Corpo, tecnologia e capitalismo

Aprecio livros que começam bem, como Sabor idêntico ao natural, de Nathalie Lourenço:

“Mamãe morreu numa quinta-feira, de forma que na segunda já foi trabalhar.”

Não sabemos quem é mãe, o que a levou a bater as botas, tampouco quem é o narrador ou narradora. Mas nas primeiras treze palavras do livro, já levamos um susto, demos uma gaitada (meu caso, pelo menos) e sabemos que estamos diante de um texto que propõe o absurdo como base. Sensacional.

Sabor idêntico ao natural, lançado este ano, me foi gentilmente enviado pela editora Vacatussa, do Recife. É um livro de contos de ficção científica com uma enorme dose de humor e absurdo. A ficção científica aqui, bom dizer logo, tem muito pouco a ver com o futuro distante ou traquitanas tecnológicas. É o sci-fi que tá logo ali, virando a esquina, com uma pitada de nonsense em situções já estranhamente familiares. Como menciona Cristhiano Aguiar no prefácio, é impossível não lembrar da série Black Mirror.

No conto de abertura, a mãe da narradora morre repentinamente e seus filhos são abordados por um cientista que vinha experimentando a continuidade de uma “vida” em moto-contínuo a partir da decapitação das pessoas recém-mortas. Sua premissa, explica o doutor, é reproduzir o que acontece com as galinhas degoladas antes de ir para a panela: se os corpos das penosas podem continuar correndo por alguns minutos sem a cabeça, porque não os de humanos?

Após bastante relutância, mas convencidos pela possibilidade de ganhos financeiros, os filhos concordam em reviver a mãe do pescoço para baixo. Com isso, o cadáver continua, por reflexo, fazendo todas as atividades antes rotineiras. A mãe desmorta se torna a funcionária perfeita, que repete tudo mecanicamente e nunca reclama. Até que pequenas alterações nesse esquema levam o conto a um desfecho engenhoso e inesperado. No fim, o texto acaba sendo uma sátira às formas contemporâneas de relações de trabalho.

O mote do segundo conto é a tentativa de venda no Mercado Livre de uma robô criada para o sexo quando seu dono arruma uma namorada de verdade. Acostumado à submissão e eterna presença de sua androide, o cidadão encanta-se com as agruras de um relacionamento real, com toda a aproximação ritualizada e as brigas inesperadas: “Já na segunda vez que saí com a Deborah, tivemos uma briga estúpida sobre o valet. Foi maravilhoso. Deborah tinha pernas que funcionavam bem e que a levavam para longe de mim. Agora você a vê. Agora não.”

No conto seguinte, uma fotógrafa de guerra decide implantar uma tecnologia de download automático de suas memórias para poder conservá-las caso ocorresse algum imprevisto em campo. O efeito colateral dessa nova simbiose bioeletrônica é que a morte cerebral não precisaria mas significar o fim de tudo. Atingida por um estilhaço na cabeça, a fotógrafa consegue continuar viva, mesmo que sem o cérebro. Mas deixa de sentir emoções.

Chegando nesse texto, fica claro que as relações entre tecnologia e corpo são o principal tema de Nathalie Lourenço. Essas relações são muitas vezes atravessadas pelo capitalismo – são corpos (ou pedaços de) comprados, vendidos, trocados, postos para trabalhar mesmo depois de mortos, ou inteiramente robotizados, tudo em nome da eficiência e da geração de mais dinheiro, levando a uma reflexão sobre humanidade e desumanização. É como O homem bicentenário, conto clássico de Isaac Asimov, só que ao contrário.

Outra marca desse livro é a concisão: são sete contos em apenas 93 páginas em formato de bolso. Com frequência, em uma frase de poucas palavras cabe todo um plot twist – em geral, recheado de sarcasmo e de comentário social que inevitavelmente leva ao riso, como nesse trecho – uma pequena vingança metafórica contra a macholândia que usa a tecnologia para constranger mulheres:

“Houve até o caso de um homem que mandou a foto do pau para o que pensava ser uma mulher e acabou tendo seu pau clonado e usado em pornôs com temas tão pesados que atores reais não topavam fazer”.

Nathalie é paulista, publicitária além de escritora, e já tem outros textos publicados. No Instagram, ela tem postado coletâneas de minicontos temáticos, junto com outros autores.

Para terminar essa resenha, volto ao prefácio de Cristhiano Aguiar: “a ficção científica é menos sobre previsões do futuro e muito mais sobre a expansão do nosso campo de possibilidades”. Quem acompanha o blog já sabe – é desse tipo de sci-fi que a gente gosta.

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