No ano passado a Fuvest surpreendeu todo mundo ao mudar a lista de livros que já tinha definido para o vestibular de 2026 (cujas provas acontecem no final de 2025) elegendo apenas mulheres. Pelos próximos três anos, a lista de obras obrigatórias será composta exclusivamente por autoras de língua portuguesa. “Ousado”, pensei. Veio daí a ideia de ler e resenhar os livros aqui no blog, pensando em juntar duas vontades: ajudar de alguma forma os vestibulandos que querem entrar na Universidade de São Paulo e conhecer novas escritoras e obras que não estavam no meu radar.
A decisão da Fuvest foi polêmica, é claro, como tudo que envolve homens deixando de ser o centro exclusivo das atenções. Houve choro e ranger de dentes por parte de escritores e professores (inclusive mulheres) que não conseguem conceber um vestibular sem Machado de Assis e outros autores do cânone da literatura nacional. Fato é: desde 1987, quando a lista de obras foi instituída, houve 20 vestibulares apenas com homens. Apenas quatro mulheres figuraram entre as obras obrigatórias ao longo de 36 anos de concurso, como bem pontua texto publicado originalmente pela Deutsche Welle: Clarice Lispector, Cecília Meireles, Lygia Fagundes Telles e Helena Morley.
Quatro mulheres. Em 36 anos.
A desigualdade estava dada. Não há argumentos possíveis contra o que é tão cristalino e a Fuvest foi correta na decisão de dar essa chacoalhada. Posto isso, acho que podemos, sim, discutir os livros escolhidos.
O primeiro da lista é Opúsculo humanitário, de Nísia Floresta, uma mulher nascida em 1810 numa região que pertencia à Paraíba, e hoje é Rio Grande do Norte. Obrigada a se casar aos 13 anos, teve o pai assassinado antes de virar adulta, se divorciou quando essa noção nem existia e casou novamente com outro homem, com quem teve dois filhos.
Ainda nos anos 1830 traduziu Direito das Mulheres e Injustiça dos Homens, obra precursora do feminismo de um autora francesa incógnita. Foi dona de um colégio para meninas no Rio de Janeiro cujo maior diferencial era instruí-las nas mesmas matérias que também eram ensinadas aos meninos, e não apenas nos conhecimentos úteis para torná-las donas de casa. Opúsculo humanitário é uma coletânea de artigos de Nísia sobre os seus pensamentos a respeito da educação das mulheres no Brasil, partindo de suas próprias experiências como educadora.
Até aí, tudo bem.
O problema é que o livro é ruim. Mal escrito, de verdade, e não tem como dizer isso de outra maneira. Como literatura, uma experiência quase tão torturante quanto Marília de Dirceu, que estava na lista do ano passado. O texto é exageradamente rebuscado, como alguém que tenta escrever usando todas as palavras difíceis que aprendeu a vida inteira, além de cheio de tentativas de demonstrar erudição que só atrapalham o foco principal – que seria defender a educação das mulheres como caminho indispensável para o desenvolvimento do Brasil.

No início do século 19, as meninas (brancas) aprendiam a ler e fazer contas básicas, e nada mais. Eram mantidas na ignorância, pois estavam destinadas ao casamento desde muito jovens e delas se esperava apenas que cuidassem da casa. “Cuidar”, é modo dizer, pois todas as famílias que podiam mantinham mulheres negras escravizadas a quem efetivamente cabiam os serviços domésticos e os cuidados com as crianças, incluindo a amamentação de bebês. Meninas negras, evidentemente, não iam à escola.
Nísia defende que a educação das mulheres é necessária ao processo civilizatório e denuncia as desigualdades com relação às oportunidades dadas aos homens. Em 1852, havia mais de 55 mil meninos matriculados em escolas públicas no Brasil contra apenas 8 mil meninas, e apenas no ensino primário, pois era proibido que elas atingissem o nível secundário. O Opúsculo denuncia que a maior parte das professoras de meninas careciam elas mesmas de instrução. Somando isso a programas pedagógicos focados na formação para tarefas domésticas, o resultado era um ensino, obviamente, deficitário.
Nesse sentido, entendo o texto como um documento importante de visibilização de um problema grave e real. O livro, no entanto, tem posições complicadas com relação a religião, raça e autonomia efetiva das mulheres. Nísia faz uma defesa ferrenha de que a educação feminina tenha como base a formação religiosa católica. Este não é um detalhe em Opúsculo, mas a própria base do argumento. Segundo a autora, conhecimento sem uma moral cristã apenas levaria as mulheres à perdição.
A função da educação seria antes dotá-las de moralidade religiosa e recato, tendo como objetivo final prepará-las para que pudessem “melhor preencher os deveres de filha, esposa e mãe”. Ainda que Nísia denuncie a oposição masculina à educação das mulheres como um artifício para manutenção do poder absoluto, ela não questiona a instituição do casamento – bem pelo contrário. A educação seria o caminho para aquisição de alguma autonomia e independência, mas ainda dentro da lógica do matrimônio como destino inescapável. A garota deveria estudar para se tornar “a mais útil amiga do homem”.
Nísia chega a defender que, no melhor dos mundos, essa educação deveria ser dada em casa, pelas próprias mães das garotas, evitando que tivessem contatos perigosos com as “paixões” do mundo lá fora. Na lógica dela, a educação de mulheres em escolas é desejável para sanar essa infeliz impossibilidade, já que dificilmente as mães têm instrução o suficiente para assumir a educação no ambiente doméstico.
É difícil saber qual a intenção da Fuvest ao escolher esse livro e que tipo de pergunta vai ser colocada, mas acredito que irão assumir a perspectiva histórica. Nesse sentido, o mais provável é que Nísia Floresta seja enquadrada hora como “uma mulher à frente do seu tempo”, pela defesa da educação feminina e da importância das mulheres para o desenvolvimento do País; e hora como “uma mulher do seu tempo”, pelo apego à religião, ao positivismo, sua visão de raça e algumas outras questões, que elenco abaixo. Em alguns momentos, chega até mesmo a ser reacionária, quando fala que as mulheres não deveriam ler “inflamantes e perigosos romances”, mas apenas livros de moral e filosofia religiosa.
Lembremos que os textos Opúsculo foram escritos em 1853. O regime escravocrata estava plenamente vigente e apena três anos antes, em 1850, o tráfico negreiro fora proibido (o contrabando continuou, é claro). O Brasil já era independente de Portugal, mas ainda vivia sob o herdado regime monarquista, tendo D. Pedro II como imperador. Olhava-se para a Europa como exemplo do tipo de desenvolvimento e cultura que se queria ter no Brasil, tanto que era mirando Inglaterra, França e Alemanha que Nísia defendia a educação das mulheres.
Aqui alguns sinais, no livro, do tempo em que ele foi escrito:
Para Nísia, inteligência é sinônimo de educação formal. Ela ignorava outras formas de saber e de circular conhecimento que não fosse através do ensino estruturado (visão que perdura até hoje em muitos círculos). O que ainda se buscava, na época, era a institucionalização plena da educação no Brasil.
- O Brasil estava independente há apenas 30 anos, e Portugal era visto com ressentimento. Em um trecho do livro, Nísia chama a ex-metrópole de “pigmeu insuflado de suas glórias passadas” – e aqui eu ri alto.
- Nísia era abolicionista, ou seja, defendia a libertação das pessoas negras escravizadas. Mas entre ser abolicionista e não ser racista há um oceano, e é importante nunca esquecer disso. Ela condenava o uso de amas de leite negras para amamentação de crianças brancas pelo risco de contaminação física e moral dos bebês pelo “leite impuro” que muitas vezes vinha direto do açoite ao berço, e não porque a situação fosse desumana e degradante para as mulheres negras. Conviver com os negros em casa significava ter “uma primeira infância cercada de outras tantas perniciosas lições (…) gestos, palavras e atos desta infeliz raça desmoralizada pelo cativeiro e condenada à educação do chicote!”. Era uma má influência, também, que as crianças vissem as pessoas negras a “iludir o senhor e atenuar os sofrimentos da escravidão”.
- A industrialização na Europa inspirava Nísia a defender “incentivos do amor ao trabalho” para classes operárias e que os brasileiros fossem acostumados a um porvir em que todo o trabalho seria feito por mãos livres.
- Pessoas indígenas deveriam, na sua visão, ser submetidas à educação religiosa para fins civilizatórios. Mulheres indígenas seriam mais aptas a cuidar dos filhos das brancas, pois mais íntegras e submissas que as africanas.
Em outros pontos do texto, há visões inesperadamente avançadas, como quando lamenta a inexistência da educação física e o sedentarismo das famílias, ou quando defende que a educação formal deveria ser oferecida de maneira igualitária em todas as regiões do Brasil. E há também visões ambíguas, como quando condena o uso de espartilhos, que chegam a machucar e até matar mulheres e crianças, mas leva junto toda a participação de mulheres em bailes, festas, teatros e quaisquer sinais de vaidade.
Enfim, um texto chato de ler e difícil pela linguagem rebuscada; de maior interesse histórico do que literário. Da mesma época, 1859, a Fuvest poderia ter escolhido Úrsula, de Maria Firmina dos Reis, primeira romancista brasileira. Uma mulher negra e maranhense que desafiou as autoridades ao abrir uma escola mista em sua cidade, igualando o ensino dado a meninos e meninas – ou seja, uma possibilidade dentro do mesmo campo temático que aparentemente orientou a escolha de Nísia Floresta, e bem mais interessante literariamente. Se tem interesse em saber mais, veja esse vídeo que gravei sobre Úrsula.
Como texto em domínio público, há várias edições de Opúsculo humanitário por aí. A que eu li é da editora Via Leitura. Pelada (sem textos de apoio) e apenas correta no projeto gráfico e encadernação. Fui pelo preço mesmo.
Foto em destaque no topo do post: Escola Normal Caetano de Campos (São Paulo)/CRE Mario Covas
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2 comentários sobre “Livros da Fuvest: ‘Opúsculo humanitário’, de Nísia Floresta”