Dois peixes fora d’água

Se vocês quiserem mandar um “oi, sumida”, eu mereço.

Faz dois meses desde a última vez que eu publiquei aqui no Lombada, que foi mais ou menos a época em que eu li um livro por diversão pela última vez. Até o fim de semana passado, estava numa espiral muito louca de trabalho que consumia todo o meu tempo livre (o que restava dele no meio da pandemia). Não é que eu tenha abandonado o blog. Eu abandonei o blog, a casa, o cachorro, o marido, a sanidade mental e os pelos crescendo nas minhas pernas. Quando fiz a entrega mais parruda que tinha pra fazer, eu só conseguia pensar em quão relaxante seria finalmente faxinar a casa. Depois, fiquei igual àquele meme do John Travolta, perdida sem saber o que fazer com esse latifúndio de tempo. Voltei a ler, claro.

Quem me encontrou na volta desse périplo fordista foi Giovana Madalosso e o recém-lançado Suíte Tóquio (editora Todavia), que ela mesma mandou pra gente. Carlos leu antes de mim, adorou e devolveu estrategicamente ao topo da intocada pilha de livros comprados e recebidos durante a pandemia (é uma pilha bem grande). Não sabia de nada sobre o romance salvo os spoilers que ele tentou fazer ao longo da minha leitura, mas ele também não teve muito tempo; entre a primeira página e este post passaram-se pouco mais de 30 horas.

Eu ia escrever que Suíte Tóquio é quase um romance de suspense, mas na real, é um romance sobre duas mulheres em suspensão, encurraladas em um momento de inadequação à vida. Maju é a babá que cuida de Cora, uma garotinha de três anos de idade que demanda sua atenção completa, já que Fernanda, a mãe da menina, é uma bem sucedida e bem paga produtora de audiovisual que não consegue encaixar a maternidade em sua agenda.

Maju quer ter um filho, mas não consegue sequer manter o marido, tendo que dormir no serviço por quinze dias seguidos. Já para Fernanda, a menina de quem ela não consegue ter energia para cuidar sozinha é fonte de culpa constante, que ela ameniza com Rivotril e álcool. A história corre em paralelo alternando as duas personagens como narradoras, a partir do momento limítrofe em que Maju decide fugir de São Paulo com Cora enquanto Fernanda embarca em um caso com uma mulher mais jovem. Giovana faz isso de forma a que as duas narrativas corram ligeiras, quase cinematográficas, mantendo o leitor cativo até acabar o texto.

Tão diferentes, as personagens ocupam diagonais opostas do mesmo cruzamento entre maternidade e trabalho. Sabemos que Maju é negra porque se refere ao seu próprio cabelo como “a piaçava” – mas, mesmo sem isso, de que outra cor você imaginaria uma babá? Na diagonal de Maju, o trabalho nunca foi uma opção, ao ponto em que sua vida pessoal está circunscrita aos dois dias por mês em que ela pode voltar a sua própria casa. Na diagonal de Fernanda, ser mãe e trabalhar muito significa recorrer à exploração de uma mulher subalternizada, a quem terceiriza a vida da filha, mas de quem não sabe quase nada, pois simplesmente não se importa.

Mas Maju tem tanta vida quando a patroa, embora infinitamente menos dinheiro. Tem seus medos, suas convicções, suas amizades, suas paixões. Se sente tão inadequada ao mundo quanto Fernanda, e lida com isso com meios mais modestos – em vez do Rivotril e gin, uma fé inabalável em Nossa Senhora Aparecida.

Suíte Tóquio me fez lembrar bastante de Mulheres, Raça e Classe, de Angela Davis, e da ascensão recente do debate público sobre feminismo negro. Em sua origem, o feminismo desconsiderou os recortes de raça e classe como fatores que influíam no tipo de problema enfrentando pelas mulheres. Por exemplo, só as brancas burguesas estavam preocupadas em reivindicar o direito a trabalhar fora; as negras haviam sido escravizadas e as brancas pobres tinham turnos de 16 horas em fábricas.

O romance tem como matéria-prima justamente essa distância infinita entre mundos contíguos, uma tragédia que afeta pessoas de diferentes estratos sociais de maneiras completamente distintas. Não há caminhos indicados nem redenção em Suíte Tóquio, mas um retrato da incomunicabilidade que impera em uma sociedade tão hierarquizada.

Chamou-me a atenção também as referências à arte contemporânea, uma bastante direta, outra nem tanto. Tem papel importante no livro uma tela de Adriana Varejão, da série em que ela pinta azulejos ensanguentados, como se por trás deles houvesse carne viva.

A outra referência é mais sutil: um personagem taxista conta à Maju que era pescador, e relembra o dia em que, impressionado com a beleza de uma enorme cioba, abraça e acarinha o peixe para consolá-lo em sua morte certa. Trata-se da descrição de “O Peixe”, vídeo de Jonatas Andrade, uma das obras mais impactantes da 32ª Bienal de Arte de São Paulo (2016).

Essa é a imagem mais potente do livro. Quem é o pescador e quem é o peixe? A resposta não é simples, mas ao mesmo tempo é cristalina.

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