2020, o novo ‘1984’ de George Orwell

Quando Donald Trump foi eleito presidente dos Estados Unidos, as vendas de 1984 aumentaram 950%. O clássico distópico de George Orwell é, de fato, uma referência inescapável toda vez que o cheiro de totalitarismo paira no ar. No caso de Trump, sua vitória devida em grande parte à manipulação de informações remetia diretamente a um dos princípios basilares do Partido que comanda a Oceânia, no futuro/passado criado por Orwell para alertar sobre os riscos da sede de poder.

Por isso, não foi exatamente uma surpresa quando os alunos do Cursinho Popular Educar-se elegeram 1984 para o tema do bate-papo virtual que tive com eles na semana passada, a convite de Felipe Neves, um dos voluntários/organizadores da iniciativa. O páreo foi duro, segundo me disseram depois: houve muitos votos também para Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago, uma alegoria quase perfeita deste 2020 que começamos encastelados com medo de um vírus.

Confesso que eu estava torcendo por Saramago (!), mas reler 1984 mais de 20 anos depois da primeira (e até então única) leitura, e à luz do contexto atual, foi extremamente interessante. Clássicos não são clássicos à toa e, embora o futuro projetado por Orwell já seja cronologicamente passado para nós, é absolutamente presente nesse período de regressão política e social. Não espanta nada que o livro tenha voltado a vender tanto nos Estados Unidos; espanta mesmo é que não tenha havido nenhuma incremento notável de demanda no Brasil.

O mundo de Orwell está dividido em três grandes potências continuamente em guerra entre si, a Lestásia, a Eurásia e a Oceânia, formada por todo o continente americano, mais o Reino Unido. No comando desse império, um único Partido totalitário, que controla minuciosamente a vidas da classe média, enquanto garante que as classes baixas sejam mantidas na penúria e na ignorância. Winston Smith, nosso herói, é um funcionário público empregado no Ministério da Verdade e tem como principal ocupação alterar notícias e registros históricos para garantir, à luz do presente, que todas as decisões do Partido estejam sempre corretas.

Talvez por conhecimento de causa, Winston sabe que tem algo de errado nesse estado de coisas, e começa a cometer pequenos atos de rebeldia contra o sistema. Primeiro, começa a escrever um diário; segundo, se relaciona afetivamente com uma colega de Ministério; terceiro, busca ativamente se engajar em um obscuro movimento de oposição, que ninguém sabe ao certo se existe ou não. E faz tudo isso driblando um sofisticado sistema de vigilância calcado na invasão de privacidade, no medo e no uso ativo da violência como política de controle. Todos os cidadãos de Oceânia são monitorados o tempo inteiro por teletelas, aparelhos que são ao mesmo tempo câmeras e televisões, usadas para vigiar e emanar ordens do Grande Irmão, o mestre supremo da porra toda.

Grande Irmão, você disse? Big Brother, com câmeras pra todo lado? Sim, segura essa cerveja que já já voltamos nesse assunto.

O Partido mantém também um intrincado sistema de controle do pensamento, expresso pela novafala ou novilíngua (dependendo da tradução), um idioma simplificado e limpo de todos os vocábulos ou construções que possam ser usadas para expressar ideias contrárias às do Partido. O duplipensamento, ou a capacidade de “defender ao mesmo tempo duas opiniões que se anulam uma à outra, sabendo que são contraditórias e acreditando nas duas” – tipo, ser contra o aborto porque defende a vida, mas a favor da pena de morte. A mutabilidade do passado, tarefa principal de Winston Smith no Ministério da Verdade, que é falsear registros para evitar que o Partido seja pego em contradição.

Fiéis a estes princípios, os lemas desse governo são:

GUERRA É PAZ.
LIBERDADE É ESCRAVIDÃO.
IGNORÂNCIA É FORÇA.

Parece familiar a vocês?

Não sei se George Orwell ficaria orgulhoso ou horrorizado ao saber sobre a existência de um Gabinete do Ódio em Brasília, com funcionários pagos com dinheiro público para criar e distribuir notícias falsas. Como estaria avaliando a tendência do presidente da República de se contradizer a todo o momento, inclusive afirmando categoricamente não ter dito o que foi filmado dizendo no dia anterior?

George Orwell deve estar no além fazendo cara de “eu avisei”.

1984 não era uma previsão sobre o futuro, mas um alerta do que pode acontecer quando se dá a um governo – de qualquer vertente ideológica – licença para agir antidemocraticamente, o que acontece quando há uma vontade clara de hierarquização e de perpetuação no poder. É muito comum que o livro seja tomado pura e simplesmente como uma crítica ao regime Stalinista da União Soviética. De fato, existem elementos críticos à política de Stálin, mas a questão é um pouco mais complexa e sofisticada.

O livro foi lançado em 1949, poucos anos após o fim da Segunda Guerra Mundial e da divisão da Alemanha entre os vencedores. A lua de mel entre Ocidente e União Soviética já tinha acabado e a Guerra Fria se desenhava no horizonte, com a divisão física do território alemão e de Berlin se avizinhando, com a construção do muro. Vem daí muito claramente a ideia da repartição do Mundo entre três potências hegemônicas que ele imaginou em 1984. Mas se o livro deveria ser uma crítica apenas à União Soviética, porque foi ambientado em Londres e no centro de poder que corresponde ao Ocidente?

Segundo os três ensaios críticos incluídos na edição da Companhia das Letras, Orwell queria fazer uma advertência geral sobre a política com a finalidade do poder pelo poder. Nesse sentido, ele queria ressaltar, usando o Ocidente como locus, que o perigo totalitário está à espreita mesmo sob o domínio do capitalismo (lembra do aumento nas vendas do livro após a eleição de Trump?). Nesse sentido, é espantoso como os mecanismos quase alegóricos que ele criou para justificar o poder absoluto do Partido na Oceânia encontrem correspondentes tão próximos no Brasil e nos Estados Unidos deste malfadado ano de 2020.

Se tem algo que teria surpreendido Orwell, creio, é o uso das premissas de 1984 na criação de do programa de TV Big Brother, que no Brasil já vai pra mais de 20 anos no ar. Que toda a atmosfera opressora da Oceânia tenha se traduzido numa casa cheia de câmeras habitada por um grupo de pessoas que alegremente abre mão de sua privacidade para competir por um prêmio em dinheiro é mais ficção científica do que qualquer ficção científica. Big Brother, o programa, coloca o espectador na posição de Grande Irmão, o ditador onipresente e onipotente que tudo vê e tudo decide – inclusive quem continuará, semana após semana, disputando o tal prêmio.

Que as sessões de eliminação se chamem paredões – usados por ditaduras para fuzilar seus opositores – é especialmente bizarro. E, no entanto, estas dinâmicas se enraizaram na cultura pop de diversos países, dentre eles o Brasil, fazendo com que a falta de privacidade, o controle externo sobre a vida e o paredão se tornem coisas não apenas normais como divertidas. É bizarro.

Na aula com a turma do cursinho, falei também sobre como os smartphones assumiram o papel das teletelas do romance, ao mesmo tempo nos dando e nos tirando informações pessoais cujo uso por corporações e governos permanece incerto e não sabido. Nossos comportamentos são não apenas vigiados o tempo inteiro, como deixamos isso acontecer alegremente, em troca da possibilidade de sociabilizar pelas redes sociais, ou de nos divertir com testes bobos e vídeos de gatinho. Nos Estados Unidos, o uso desses dados foi crucial para a estratégia de microsegmentação de públicos que garantiu a eleição de Trump.

Mais uma vez, vejo a cara de George Orwell dizendo, marotamente: “eu avisei”.

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E para quem tiver curiosidade em saber como foi o bate-papo com os alunos do Cursinho Popular Educar-se, o vídeo está aí embaixo:

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