‘Anjo negro’ e a literatura politicamente incorreta

Ouvi dizer que existem seres humanos superiores capazes de separar expressão estética de sua opinião ideológica. Acho que não sou um deles.

Ou talvez essa separação não seja tão preto no branco quanto a afirmação leva a crer. Meu ponto é: até que ponto a estética também não é uma expressão ideológica?

Outro dia ouvi no podcast Café da Manhã da Folha um debate sobre a nova moda do cancelamento. A psicanalista, de quem infelizmente não me lembro o nome, argumentava: a arte existe para fazer furos. É isso. Através desses furos, a princípio vistos como incômodos por alguns, é que a humanidade salta pra frente.

Pensei um pouco sobre estas questões enquanto estava lendo Anjo Negro, romance de Paulo Schmidt ganhador do Prêmio Cepe Nacional de Literatura em 2017. Não sabia nada sobre o escritor até terminar o romance e encontrá-lo sorridente na orelha da contracapa: é também o autor de Guia politicamente incorreto dos presidentes da República. 

Anjo Negro foi divulgado como um romance nonsense, no estilo mashup, no qual fatos históricos se misturam à ficção fantástica – neste caso, a ascensão e queda de Getúlio Vargas narradas por seu fiel guarda-costas, Gregório Fortunato. O personagem escreve suas memórias da cadeia, trazendo à luz “a verdade”: o Brasil era assolado por vampiros e lobisomens, forças antagônicas sobrenaturais que se embrenharam na política a fim de garantir sua sobrevivência – acesso a sangue fácil, no caso dos vampiros, e à carne fresca, no dos lobisomens.

Membro da ordem secreta de São Duíche, dedicada a combater estas forças ocultas, Getúlio Vargas também entra na política na tentativa de refrear o avanço das criaturas das sombras. Gregório, integrado à ordem por Getúlio, é seu fiel escudeiro. Enquanto colabora com Vargas e mata vampiros e lobisomens à noite, tem tempo de levar uma vida amorosa atribulada, que narra em detalhes.

A premissa do livro é engenhosa: no mundo real, Gregório foi preso acusado de tramar a emboscada contra o jornalista Carlos Lacerda, em 1954, que terminou na morte de um major da Aeronáutica. A crise política desencadeada deste atentado culminou dias depois no suicídio de Getúlio, com um tiro no peito. Na prisão, Gregório manteve por anos e anos um caderno com anotações que dizia serem para um livro; morto numa suposta briga entre detentos, o tal caderno foi o único de seus itens pessoais nunca encontrado no presídio, indicando uma possível queima de arquivo.

Anjo Negro se apropria dessa história nebulosa e se apresenta como resultado do caderno perdido. Schmidt constrói sua história fantástica com humor e sarcasmo; começa bem, ambientando o início da trama na cidade de São Borja e expondo as relações coronelistas das quais a família Vargas se locupletava alegremente. Os lobisomens, aliás, surgem sempre em famílias de coronéis, são os filhos varões que aproveitam a ausência de poder estatal no campo para se alimentar de lavradores e descendentes de escravizados de quem ninguém sentirá falta.

Os vampiros, por outro lado, são identificados com comunistas e sindicalistas: são aqueles que buscam se instalar em grandes cidades e atrair massas de trabalhadores com discursos contra o patronato, para assim garantir uma provisão praticamente infinita de sangue fresco. Diferente dos lobisomens, que nascem com essa condição, os vampiros infectam suas vítimas, surgindo então novos vampiros.

O livro causa curiosidade genuína em saber onde a história vai parar. O problema começa quando fica clara onde está a reta de chegada: numa contraposição de coronelismo a sindicalismo como se fossem extremos equivalentes (mais ou menos como a comparação preguiçosa entre machismo e feminismo). Ao fazê-lo, o autor retrata a classe trabalhadora como uma massa amorfa sem cérebro e compara a licença para matar dos coronéis à reivindicação por melhores condições de trabalho.

Dentro da proposta de mashup, ele brinca com diversos personagens históricos – além de Vargas e Gregório, com os seus familiares, ministros, conspiradores, amigos e inimigos. Todo mundo tem suas contradições e é salutar que a arte as explore, ainda mais se tratando de figuras de um período controverso da história brasileira. No entanto, a alusão à figura de Olga Benario me pareceu alguns tons acima: pintada como um pitbull de “Luciano Prestes” (Luiz Carlos Prestes), ela recebe em Anjo Negro o nome de “Helga Pferdegesicht”. O sobrenome inventado vem do alemão e significa, literalmente, “cara de cavalo”.

Olga, lembremos, foi a mulher de Luiz Carlos Prestes. Judia alemã e comunista, foi presa pelo governo brasileiro e deportada de volta para a Alemanha – grávida – em pleno regime nazista. Mantida num campo de concentração, conseguiu amamentar a filha até os dois anos de idade, quando a menina foi entregue à avó brasileira. Depois disso, Olga morreu numa câmara de gás, como milhões de outros judeus.

Como já pontuado, todos os personagens históricos têm suas contradições, que podem e devem ser exploradas pela arte, e pela própria história. Mas reinventar uma pessoa com essa trajetória num personagem que alude, em primeiro lugar, à sua aparência, me pareceu tão fora de propósito quanto uma brincadeira de meninos de quarta série educados pelos tios do é pavê ou pá cumê.

Uma pena, porque a ideia é boa, o personagem incrível e o livro tem tiradas interessantes sobre o racismo. 

Mas ao contrapor vampiros/sindicalistas e lobisomens/coronéis, Anjo Negro tenta ser o fiel de uma balança quebrada. A pretensa isenção, disfarçada de um atirar pra todo lado que, na verdade, tem alvo certo, só reforça o já sabido sobre o ‘politicamente incorreto’: longe de ser um furo que nos projeta pra frente, é apenas a corrente que tenta nos manter amarrados ao status quo vigente.

Quer conferir? O livro está à venda aqui.

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