Do quarto de despejo para a casa de alvenaria

Carolina Maria de Jesus ainda morava na favela do Canindé, Zona Norte de São Paulo, quando o lançamento de Quarto de despejo superou todas as expectativas e fez dela uma mulher famosa. Passou a ser personagem de um número incontável de matérias em jornais e TVs de todo o Brasil e tornou-se rapidamente um rosto conhecido; não raro, era abordada por estranhos nas ruas de São Paulo. Passou a ser convidada para eventos da elite política e intelectual enquanto, à noite, dormia com os três filhos sob o telhado de um casebre de tábuas que ela mesma havia construído, e que constantemente alagava.

É no meio desse turbilhão que se desenrola Casa de alvenaria – Vol. 1: Osasco, relançado em nova edição pela Companhia das Letras há poucas semanas. Nesse livro que é também um diário, como em seu trabalho de estreia, Carolina continua narrando seu cotidiano, agora de ex-favelada, mas ainda observadora das dinâmicas sociais ao seu redor. É um livro repleto de ambiguidades, se é que é possível defini-lo de alguma forma.

Carolina agora ganha dinheiro como escritora e está fora da favela, mas os incontáveis compromissos que precisa assumir a impedem de fazer o que mais gosta – ler e escrever. As viagens para lançamento do livro se multiplicam e ela pouco tem tempo para os filhos, a quem finalmente pode alimentar todos os dias. A escritora gosta da bajulação e sente que há um certo poder em sua fama; faz questão de citar nome e sobrenome das pessoas que lhe recebem nos salões, atende todos os jornalistas que a procuram, mas por vezes se sente exausta e um tanto perdida na nova vida – na qual não se sente plenamente aceita -, o que enseja trechos marcados pela introspecção.

Nesse sentido, uma das passagens mais marcantes é a aquela na qual narra sua segunda ida ao Rio de Janeiro. Se hospeda com os filhos no Copacabana Palace a convite do evento de que participaria e sai de lá correndo, sem avisar a ninguém, depois de repetidos embates com a governanta designada para lhe atender. Os maus-tratos evidentemente têm fundo racista, mas a ambiguidade do livro também se desenvolve na não nomeação do problema; trechos adiante, ela expõe ideias mais próximas da visão freyreana de miscigenação e democracia racial.

Ainda assim, se Quarto de despejo se notabilizou pela denúncia contundente das condições de vida na favela paulistana pelos olhos de uma favelada, em Casa de alvenaria a escritora pontua suas denúncias de maneira mais ampla contra a concentração de terras, a indiferença dos tecnocratas e a omissão da burguesia para com as condições de vida da população mais pobre – temas absolutamente atuais, e que por vezes lhe valeram a pecha de comunista, como reclama em um dos trechos:

“Infelizmente não vou ver este povo feliz e bem alimentado. Porque é que os governos não distribuem as terras para o povo. O trabalho que beneficia o homem estimula-o.

Eu penso isto. Mas não digo, porque se eu dizer isto os capitalistas vão dizer:

– A Carolina é vermêlha. É ignorante e semianalfabeta.

Se falamos em solidariedade, pronto, falam que estamos usando o sinête a foiçe e o cutelo.”

Casa de alvenaria é um livro encomendado pela urgência do momento: com o sucesso estrondoso de Quarto de despejo, o mercado clama por um novo trabalho de Carolina – e bem na lógica capitalista, outro diário, para surfar na onda do primeiro best seller. Assim, este é um livro impulsionado muito mais pela força da obrigação do que pela vontade artística, e por vezes soa burocrático. Mas a potência narrativa de Carolina está inegavelmente lá, desde a primeira entrada, quando conta o dia de sua mudança da favela do Canindé para Osasco – um conto perfeito.

É nesse primeiro trecho que se inicia outra das ambiguidades que perdurarão durante todo o livro – a natureza de sua relação com o jornalista Audálio Dantas, que meses antes havia conhecido Carolina enquanto fazia uma matéria sobre a favela do Canindé. Carolina já publicava poemas em jornais e viu em Audálio uma oportunidade; ele, por sua vez, identificou em Carolina muito mais do que uma personagem para uma matéria – a catadora de papel que mantinha um diário de grande potência literária em restos de cadernos que achava no lixo.

Em Casa de alvenaria, Carolina fala de uma relação de afeto e estranhamento, gratidão e desconfiança. No dia da mudança da favela, o caminhão que transportava a escritora e seus pertences é apedrejado pelos vizinhos. “O Audalio e os jornalistas estavam no méio dos favelados”, narra, com uma nota de desgosto. Por outro lado, inúmeras vezes o elogia e lamenta quando ele não está por perto. Como o próprio Audalio editaria Casa de alvenaria, fica a sensação de Carolina usava o texto para, também, passar indiretas ao jornalista.

Casa de alvenaria não tem o vigor concentrado de Quarto de despejo, mas é um trabalho importante para vislumbrar como Carolina se enxergava como mulher e em seu ofício recém-reconhecido de escritora. Além disso, a nova edição da Companhia das Letras, sob a coordenação editorial da escritora Conceição Evaristo e de Vera Eunice de Jesus, filha de Carolina, optou por oferecer os textos integrais, mantendo majoritariamente a forma original de escrita com inúmeros desvios da norma padrão – “considerando-os marcas autorais imprescindíveis para a adequada recepção de sua obra”, segundo a nota introdutória.

A escolha não passou incólume à polêmica. A tradutora Regina Delacastagnè criticou a medida, argumentando que Carolina indicou inúmeras vezes que desejava ser reconhecida como escritora e, a despeito de seus apenas dois anos de estudo formal, queria entrar para o panteão dos “doutores”. Edições de outros livros realizados por ela foram corrigidos por seu desejo expresso; não fazê-lo nesta edição seria uma forma de mantê-la na chave do exótico, apartada do sistema literário que ela queria integrar. Afinal, argumenta Regina, livros de autores brancos também são corrigidos.

Por outro lado a introdução de Conceição Evaristo e Vera Eunice afirma que “a experiência autodidática não deve ser romanceada nem desprezada, mas sim investigada: o modo como Carolina conseguiu criar métodos tão singulares de apropriação da língua portuguesa para construir uma competência própria para a escrita”. É um bom argumento, pois a edição teria potencial para conforma-se não apenas como obra, mas como documento. Contraditoriamente, várias correções foram feitas para adequação à ortografia vigente.

Ao fim da leitura, achei interessante poder ler um texto mais próximo da forma como Carolina o escreveu mas, ao fim e ao cabo, não me ficou uma sensação muito diferente da que tive lendo Quarto de despejo, editado e corrigido por Audálio, que propositalmente deixou alguns desvios da norma padrão.

De toda maneira, como diz a nota introdutória, “a obra de Carolina é viva e permanece em construção”. Só grandes escritores podem se gabar disso.

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