapses na minha cachola. O relato da vida em um hospício carioca no começo do Século XX guardava grandes semelhanças com a história de Recordações da casa dos mortos, obra na qual Dostoievski narra sua experiência na prisão.

Quebrado o gelo siberiano da indiferença, comecei a navegar pela literatura russa. Vieram Anna Karienina, O duplo e O eterno marido, todos de Dostoiévski. Li Gogol e, finalmente, cheguei a Lev Tolstói. Pois é sobre ele que este post trata.

Ivan Ilitch

Toda essa enrolação é para dizer que a leitura de A morte de Ivan Ilitch foi uma das experiências mais impactantes da minha modesta vida de leitor amador (no duplo sentido). Esse não é um livro de um monte de amontoado de palavras. Pelo contrário. Trata-se de uma novela, gênero de narrativas curtas, que ficam no meio do caminho entre o conto e o romance. A obra foi uma das primeiras que Tolstói publicou depois de um longo período em que parou de escrever e se dedicou à vida no campo e às experiências religiosas. Lev atendeu, ao que parece, a um pedido do amigo e também escritor, Turguêniev. Este, já no leito de morte, fez o seguinte apelo:

“Na realidade, escrevo apenas para lhe dizer que me sinto muito feliz por ter sido seu contemporâneo e também para expressar-lhe minha última e mais sincera súplica. Meu amigo, volte para a literatura!”

O chamado funcionou e deu à humanidade essa joia de concisão que é A morte de Ivan Ilitch. A novela começa com o que hoje chamaríamos de spoiler. Aliás, já no título sabemos que Ivan Ilitch vai morrer. E o primeiro capítulo deixa isso muito mais claro (teria García Márquez se inspirado em Tolstói para narrar o dia em Santiago Nasar morreu em Crônica de uma morte anunciada?).

Dada como certa, a morte de Ivan Ilitch é só uma questão de tempo. Dias ou semanas o separam do juízo final a partir do momento em que uma dor misteriosa é diagnosticada como uma doença terminal. E começa então, nas palavras do escritor Milton Hatoum, na orelha da ótima edição da 34, “a viagem ao inferno em que a dor física será tão intensa quanto a dor moral” para o pobre moribundo.

Essa viagem se dará no presente e no passado de Ilitch. Ele vai buscar todas as alternativas de cura e tratamento, sempre desconfiando dos médicos e de seus vaticínios. E passará a limpo sua biografia. Nesse percurso, a dor vai se tornando cada vez mais aguda e sua mobilidade se reduzirá até o ponto de não mais sair do quarto. Então, as lembranças do passado serão parte de seu conforto para enfrentar a morte iminente.

Ilitch, um juiz de instrução com sólida carreira e bons amigos no poder, garante para si e sua família uma vida confortável. Nomeado pela primeira vez para uma comarca do interior russo, tem uma vida de solteiro intensa, até que entende ser necessário casar para ganhar respeitabilidade e galgar postos mais importantes. Seu casamento é parte dos cálculos meticulosos que faz para conquistar uns rublos a mais e rumar para um tribunal na bela São Petersburgo. Tudo corre dentro do esperando, mas quando está no auge de sua carreira, vem a dor. E a morte certa.

Tolstói narra com altas doses de ironia e sarcasmo o modo como os juízes de instâncias inferiores, já cientes da partida breve de Ilitch, começam a disputar seu lugar que logo ficará vago. As relações familiares, já um tanto desgastadas e carregadas de hipocrisia, tornam-se infernais. Na mesma medida em que a dor vai tomando conta da vida e da consciência dele, as lembranças de infância pontuam os momentos de esperança na cura e de mudança de vida. Aqui, Tolstói deixa no ar a ideia de que seu sofrido herói romantiza a infância em contraponto com as escolhas calculadas, frias e carregadas de interesse que pautaram sua entrada na vida adulta.

Nesse percurso, um serviçal da família, o mujique Guerássim, ajudante de copeiro na casa, começa a cuidar do moribundo. A família volta-lhe as costas e os traços de humanidade e compaixão que ainda restam a Ivan Ilitch se concentram na relação com esse homem simples que se apieda de sua dor e passa os últimos momentos a seu lado. O único que não lhe vira as costas.

E assim caminha o nosso herói rumo à morte. Tolstói faz do ato de morrer, e da experiência da morte algo que só a literatura pode exprimir. Que grande livro, transbordante de humanismo.

3 comentários sobre “A novela perfeita de Tolstói

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