A filha perdida, o livro clonado e o filme desperdiçado

O frisson causado pelo lançamento do filme A filha perdida, adaptação para o cinema da obra homônima da escritora sensação Elena Ferrante, me fez voltar aos textos da italiana. O romance era um dos poucos já lançados no Brasil que ainda não tinha lido. Eu e Renata combinamos que só assistiríamos ao filme depois de passar pelo livro. E foi o que fizemos nesta semana.

Como aconteceu em todos os romances de Ferrante, a leitura de A filha perdida foi praticamente de uma sentada só.

A escritora italiana, como já escrevi anteriormente ao resenhar Dias de abandono, tem a fórmula do encantamento literário. Prende o leitor e a leitora com uma sucessão de cenas que a cada fim de capítulo te fazem querer avançar até o desfecho, que vai se anunciando aos poucos, numa construção engenhosa, sempre em um crescente de tensão e novas revelações que se encaixam perfeitamente ao final da trama. Isso não é pouco, exige muito talento para contar boas histórias. E Elena Ferrante o tem de sobra, conseguindo agradar leitores de todos os matizes. Não é por acaso que sua Tetralogia Napolitana tornou-se um dos maiores fenômenos literários deste começo de século, com direito à tag #FerranteFever bombar nas redes sociais há poucos anos.

Ter lido o romance antes de assistir ao filme nos ajudou a entender muitas lacunas que a obra cinematográfica não abordou. Ou que alterou de forma sutil, empobrecendo um pouco a trama.

O primeiro estranhamento é saber que o festival de cinema de Veneza deu ao filme o prêmio de melhor roteiro (!!). Sinceramente, quem escreveu o roteiro teve muito pouco trabalho, pois assistimos a uma adaptação quase literal do romance, até mesmo nos diálogos. No lugar do litoral italiano, entra uma ilha grega. A professora italiana vira uma docente universitária de origem inglesa que mora nos Estados Unidos. Essas são as grandes alterações. De resto, está tudo lá, prontinho, no livro.

E vamos a ele, o romance.

Como já disse lá em cima, trata-se de mais uma reciclagem de temas da “Fórmula Ferrante”, com histórias que se repetem em tudo que já li:

  • Nápoles

A cidade aparece agora como um cenário distante, tal como em Dias de abandono. Se este se passa em Turim, A filha perdida tem sua trama centrada entre Florença, a cidade onde mora Leda, a professora universitária, e a costa jônica, lugar escolhido para as férias. Mas a numerosa família napolitana que toma conta da sossegada praia em que Leda fazia seu veraneio não a deixa esquecer de suas origens. O dialeto está sempre presente e as relações sociais um tanto obscuras, dominadas pela forte presença da máfia, estão ali, latentes.

  • Uma praia, uma criança perdida

O último tomo da Tetralogia Napolitana tem o nome de A história da criança perdida. Coincidência? Nenhuma.

  • O peso da maternidade

Está na Tetralogia, está em Dias de abandono. E se na saga napolitana o tema perpassa várias das vidas de mulheres retratadas, é bom lembrar que o nome da principal personagem é Lenu, Elena, o mesmo da menina perdida do livro/filme. Voltarei a esta temática mais pra frente.

  • Os dilemas da mulher contemporânea

As mulheres de Elena Ferrante têm histórias de rompimento com a opressão de um passado nos bairros populares de Nápoles. Mas são rupturas carregadas de contradições. Lenu da Tetralogia, Leda de A filha perdida, Olga de Dias de Abandono e Giovanna de A vida mentirosa dos adultos buscam sair de um ambiente pobre e cercado de machismo pela via da educação. Mas sempre esbarram nos obstáculos refinados do machismo quando começam carreiras universitárias e buscam independência de maridos, pais e mães. No fim das contas, mudam os cenários, mas as estruturas opressoras são as mesmas, só que mais sofisticadas.

  • Casamentos destruídos

O machismo, a falta de oportunidades profissionais em igualdade de condições e, principalmente, o peso da maternidade, acabam por adiar ou interromper planos, limitar os voos profissionais e pessoais que as mulheres de Ferrante desejam ter. E quando se separam, cai sobre seus ombros toda a pressão e a culpa por “não cuidar direito das crianças”, enquanto os machos ficam leves e soltos para seguir suas carreiras e suas vidas amorosas.

//////////////////atenção, pode conter spoilers/////////////////

Mas é no tema da maternidade que A filha perdida entra em mais detalhes do que nas outras obras citadas.

Embora o filme esteja levantando o debate sobre abandono materno, o peso da maternidade para as mulheres e a enorme desigualdade de dedicação entre homens e mulheres nos cuidados com as crianças, tive a percepção de que há uma certa superficialidade no modo como Leda explica o porquê de abandonar as filhas, ainda pequenas, o marido, com quem não suportava mais viver, e se arriscar em uma possível carreira acadêmica brilhante, além de se sentir, pela primeira vez, livre para o sexo e o amor com outros homens.

No filme esse momento é marcado pela culpa, especialmente no momento em que a jovem Leda sai pela porta da cozinha. No livro, ela sai, simplesmente, sem carregar ressentimento ou saudade. Vive seus três anos longe das filhas, sem contatos, sem pensar nelas. E, um dia, simplesmente volta. Enquanto isso, a reação do marido transita entre o desespero e a raiva. E, pra variar, no uso do suporte feminino para lidar com as crianças. Nesse caso, a temida Nápoles dos dialetos e dos modos bruscos. E era tudo que Leda havia pedido ao marido. “Nunca recorra a Nápoles”.

O filme constrói uma Leda da maturidade um tanto mais insegura e hesitante do que aquela que, no livro, aos 48 anos, sente que rejuvenesceu, emagreceu, e ficou mais atraente aos olhos dos homens. Ela tem amantes ocasionais e está vivendo sozinha, depois que as filhas, já na faixa do 20 anos, vão morar com o pai em Toronto. É nesse contexto que resolve sair de Florença e do conforto do ar condicionado para um inédito período de férias na praia, sozinha.

A Leda do filme é excessivamente introspectiva e tem sua personalidade mais carregada para o lado sombrio que se desenrolará na trama a partir da história do roubo de uma boneca.

É claro que a Leda do romance também carrega uma relação um tanto estranha com a boneca que tomará de uma criança da família napolitana, na praia e que remeterá a uma cena do passado, que envolve sua boneca da infância e as filhas. Mas a Leda do livro tem mais contradições do que a personagem do filme, um tanto caricata em alguns momentos.

Outro ponto que é abordado até com certa futilidade é a relação de Leda com Nina, a mãe da menina perdida. Há um contato visual e, depois, pessoal entre ambas. Mas a conexão de Nina, mãe de Elena e mulher de um mafioso machista e violento, é com a Leda da juventude. Aquela que teve coragem de abandonar as filhas para ir viver seus próprios planos. Nina quer ser aquela mulher, mas não tem coragem. E quando parece que vai encontrar um meio de se rebelar, vem o desfecho final, que não vou revelar aqui.

Por fim, o debate sobre idealização da maternidade que explodiu nas redes sociais assim que o filme estreou é talvez o melhor legado que a transposição para o cinema trouxe. O tema tomou conta de minha timeline nas últimas semanas. Mas é preciso ressaltar que Leda não é uma pessoa que detesta crianças. Não odeia as filhas. Ao contrário. É uma mãe excessivamente protetora, que projeta nas filhas muitos de seus desejos e projetos frustrados. Ela simplesmente teve a coragem de dizer que não poderia carregar aquele fardo sozinha enquanto tentava ser uma profissional brilhante, se equilibrando entre as obrigações acadêmicas e o cuidado com as crianças. Enquanto isso via o marido seguir seu caminho sem praticamente nenhum obstáculo. Esse é um dos pontos centrais de A filha perdida.

Viu o filme? Leia o livro, que tem edição novinha da Intrínseca. Eu achei que o filme foi um desperdício de uma boa história. E você, o que achou?

7 comentários sobre “A filha perdida, o livro clonado e o filme desperdiçado

  1. Acabei de assistir o filme, mas não li o livro. Portanto, a opinião não é comparativa.
    Achei que o filme trouxe os elementos necessários para a discussão da idealização da maternidade. E não é um filme 100% óbvio, tem suas pequenas nuances e esquisitices. Bom!

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    1. O filme não é ruim. Concordo que ele coloca em debate as questões de idealização da maternidade e o modo como ele vem sendo discutido nas redes sociais atesta isso. Mas o livro tem camadas mais profundas e Leda, a personagem principal, não é tão soturna quando a vivida por Olivia Colman. Pelo contrário, é bem mais complexa e interessante.
      Obrigado pelo comentário e pela visita. Se tiver oportunidade de ler o romance, volte aqui para compartilhar suas impressões.

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  2. Vi o filme e gostei. Entretanto, devo ter um problema sério, pois já tentei ler 3 livros da Ferrante e não consegui terminar nenhum, simplesmente não “me pegou”. O erro deve estar em mim, com certeza.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Elena Ferrante não é uma genial inovadora da linguagem literária. Ela escreve bem e conta histórias de forma envolvente. A Tetralogia é a melhor obra dela. Mas o primeiro volume faz muita gente abandonar a leitura, porque é narrado na perspectiva de uma adolescente e, por vezes, é um tanto naïf, porque é esse o efeito que ela quer dar à história. À medida que Lenu, a narradora, cresce, os volumes seguintes ficam mais complexos. São um belo passeio pela história e pela política italiana do século XX.

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