Notícias do país da negação

É só uma gripe comum, não devemos espalhar pânico.

Não é momento de parar a economia.

“Seria um desastre para os negócios promover o isolamento.”

“Só morrem por causa dessa gripe pessoas frágeis e que têm outras doenças.”

Essas frases parecem bem atuais, não é mesmo? Mas elas foram pronunciadas por prefeitos, presidentes de estados e empresários entre outubro e novembro de 1918, quando a chamada gripe espanhola literalmente aportou no Brasil. A história de como essa pandemia passou seu raio fulminante pelo país está contada por Lilia Schwarcz e Heloisa Starling no livro A bailarina da morte: a gripe espanhola no Brasil, lançamento recente da Companhia das Letras, que mostra um paralelo assombroso entre as atitudes das autoridades da jovem e conturbada república brasileira dos anos 1910 e a incrível capacidade de negação das atuais lideranças diante da Covid-19.

As historiadoras foram em busca de fontes documentais da época para traçar no mapa do Brasil o percurso da gripe espanhola. Jornais, laudos médicos, pronunciamentos de autoridades, pressões de empresários, diários de bordo de navios e posicionamentos de gestores dos portos brasileiros foram a base de uma narrativa que persegue os sinais da chegada da pandemia entre nós.

Assim como na Covid-19, a espanhola começou em outros continentes. Naquele caso, o foco inicial pode ter sido nos Estados Unidos e a disseminação da gripe pela Europa se deu pelo transporte de tropas norte-americanas que se somaram aos aliados na fase final da 1ª grande guerra, que já comia solta desde 1914, ceifando milhões de vidas. O vírus encontrou território fértil nos campos de batalha e provocou baixas consideráveis nas tropas. O primeiro capítulo do livro faz justamente essa contextualização. E, como tem sido lembrado recentemente, o nome que a gripe vai ganhar varia de país para país, mas encontra na “espanhola” a denominação mais popular e por um motivo nada singelo. A Espanha era um dos países neutros no conflito europeu e, por isso, não tinha censura militar aos jornais. A imprensa espanhola falou abertamente dos estragos causados pelo vírus, ao contrário de Estados Unidos e países envolvidos na batalha, que censuraram duramente o noticiário, mantendo suas populações na ignorância e, com isso, causando danos ainda maiores. Ficou a impressão de que a gripe teria se originado então em terras espanholas, o que não é verdade.

A partir dessa abertura, as pesquisadoras foram construindo as evidências sobre como o vírus chegou até nós e se espalhou pelo território brasileiro. Tudo começando pelos portos, pois foi nos vapores que faziam intenso tráfego de passageiros e cargas entre os continentes que a doença foi transportada. Cada capítulo narra a chegada da influenza aos nossos portos. O primeiro sinal da espanhola foi dado no porto do Recife, que era a parada inicial de todos os navios que vinham do norte ou do continente africano.

Lilia e Heloísa nos brindam com um texto muito claro, objetivo e nada acadêmico, tornando a leitura fluida, embora seja possível perceber mudanças de estilo que pode ter a ver com as partes que cada uma escreveu.

Os capítulos se sucedem dedicando-se a relatar como o vírus sai do Recife, passa por Salvador, Rio de Janeiro, Santos, Porto Alegre, Belém e Manaus e também como vai se interiorizando pelas vias férreas, atacando São Paulo, Belo Horizonte e outras cidades distantes do litoral.

As reações de cada cidade me fizeram lembrar de uma corrente de e-mails dos primórdios da internet que trazia as manchetes de jornais sobre o fim do mundo, com todas as peculiaridades regionais ou das linhas editoriais. Se você der uma pesquisada, vai achar algumas dessas listas, com supostas manchetes como a da Zero Hora, de Porto Alegre, que indicava que “O Rio Grande vai acabar”, ou da Folha de S.Paulo, com uma pesquisa DataFolha que mostra todas as estatísticas do fim do mundo ou ainda a do Diário de Pernambuco, mais preocupado em anunciar que “Amanhã começa a Festa da Pitomba”.

As reações de autoridades, empresários e médicos têm uma certa padronização. Inicialmente negam os riscos, depois admitem que algo está acontecendo, enquanto as pessoas vão adoecendo e morrendo sem qualquer amparo. Mas as nuances regionais ficam expostas quando os recifenses montam sua habitual central de boatos e temem que os efeitos econômicos da pandemia tirem da cidade o título de maior economia do norte (em 1918 a divisão regional brasileira não tinha nordeste e sudeste). Já em Salvador, o fervor religioso se espalha, com muito sincretismo, e na política o receio era de mais problemas para uma economia em franca decadência. No Rio de Janeiro, centro do poder, a sátira dos jornais convive com o pânico da população e uma infraestrutura que não deu conta de atender doentes e enterrar os mortos. A cidade se esvazia enquanto as autoridades negam os riscos. Já em São Paulo e Santos, os políticos paulistas e os barões do café aproveitam o caos para acirrar a briga política com o poder central. Porto Alegre tenta se proteger, mas a doença se espalha e os líderes do Estado olham mais para o Uruguai do que para a porção ao norte do país. A pacata Belo Horizonte, embora a doença tenha feito estragos, é a capital que melhor enfrenta seus efeitos, não sem problemas, apostando na capacidade mineira de se entocar dentro de casa e permanecer em silêncio. Já as ainda fervilhantes capitais da Amazônia, que já mergulhavam na crise do fim do ciclo da borracha, é o próprio cosmopolitismo de Belém e Manaus, com intenso tráfego de navios vindos da Europa, que vai criar ambiente para disseminação do vírus.

Os números sobre a real devastação provocada pela espanhola são muito frágeis. Se os dados da Covid-19, em pleno século XXI e com todos os recursos tecnológicos de que dispomos são questionáveis, imagine a situação de um país que não tinha um autoridade nacional de saúde – que só viria a ser criada anos depois – e nem serviços médicos municipais confiáveis. Milhares de pessoas morreram naqueles meses entre outubro de 1918 e fevereiro de 1919 e tiveram suas mortes notificadas corretamente, tendo o Rio de Janeiro, capital da república, como a cidade mais atingida em proporção e números totais. Os relatos da época dão conta de muita gente morta pelas ruas, enterros nos quintais de casa, pessoas que nunca tiveram sua existência registrada e cuja morte foi ignorada em um país em que basicamente pessoas brancas e ricas existiam de fato. Tudo indica que a gripe fez muito mais vítimas do que os números oficiais.

A leitura é saborosa também porque traz um quadro dos conflitos políticos que assomavam a república. A pandemia chegou em um ano eleitoral, como a Covid-19 e foi alvo de disputa e acusações entre candidatos. Um capítulo da obra é dedicado inclusive a desmentir a versão fake de que Rodrigues Alves, que já fora presidente e conseguira um novo mandato em plena pandemia, tenha morrido em decorrência da espanhola. Farta documentação mostra que ele tinha a saúde debilitada quando disputou o pleito. Vencedor, adoeceu gravemente em sua Guaratinguetá e morreu antes de poder tomar posse.

O que temos em A bailarina da morte: a gripe espanhola no Brasil é um documento oportuno para o momento que comprova: éramos e ainda somos o país do negacionismo.

P.S.: li a edição para kindle, muito boa, com fotos e fac-símiles de jornais com boa visualização.

P.S.: a foto que ilustra o post é da zona portuária do Rio de Janeiro. Uma das portas de entrada da espanhola. Fiz essa foto da varanda do MAR – Museu de Arte do Rio.

4 comentários sobre “Notícias do país da negação

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