Porque ler ‘A insustentável leveza do ser’

Convenhamos: A insustentável leveza do ser é título de livro fadado a vender muito. Está equilibrado bem ali naquele lugar ambíguo entre a filosofia e a autoajuda, especialmente atraente para quem não é um leitor assíduo. Posso imaginar que um número expressivo de exemplares vendidos desde o seu lançamento,1983, nunca foi efetivamente lido, o que pode explicar a enorme quantidade de volumes antigos e em bom estado à disposição na Estante Virtual.

Só no ocaso de 2021 me aventurei a ler o romance do escritor tcheco Milan Kundera, na 48º edição da Nova Fronteira, publicada em 1985 e comprada por Carlos na antiga Livraria Brasiliense, no centro de São Paulo. Na verdade, meu primeiro contato com esse volume foi para conservá-lo: a impressão é boa, mas o acabamento sofrível, o que fez com o que o livro atravessasse esses 35 anos com a capa solta e a lombada frouxa. Uns três ou quatro anos atrás, peguei alguns exemplares entre os mais maltratados das nossas estantes para colocar em prática os aprendizados do curso de pequenos reparos em livros da Casa Guilherme de Almeida.

Limpei o livro, consertei o livro, deixei-o três semanas descansando sob uns quatro quilos de granito para devolver a lombada ao prumo – e coloquei-o de volta na estante. Até que chegou dezembro e uma bem-vinda semana de recesso que me permitiu tirar parte do atraso da leitura nesse fatídico ano em que juntei freelas, mestrado, e a inauguração de um museu em meio à pandemia (não recomendo a ninguém). Seja como for, acho que fiquei adiando a leitura justamente por causa do hype filosófico, e do receio de encontrar um apanhado de frases feitas dessas que circulam pela internet atribuídas a Clarice Lispector.

Lombada recomposta e reforçada com fita especial.
Reforço interno com papel japonês.

Enfim, li a bagaça do livro – e não é que é bom? Mas por motivos alheios do que leva a crer o título marqueteiro. Abaixo explico um pouco o que me chamou a atenção na leitura. E caso você se interesse, saiba que além das toneladas de exemplares disponíveis em sebos no país todo, tem edição de bolso novinha na Companhia das Letras.

1. Cada cabeça é um mundo

A insustentável leveza do ser é um livro fundamentalmente sobre relacionamentos humanos. O tema é explorado a partir da persepectiva de pouquíssimos personagens – dentre os quais se inclui, com grande importância, uma cadela chamada Karenin. Os personagens centrais são o médico Tomas e a fotógrafa Tereza, que se conhecem por acaso na vila interiorana onde ela morava, antes de mudar-se para viver com ele em Praga. Tomas é mulherengo declarado e mantém “amizades eróticas” com várias mulheres, com as quais, apesar disso, nunca passa a noite. Uma delas é a artista plástica Sabina, que vê com mais recorrência.

Quando explode a invasão russa à Tchecoslováquia, em 1968, vão todos para a Suíça; o caminho de Sabina se bifurca e ela acaba se envolvendo com outro homem, um acadêmico chamado Franz. O que os une e o que os separa? Não há fórmula mágica, tampouco uma resposta única. Uma das coisas interessantes do livro é justamente isso: não há predestinação, não há amor eterno, nem uma receita para relacionamentos duradouros. No fundo, o amor e sua permanência acabam sendo, pura e simplesmente, obra do acaso e decisões conjencturais. Nesse sentido, Kundera parece dizer que chamamos de “destino” apenas aquilo que já foi consumado, numa espécie de autojustificação para as ações passadas.


2. O amor e a política

As decisões conjecturais tomadas pelos personagens de A insustentável leveza do ser estão indiscutivelmente associadas ao momento político em que se passa o livro. Quando a invasão russa acontece, Tereza tem uma semana de sonho fazendo o que gosta: fotografando a reação das pessoas à presença dos soldados soviéticos e abastecendo a imprensa internacional com rolos e rolos de filmes. Quando, por razões de segurança, o casal se muda para Zurique, tudo vai bem para Tomas, mas Tereza pressente que não terá espaço naquele novo mundo em que não há tensões latentes nas ruas. Para que sua vida não se resuma ao companheiro, ela volta à Praga levando Karenin (a cadela). Tomas, inexplicavalemente, vai atrás, e agora eles precisam lidar com uma vida em deterioração sob um vigilante regime comunista. Quando digo que o amor é político, é porque ele é essencialmente negocial, ainda que as negociações não aconteçam de forma clara ou sob uma lógica facilmente explicável. É claro, há a opção de ambos de permanecer em seu país de origem e viver, junto com ele, a crise profunda que afeta a todos.

3. A tal da leveza

Segundo Carlos, setores da esquerda odiaram A insustentável leveza do ser na época em que foi lançado, e dá pra entender por quê. Kundera não poupa críticas ao regime soviético e ao comunismo, sejam diretas, seja por meio dos perrengues sofridos por Tomas e Tereza na volta à Praga. Com a imprensa controlada, ela não tem onde trabalhar e se incomoda especialmente com a sensação de vigilância permanente, que fica evidente quanto o regime vaza diálogos entre intelectuais para defenestrá-los. “Quando uma conversa entre amigos diante de um copo de vinho é divulgada pelo rádio, uma coisa fica evidente: o mundo transformou-se num campo de concentração”. Para Tereza, o pior efeito do nazismo era justamente esse: mais do que a tortura física, a total ausência da privacidade e, com ela, da individualidade.

Já Tomas, em função de uma carta ao leitor escrita no passado para uma revista literária, na qual criticava o comunismo, é levado a abandonar o posto de cirurgião em um hospital público e vai tendo suas possibilidades de atuar como médico cada vez mais restringidas, até ter que assumir trabalhos genéricos para sobreviver. Tomas fica incrivelmente confortável ao fazê-lo e percebe que sua visão prévia da medicina como uma missão trazia peso demasiado à sua existência. Livre disso, ele apenas vive sua vida de mulherengo.

Ao contrário do que se poderia esperar, o contraponto a Tomas não acontece a partir do personagem de Tereza, sempre amargurada com suas puladas de cerca, mas de Sabina. Quando seu amante Franz se separa e ensaia a vontade de assumir com ela um relacionamento sério e público, a artista plástica sai de Genebra sem avisá-lo – e quase se arrepende:

O drama de uma vida pode sempre ser explicado pela metáfora do peso. Dizemos que temos um fardo sobre os ombros. Carregamos esse fardo, que suportamos ou não. Lutamos com ele, perdemos ou ganhamos. O que precisamente aconteceu com Sabina? Nada. Deixara um homem porque quis deixá-lo. Ele a perseguira depois disso? Quis vingar-se? Não. Seu drama não era de peso, mas de leveza. O que se abatera sobre ela não era um fardo, mas a insustentável leveza do ser.

Esse binômio compensa um início de livro que encosta na filosofia de botequim, com duas ou três páginas que metem Nitchzsche, Parmênides e Hitler num balaio de gato difícil de explicar, mas cujo resumo é: haveria uma contradição inerente ao binômio pesado-leve que consiste em saber o que seria negativo, o que seria positivo, e qual dos dois escolher. Mais adiante, Tomas e Sabina quebram essa lógica: para ele, a leveza era positiva, para ela, negativa – ou seja, a própria leveza tem seu peso, às vezes impossível de suportar. Kundera torna a questão mais complexa e expõe, retrospectivamente, o engodo superficial que ele mesmo criou no começo do livro. Uma isca, uma pegadinha ou ambos?

4. Lógica e ironia

Em vários trechos do livro, Kundera categoriza os comportamentos humanos descrevendo padrões arquetípicos e julgando seus próprios personagens a partir disso, e da lógica (ou falta dela) em suas decisões. Às vezes é reducionista? Sim, sem dúvida. Mas assim como piadas e chistes são baseados em generalizações, o romance as explora com graça e ironia, provocando no leitor a tentativa, nem que seja inconsciente, de tentar se encaixar entre os tipos descritos.

“Os caçadores de mulheres podem facilmente ser divididos em duas categorias. Uns procuram em todas elas sua própria idéia da mulher, como lhes aparece em sonho, subjetiva e sempre a mesma. Outros são levados pelo desejo de tomar posse da infinita diversidade do mundo feminino objetivo”.

Eu só posso achar que essa operação era completamente deliberada, e pensada mesmo, assim como o título do livro, como uma pegadinha para incautos procurando o sentido da vida naquelas páginas.

=== ALERTA DE SPOILER A PARTIR DAQUI ===

5. Finalmente, o amor verdadeiro

Tomas, Tereza, Sabina, Franz, tudo muito bom, tudo muito bem. Mas quem leva o leitor às lágrimas é Karenin, a cadela adotada pelo casal de protagonistas. Adoecida pela idade, ela fica cada vez mais fraca, e é cuidada por Tomas e Tereza com uma devoção e verdade que não apareceram até então no livro – um “amor idílico”, como descreve Kundera. O envelhecimento de Karenin parece antecipar o envelhecimento dos próprios protagonistas, e a experiência com a cadela mexe algumas chaves em ambos. Há também uma importante reflexão sobre a vida e sobre o poder de decidi-la por outro ser: qual é o limite do sofrimento de Karenin? Quando será a hora de sacrificá-la? Como alguém que tem uma beagle prestes a fazer 17 anos, isso é algo que me preocupa. E mais ainda: e se um dia eu tivesse que decidir pela vida de outro ser humano? A quem eu confiaria a decisão sobre a minha própria? Taí, finalmente algum peso no romance.

Eu poderia falar de muitas outras coisas, inclusive sobre o sexo em A insustentável leveza do ser. Mas chega, o post já está enorme e agora é com você, leitor, o mergulho nesse universo. Se animar, depois volta a aqui pra dizer o que achou.

Até a próxima e um 2022 repleto de camarões para todos os brasileiros. Todos mesmo.

Um comentário sobre “Porque ler ‘A insustentável leveza do ser’

  1. Kundera em seu país e Ismail Kadaré na Albânia, serviram-se e se aproveitaram dos regimes comunistas, depois, qdo estes estavam pendurados por um fio para cair, sem a ajuda deles, então, tornaram-se anticomunistas de ocasião e estragaram suas obras com uma militância exagerada e falsa, talvez, até culpada. Ainda hoje, nonagenário, Kundera se recusa a falar sobre sua juventude comunista. Agora, afora isso, escrevem bem.

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