A volta ao mundo em 75 contos fantásticos

Quando você junta na capa de um livro os nomes de Adolfo Bioy Casares, Jorge Luis Borges e Silvina Ocampo já tem uma nota de partida alta para a leitura que se avizinha. Como nas competições de ginástica artística, seria preciso juntar outras estrelas do mesmo naipe para compor um livro genial. E se aos nomes desse trio de mestres da literatura argentina do século XX se juntarem outros tantos gênios conhecidos das letras mundiais como o também argentino Cortázar, Richard Francis Burton, Lewis Carrol, Jean Cocteau, James Joyce, Franz Kafka, Rudyard Kipling, Guy de Maupassant, Edgar Allan Poe, François Rabelais, H.G. Wells e um timaço de outros escritores, desde as antigas dinastias chinesas, passando pelas Mil e uma noites, por autores não tão conhecidos, por contos populares, por dramaturgos europeus de todas as épocas. Chega de exuberância, né gente?

Pois o trio de “treinadores” argentinos escalou esse time, uma espécie de Seleção de 70 da literatura mundial para montar no final dos anos 1930 a Antologia da literatura fantástica. Tudo começou em uma noite em que Casares, Borges e Ocampo conversavam, em 1937. Provavelmente regados a vinho ou conhaque, começaram a levantar de memória histórias de terror e fantasia na literatura. Contos, romances, peças de teatro, microcontos, trechos de livros em que o fantástico se sobressaia. A brincadeira ficou séria. E o trio então colocou a mão na massa e aprofundou a pesquisa para em 1940 finalmente lançar a primeira edição da antologia.

Sucesso de público e crítica, a coletânea correu o mundo, influenciando uma geração de escritores, assombrando leitores e ganhando edições traduzidas em várias línguas. Enquanto a obra fazia sua carreira solo, os argentinos trataram de continuar sua obra que marcaria um período de grande efervescência na cena cultural argentina. É bom lembrar que Borges, Ocampo e Casares são ainda hoje referência para jovens literatos e ergueram as bases para outras gerações de ótimos autores argentinos como Alan Pauls, Hernán Ronsino, Selva Amada e Ricardo Piglia. Este, por sinal, paga tributos a Borges, não sem toques de ironia e sarcasmo, no incrível primeiro volume de suas memórias Diários de Emílio Renzi – anos de formação, que já resenhei aqui.

Antologia da literatura fantástica capa2A antologia virou um livro de referência e, 25 anos depois, o trio resolveu fazer uma revisão, incluir novos textos e, claro, ganhar mais uns trocados, lançando uma edição revisada. É a partir deste texto, com o prefácio à primeira edição e uma nota explicativa incluída na segunda que a Companhia das Letras lançou recentemente uma edição brasileira, com excelente tradução de Josely Vianna Baptista, um projeto gráfico arrojado e capa dura. Objeto para ler e colecionar.

São 75 textos. A maioria, contos ou microcontos. Mas também abundam trechos de romances, muitos famosos, que trazem algo de fantástico, um toque de terror, um mistério inexplicado. Tem de tudo. Para assustar, intrigar, deixar pontas soltas para conclusão dos leitores. De contos de Kafka em Um médico rural e Um artista da fome, passando por singelas três linhas do romance Ulisses, de Joyce, fábulas milenares da China e do Japão, contos de escritores menos conhecidos dos quatro cantos do mundo. Nenhum, infelizmente, de língua portuguesa. E fico pensando porque Osman Lins ou J.J.Veiga, por exemplo, não entraram nessa segunda edição.

Difícil destacar uma história, embora eu tenha ficado vivamente impressionado com Os donguis, um conto distópico do argentino Juan Rodolfo Wilcock e arrepiado com Onde a cruz está marcada, do norte-americano Eugene O’Neill.

A edição brasileira traz um curto e certeiro posfácio de uma das escritoras de literatura fantástica mais geniais de nossos dias, Ursula K.Le Guin, mestre das distopias, e um texto de Walter Carlos Costa, professor e tradutor, doutorado na obra de Borges, com uma contextualização histórica das antologias dentro da literatura mundial que vale ser lida.

Li a Antologia da literatura fantástica aos poucos. Deixei o livrão de 446 páginas na cabeceira. E fui de conto em conto, antes de dormir – o que nem sempre é aconselhável para quem se deixe influenciar por histórias de terror – saboreando cada história. Por vezes, devorando quatro ou cinco seguidos. Em outros casos, ficando com um texto mais longo para fechar o livro e tentar pegar no sono pensando no que acabara de ler.

É livro para ser lido e relido. Além de ser uma ostentação e tanto ter sua grossa lombada com o título chamativo exposta na prateleira.

P.S.: na foto, a solidão nas ruas de Tiradentes, MG.

6 comentários sobre “A volta ao mundo em 75 contos fantásticos

  1. Excelente seleção de 70. Como sempre tem alguém que joga pouco. Silvina Ocampo é nossa Everaldo, um jogador(a) apenas esforçado (a). A livro A Fúria é a obra mais superestimada que ja li. Fraquinho.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Excelente seleção de 70. Como sempre tem alguém que joga pouco. Silvina Ocampo é nossa Everaldo, um jogador(a) apenas esforçado (a). O livro A Fúria é a obra mais superestimada que já li. Fraquinho.

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