Morte e vida na roda de uma bicicleta

“Algo deve mudar para que tudo fique como está”, diz a frase mais famosa de O leopardo, romance histórico de Giuseppe Tomasi di Lampedusa sobre o fim da aristocracia italiana na virada dos séculos 19 para o 20. Caíram os títulos nobiliárquicos, mas não a concentração de poder, note-se. Com a extinção batendo na porta, os nobres unem-se à burguesia na “nova ordem” republicana para continuar no topo, mesmo que sob outro rótulo – a este processo se refere o personagem Tancredi com a famosa citação.

Os mecanismos de dominação se modificam, mas não a dominação em si. É sobre isso a peça Estudo nº 1: Vida e Morte, que o grupo pernambucano Magiluth apresenta no Sesc Ipiranga até o dia 6 de março, propondo uma interpretação original do poema Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto. Escrito entre 1954 e 1955 como um auto de Natal encomendado pelo Tablado, grupo de Maria Clara Machado (que nunca o encenou), a obra ficou famosa em todo o mundo com a montagem de Silnei Siqueira musicada por Chico Buarque. Você certamente já ouviu O funeral de um lavrador:

Portanto, não é sem consciência desse peso que um grupo de teatro contemporâneo remonta uma peça tão presente na memória cultural brasileira. Mas não estamos falando de qualquer grupo. O Magiluth é formado por atores de atitude inquieta. Quando recorrem ao cânone, é para entrar por suas brechas, virá-lo do avesso, expor o que tem de essência atemporal e eventualmente contestá-lo. É o que fazem com Morte e Vida Severina, e seria um erro classificar a montagem deles de mera adaptação.

Pra começo de conversa, o grupo traz para o palco a própria dinâmica de destruição e reconstrução do texto, de forma que a palavra Estudo no título da peça não é mera retórica. Isso de dá por meio de um processo palimpséstico, em que camadas de elaboração vão sendo acrescentadas à medida em que a peça evolui, deixando as anteriores à mostra, inclusive os rastros de sua eliminação. Nesse percurso, entram menções a montagens anteriores do grupo, montagens anteriores de Morte e Vida, e ideais para a própria peça. Elas vão sendo modificadas no palco, à vista do público, aparecendo a seguir com novas nuances ou completamente transformadas.

Até aqui falamos de método, mas e o conteúdo? Estudo nº 1 trabalha a denúncia social apresentada em Morte e vida Severina a partir de perspectivas contemporâneas, fazendo ligações entre passado, presente e futuro, complexificando as relações de poder apresentaads na obra original. Assim, o retirante Severino é substituído por uma massa de trabalhadores que pedalam vários quilômetros por dia para receber menos do que é suficiente para alimentar-se – uma massa de trabalhadores espalhada por todos os cantos do mundo, por todas as metrópoles, e não mais apenas no Nordeste da seca.

A roda da bicicleta substitui a roda do engenho na função de moedor de gente, cooptada por um capitalismo que aprendeu bem rapidão a incorporar o discurso da sustentabilidade para fazer de conta que não é ele próprio o responsável pelo aquecimento global. E o faz incorporando, ainda, o discurso da disrupção (a palavrinha da moda) nas relações de trabalho: seja empreendor de si mesmo enquanto morre pedalando, ou dirigindo, ou costurando um mesmo detalhe ínfimo do que se tornará uma calça jeans, resultado do trabalho de dezenas de pessoas especializadas cada uma numa parte minúscula diferente, de forma que nenhuma delas sabe, realmente, costurar uma calça. Nada de novo depois do invento do fordismo, exceto que agora os trabalhadores explorados se acham patrões de si mesmos e donos dos meios de produção, enquanto repetem o mesmo movimento por até 14 horas num dia.

O Magiluth amarra tudo isso com recursos cênicos econômicos – várias bicicletas no palco, é claro, mas principalmente um véu onde se projeta, o tempo inteiro, uma tela de computador, com várias abas de navegador abertas. Toda a peça é pontuada por frenéticas buscas no Google, o oráculo global da última década, que tudo sabe, tudo responde e todas as distâncias elimina. Será?

Voltemos a João Cabral: bem no início do poema, Severino se apresenta, tentando indicar como se singulariza diante de tantos outros Severinos com pais e ascendentes de mesmo nome, só para concluir ao final que são todos “iguais em tudo na vida”.

“como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias.
Mas isso ainda diz pouco:
há muitos na freguesia (…)”

O Magiluth subverte essa ideia e o verso “Mas isso ainda diz pouco” vira refrão, repetido durante toda apresentação para lembrar ao público as armadilhas da simplificação e da estereotipia. Isso fica bastante claro no trecho em que um dos atores busca no Google a imagem de um nordestino, e só encontra a imagem de um homem moreno e magro, de pele enrugada, vestindo gibão e chapéu de couro – a velha e batida imagem de sertanejo mitificada pela mídia. Não satisfeito, o personagem vai especificando cada vez mais os termos de pesquisa para tentar se ver nas respostas, mas o Google não encontra nada parecido com ele próprio: um ator nordestino gay nascido e criado no litoral.

Ao fim, sem sucesso com o Google, acaba encontrando o vídeo de um homem no meio de um canavial dançando Billy Jean ao perfeito estilo de Michael Jackson, vestindo o que parecem ser um uniforme para o corte da cana. O ator interaje com a tela vestindo roupas estilizadas de caboclo de lança, incluindo um manto, não por acaso, feito com retalhos de jeans. Ser nordestino não cabe num algoritmo – nenhuma identidade cabe. (Impossível não lembrar da série de reportagens Os Sertões, de Fabiana Moraes, que é inteira dedicada a desconstruir a imagem mitificada do sertanejo – publicada originalmente pelo Jornal do Commercio, em 2009).

Foto: Mariana Beda/Divulgação

Há outras leituras políticas do texto de João Cabral. A contraposição entre morte matada e morte morrida ganha na peça outro significado. Como repetem os atores em uns três momentos diferentes, quem morre de fome morre assasinado. E se em Morte e Vida Severina o lavrador recebe finalmente seu quinhão de terra quando é enterrado (“é a parte que te cabe nesse latifúndio”), um entregador de bicicleta nunca conseguirá dinheiro o suficiente para pagar os dois metros quadrados de que precisa num cemitério de metrópole.

Sendo um auto de Natal, o poema termina com uma mensagem de esperança pelo nascimento de uma criança, uma vida a ser celebrada, ainda que severina. A peça termina na denúncia da morte uberizada, uma morte invisível, que a ninguém comove – e como diz outra canção de Chico Buarque, apenas atrapalha o tráfego.

Infelizmente só escrevo essa resenha a tempo do último fim de semana de Estudo nº 1: Morte e Vida no Sesc Ipiranga (veja se ainda há ingressos aqui). O que posso dizer? A peça merece circular muito mais e espero que os meninos consigam logo outra casa para que seu excelente trabalho encontre o maior número possível de pessoas.

Foto: Vitor Pessoa/Divulgação

PS: Todas as fotos desse post (exceto a folha de rosto de Morte e Vida Severina) são de Vitor Pessoa/Divulgação.


PPS: Essa foi a segunda vez que pedi licença aos nossos leitores para escrever não sobre literatura, mas sobre uma obra em outra linguagem baseada em literatura. Fiz isso antes com O cão sem plumas, espetáculo de dança da Companhia Débora Colker, também sobre poema de João Cabral.

PPPS: Carlos acabou de ler a biografia de João Cabral de Melo Neto e pela quantidade de comentários que fez durante o processo, vem resenha por aí. Spoiler: ele odiava Morte e Vida Severina.

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