O último canto de Ariano

Ariano Suassuna era, sobretudo, um gaiato.

Todos os anos, no aniversário de sua morte, me aparece nas lembranças do Facebook o trecho de uma de suas aulas-espetáculo em que ele canta o rock “Rutherford-Borh” fazendo air guitar. A música, criada por ele mesmo e completamente destituída de pé ou cabeça, foi usada como parte de uma das lorotas inventadas para ilustrar suas críticas à assimilação da cultura de massa.

Ariano era bem chato quanto isso, chato ao ponto de suas declarações terem virado uma treta de alcance nacional com a turma do manguebit ele pegava no pé de Chico Science por misturar maracatu com rock e hip-hop, e pela adoção do apelido em inglês.

O criador do movimento armorial também tinha lá suas contradições. O manguebit nunca foi tão massificado como O Auto da Compadecida, obra mais conhecida de Ariano, que o alçou à condição de escritor pop.

A terra armorial também gira, amigos. Ela é palco e circo, e, de certa forma, é sobre as voltas no picadeiro que trata O Romance de Dom Pantero no Palco dos Pecadores, último livro de Suassuna, publicado postumamente em 2017.

Com mais de 1000 páginas divididas em dois volumes de capa dura, a edição da Nova Fronteira é fartamente ilustrada com desenhos do próprio Ariano e de alguns de seus colaboradores, como Alexandre Nóbrega, Zélia Suassuna, Manual Dantas Suassuna e J. Borges.

Não é um livro fácil de ler, nem de descrever. Dom Pantero é um pouco de tudo: romance epistolar e autobiográfico, peça de teatro, ensaio estético e síntese de toda sua obra anterior – incluindo-se aí as aulas-espetáculo; é um manifesto final e uma tentativa de não apenas fazer, mas tornar-se a própria literatura. De alcançar a imortalidade pela arte, driblando a Moça Caetana (a morte).

O personagem principal Dom Pantero narra sua tentativa de criar a “Ilumiara”, uma obra de arte síntese do Brasil a partir da união de literatura, teatro, música e dança; um dos passos para isso é realizar uma “aula espetaculosa” durante um Simpósio de notáveis na cidade de Taperoá, no interior da Paraíba. O livro é metalinguístico: a “Iluminara” é o próprio livro que lemos, e que fala da feitura do livro.

Dom Pantero é o nome de palco adotado por Antero Savedra, um dos irmãos de uma família de escritores incompreendidos: além dele, há o dramaturgo Adriel, o romancista Auro e o poeta Altino. Sobre os quatro, paira eternamente a sombra do assassinato do pai com um tiro pelas costas.

Os quatro irmãos são como heterônimos de Ariano – ou melhor, são o próprio Ariano, dividido em quatro. Como é amplamente conhecido, o escritor é filho de João Suassuna, ex-presidente do estado da Paraíba, assassinado em 1930 no Rio de Janeiro por adversários que consideravam ter sido ele o mandante da morte de João Pessoa. Ariano tinha apenas três anos e o trauma da ausência do pai, que perpassa toda sua obra, aparece em Dom Pantero de forma ainda mais aguda.

Essa angústia é temperada com um humor gaiato típico d’O Auto da Compadecida, além de uma dose altamente pernambucana* de megalomania. Ao longo do romance, Ariano se refere a vários dos grandes escritores universais e brasileiros, mas acrescenta a todos eles os sobrenomes do personagem de Antero Savedra e de seus irmãos: Euclydes Schabino da Cunha, Alexandre Schabino Dumas, Eça Schabino de Queiroz Camões, Augusto Savedra dos Anjos, e por aí vai. William Shakespeare vira Guilherme Schabino Solha de Agitalança. O Savedra, por sua vez, é referência ao último nome de Miguel de Cervantes.

É como se Dom Pantero e seus irmãos – ou seja, o próprio Ariano – fossem herdeiros do melhor que existe na literatura universal. O que não deixa de ser verdade: dessa forma, Suassuna expõe as referências de que se considera debitário.  As alusões diretas e indiretas a Dom Quixote, constantes ao longo de todo o livro, são uma resposta às críticas que recebia em sua cruzada contra a cultura de massa – Ariano era acusado de lutar contra moinhos de vento.

Dom Pantero é quase um exercício de estética pura, que prescinde de uma narrativa tradicional. Ariano convoca para esse exercício os personagens de seus outros livros, como Dom Pedro Dinis Quaderna, d’O Romance da Pedra do Reino, e dezenas de pessoas reais, dentre artistas, acadêmicos e pencas de jornalistas – muitos dos quais, conheço pessoalmente. No Simpósio realizado em Taperoá, vários deles aparecem na plateia, em diálogo com o mestre, entronado no palco.

O romance, mais uma vez ambientado no Sertão, é também mais um exemplo da estética Armorial do movimento que Ariano criou, buscando apresentar a cultura popular nordestina em seus elementos eruditos, valorizando a ligação antiga com a cultura Ibérica.

Mas, acima disso, há um momento em que Dom Pantero fala da “cisão que me dilacera entre a Persona que vivo e as Máscaras que uso”. De certa forma, essa frase sintetiza o que é o Romance de Dom Pantero no Palco dos Pecadores. 

É um livro para conhecedores: quem não está ambientado com a obra anterior de Ariano, em especial O Romance da Pedra do Reino, dificilmente vai conseguir se envolver com Dom Pantero.

E antes de vocês irem embora, um brinde final – Ariano cantando “Rutherford-Bohr”:

*Apesar de nascido na Paraíba, Ariano adotou Pernambuco como “estado paterno”, como ele dizia, e lá construiu toda sua carreira artística, acadêmica e política, além de sua família. Era torcedor fanático do Sport Clube do Recife.  

3 comentários sobre “O último canto de Ariano

  1. Comungo sim com o delicioso desafio que é ler Dom Pantero. Que é decifrar Ariano. Sintetuzar sua obra, sua arte, sua vida. Na condição de admirador e ex-aluno do grade Suassuna , resta testemunhar a carnosidade explícita deste seu trabalho, juntando o riso à dor e dando um tesão especial em unir vida e morte como a simples e complexa melodia mamulengueira do já Ser Além. Viva Etenamente o Armorial!

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