Antigo mundo pequeno

“Antes mundo era pequeno
Porque Terra era grande
Hoje mundo é muito grande
Porque Terra é pequena”

Os versos de Gilberto Gil em Parabolicamará, canção de 1991, que ganhou nova versão do próprio compositor em plena pandemia, brincam com a noção de tempo e distância mediadas e modificadas à medida em que a velocidade e instantaneidade dos meios de transporte e de comunicação avançaram. Quando Gil escreveu a letra, era a antena parabólica o maior indicador de encurtamento de distâncias entre as pessoas. Hoje, a internet nos coloca em um clique em qualquer lugar do planeta. E até fora dele.

A trama de Pequeno mundo antigo, romance de Antonio Fogazzaro, publicado em 1895, em Milão, se passa entre os anos de 1848 e 1859 no extremo norte da Itália, na região espremida entre os lagos de Como e Lugano, colada na Suíça. São anos turbulentos que antecedem a unificação italiana. Aquele pedaço de território vivia sob a administração do Império Austro-Húngaro, enquanto o vizinho Piemonte já gozava de relativa autonomia e era um dos polos de articulação das tentativas de unificar Sul, Norte e os territórios católicos e, finalmente, criar o reino itálico.

A vida passa lentamente nas cercanias das pequena cidades de Valsolda, Oria, Albogasio e San Mamete, à beira do imenso lago de Lugano. Paisagens marcadas por grandes montanhas, florestas, neve e uma natureza exuberante nas margens lacustres.  Tal como na canção de Gil e como no título do romance, aquele era um mundo pequeno, porque a Terra era grande e a velocidade dos deslocamentos de pessoas e notícias obedecia ao lento vagar dos pequenos barcos que singravam o lago à força de remos e das andanças pelas sinuosas trilhas e precárias estradas que ligavam aquele pequeno feudo às cidades de Turim e Milão, centros políticos e econômicos daquele pedaço de Itália.

É nesse pequeno mundo que o nostálgico autor ambienta a história de Franco Maironi, neto e único herdeiro de uma poderosa e rica marquesa, dona de lugares e mentes naquele condado. Mas o jovem fidalgo tem o seu quê de rebeldia. Se contrapõe à avó, que é alinhada aos austríacos, e sonha com a unificação italiana. E, mais grave, recusa os projetos de casamento arranjado para ficar com Luisa Rigey, que mora com a mãe, viúva e com um tio, engenheiro de obras do império. Além da ausência de linhagem nobre, paira sobre a família o estigma de livres pensadores. O pai de Luisa, já morto, fora professor de instrução pública, afastado de escolas em Milão por manifestar seu ateísmo. Para a marquesa, Dom Franco assina a sentença de proscrição ao se casar furtivamente com a jovem Luisa, em cerimônia que foi urdida por um padre amigo, duas testemunhas próximas da família e os movimentos do tio engenheiro.

É a partir desse casamento que a vida de Franco e Luísa, que começa aparentemente doce e feliz, vai se desmanchando em uma série de infortúnios, a começar pela morte da querida mãe. Ele é deserdado. Nos primeiros anos da união nasce uma menina. Franco dedica-se a estudos filosóficos, planos mirabolantes de jardinagem e cultivo de espécies botânicas “nobres”, que lembram, e muito, as intensas discussões sobre plantas e jardins de Afinidades eletivas, de Goethe, não por um acaso romance contemporâneo da obra de Fogazzaro.

Entre uma divagação filosófica e outra, entre uma nova muda plantada no jardim e um florescer na primavera, Franco reúne amigos em animados jogos de tarô, regados a vinho e planos para combater o império e finalmente entronar Victorio Emanuelle como rei da Itália unificada. Luísa, altiva e tentando se mostrar livre pensadora e independente, participa das conversas e confabulações, diferenciando-se da maioria das mulheres que aparecem no romance, submissas a maridos ríspidos e moralistas.

É nesse ponto que a ira da avó tirana se volta contra a família de Franco e Luísa. O tio é demitido e o jovem sonhador, vejam só, aos quase trinta anos se depara com uma necessidade humilhante: vai a Turim para (socorro!!!!) trabalhar. Como é dura a vida da aristocracia, não?

Paro por aqui na descrição da história, porque a sucessão de fatos no romance é lenta, progressiva e qualquer dado a mais me faria entrar na zona do spoiler. Se você já leu até aqui, tem uma noção do contexto do romance. O que importa, agora, é falar sobre a escrita de Antonio Fogazzaro.

O narrador, em terceira pessoa, está distante no tempo. Ele ressalta com frequência como gostava daquele pequeno mundo antigo. É nostálgico de costumes que foram enterrados com a modernidade. Fica claro que ele foi um observador próximo da história, embora não se apresente claramente entre os personagens. Também é clara a simpatia aos esforços de unificação da Itália, presente na forma entusiasmada como se desenrolam as conversas de Franco com os amigos, nos vários cenários internacionais que podem ajudar a estabelecer acordos com França , Inglaterra e Rússia, fiéis da balança da geopolítica daquele período.

A narrativa é lenta e cuidadosa, como eram lentos os ritmos da vida naquele pequeno mundo. Os diálogos são em dialeto, e aqui é preciso ressaltar a excelente tradução de Ivone Benedetti, que traz o ritmo da fala e as diferenças de registro entre personagens da aristocracia e aqueles das classes populares, como artesãos, barqueiros e pessoas de outras regiões da Itália, com nuances que deixam bem claras as diferenças de sotaques e de usos das palavras com as alternâncias regionais.

Como é típico dos romances do século XIX, Pequeno mundo antigo é pródigo em descrições de paisagens, vestimentas e dos ambientes internos das casas e palacetes. No avanço da leitura das 442 páginas, consultei com frequência o Google Maps para me situar nas descrições de montanhas e distâncias e caminhos entre as aldeias e cidades. E deu uma vontade considerável de navegar pelo lago.

A natureza, como em Goethe, aparece como elemento importante e determinante de condições de vida, da própria convivência entre as pessoas e de sua comunicabilidade. Assim como no magistral O leopardo, de Lampedusa, a tensão entre a velha e a nova Itália dão o tom da ambientação política, das relações sociais estabelecidas no mundo antigo e sobre as quais, agora, pairam ameaças de mudanças no status quo. Também como em Lampedusa fica claro que as elites farão o arranjo necessário para continuarem com seu lugar privilegiado garantido na nova ordem que se aproxima, mudando na superfície para manter a estrutura mais profunda inalterada ou, quando muito, admitindo no clube alguns burgueses, militares e políticos que se integrarão ao establishment.

Tudo, narrado com vagar e com acontecimentos que mexem profundamente com a vida de Franco e Luísa. Desilusões, mortes, esperanças, embates com a avó, tentativas nem sempre cuidadosas de amigos que querem o bem do casal e atabalhoadamente atrapalham com a intenção de ajudar.

Pequeno mundo antigo foi uma leitura surpreendentemente boa, saborosa e fluída. E o romance faz parte da já grande coleção de “livros que comprei pela capa”, até porque nunca tinha ouvido falar dessa obra até me deparar com essa belíssima edição da Carambaia em uma prateleira da Livraria da Travessa de Pinheiros. Já está fazendo uma bela figura em nossa biblioteca, com essa capa linda, lombada sóbria e elegante e os mapas do lago de Lugano na guarda. A produção gráfica é de Tuut e a edição é numerada. Nosso exemplar é o 104 de uma belíssima tiragem de 1000 cópias. Belíssima para o padrão brasileiro, é claro.

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