A família que morria de desgosto

“O marido tinha morrido de Maiakóvski, segundo a maioria das velhas, apesar de o atestado de óbito rezar infarto agudo do miocárdio.”

É assim que a morte do patriarca dos Costa e Oliveira é narrada nas primeiras páginas do romance Glória, livro de estreia do escritor Victor Heringer, morto recentemente, aos 29 anos, que ganha nova edição pela Companhia das Letras.

GlóriaNele, acompanhamos a trajetória de três irmãos: Daniel, Abel e Benjamim, filhos do homem que morreu de Maiakóvski, que com a mãe do clã constituiu uma família sui generis, baseada em um modo cínico e irônico de ver o mundo. Uma família onde o sarcasmo e as piadas atingem tudo e todos, com o bordão “deus é, era gago” sendo usado como piada interna toda vez que algo dá errado.

Para começar o romance, Victor lança mão de um artifício do qual não gostei. Em um prólogo assinado pelo autor ficamos sabendo que este não escreveu a obra. Apenas assinou o texto que veio da lavra de um certo Ambrósio Silva Costa e Oliveira, supostamente parente dos irmãos. A história não é convincente e fica ainda mais forçada no epílogo. O livro se sustentaria bem sem essa brincadeira, que parece querer colocar em xeque a ideia de autenticidade e autoria nas obras de arte, algo que vai ser tratado ao longo da narrativa.

Podemos dizer que a trama alterna-se basicamente entre dois dos irmãos. Abel, que se torna pastor, parte em missão para a África, e retorna com o projeto de lançar sua própria igreja no interior fluminense. E Benjamim, um artista frustrado, que usa a teia de relações da mãe, uma respeitada cientista social, e vai trabalhar em um museu.

Entre os delírios religiosos do pastor e um amor platônico do artista frustrado vão se acumulando situações non sense. A maior delas, o mito de que os Costa e Oliveira morrem de desgosto (ou de Maiakóviski) que é tratado como um fenômeno da contemporaneidade, em uma alusão direta e não muito sutil ao crescimento dos casos de depressão na população mundial. Em dado momento, uma das tias do clã afirma que “todo mundo é um Costa e Oliveira”, decretando que a humanidade caminha para morrer sempre de desgosto.

A construção de uma igreja move os sonhos megalômanos do pastor, que prega uma religião popular, vai ganhando adeptos quando faz pregações apaixonadas na praça da pequena cidade. E parece perder o jeito quando enfim inaugura o suntuoso templo.

Já para o artista, a busca pelo amor de Paula, uma pessoa com quem ele teve contato visual fugaz em um vernissage do museu, o leva a uma comunidade virtual chamada Aleph, onde os participantes assumem nomes de intelectuais e artistas, como “Charles Chaplin, um fotógrafo amador de Cariacica (ES). Nesse ambiente, em que charadas e desafios intelectuais constroem ou arrasam reputações virtuais, é que se concentra grande parte das referências literárias e artísticas de que Victor Heringer lança mão.

Benjamim consegue algo raro. Um encontro real, mas com a Paula errada. Como em uma comédia de erros, sua vida vai se arrastando entre momentos epifânicos, interrompidos por acontecimentos insólitos, e grandes períodos de marasmo.

Como disse Vinícius Justo, nesta resenha, Glória pode ser uma leitura ruim se você quiser enxergar nela profundidade, na miríade de citações, algumas muito óbvias, como a da invasão das formigas no apartamento de Benjamim no bairro da Glória (daí o título), em clara alusão a Oswald de Andrade.

Mas se você quiser uma boa diversão e for bom para detectar ironias, o romance pode ser divertido. E, talvez, tenha sido essa a intenção do autor. Em meio às pirotecnias, usou o Rio de Janeiro, a saga de três irmãos, as referências machadianas, para construir uma alegoria irônica de tempos em que os clãs familiares são cada vez mais esfacelados, brigam ferozmente nos grupos de Whatsapp, onde o verniz das relações falsas e forçadas se rompe.

Um dos pontos altos do romance está em pequenos capítulos em que aparecem comunicados da síndica do prédio onde vive Benjamim e textos tirados do noticiário, onde a realidade parece mais absurda e ficcional do que os delírios e ironia da família Costa e Oliveira.

Vale ler Glória e, se você ainda não conhece, vale muito a pena ler o último romance de Heringer, O amor dos homens avulsos, que resenhamos aqui.

 

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