Pequeno guia para identificar fascistas

Numa daquelas inflamações alambicadas (para usar a genial expressão de Graciliano Ramos) em uma livraria dei de cara com o pequeno volume de O fascismo eterno, do ensaísta, romancista e linguista italiano Umberto Eco, uma das vozes mais lúcidas do século XX e do começo deste novo século, que nos deixou há poucos anos. O livro, em tamanho de bolso e com 63 três páginas, era uma tentação e não pude deixar de comprá-lo, junto com outros, é claro.

A leitura foi rápida. E assustadoramente atual. O fascismo eterno é o texto de uma conferência que Eco proferiu em 25 de abril de 1995 na Columbia University, nos Estados Unidos. Portanto, há exatos 25 anos. Ainda naquele ano, foi publicado pela The New York Review of Books, com tradução para o italino na Rivista dei Libri. E chegou ao formato livro pela primeira vez como um dos textos dos Cinco escritos morais, uma coleção de ensaios de Umberto Eco que tem edição brasileira pela Editora Record, a mesma que agora resolveu destacar o texto em um livro à parte.

E trata-se de uma bela edição, com projeto gráfico interessante e impressão acima da média da qualidade habitual da Record, que por vezes parece imprimir seus livros ainda em tipos de chumbo. Frases-chave da conferência são destacadas em fundo preto e letras garrafais, como na foto abaixo:

O fascismo eterno miolo
Qualquer semelhança…

A conferência de Eco na Columbia University foi realizada semanas após o atentado contra um prédio federal de Oklahoma, praticado por um militante da extrema-direita, fato que mudava a visão sobre a ideia de que todo atentado terrorista ou ataque em solo americano seria uma ameaça externa, tanto de movimentos de esquerda quanto dos emergentes grupos islâmicos. Diante dessa perplexidade dos estudantes, o ensaísta italiano, escolado na história do fascismo em seu país e na Europa da grande guerra resolveu falar sobre como o fascismo nasce, cresce e se desenvolve no seio de uma sociedade. E é disso que trata o texto da conferência, procurando mostrar à comunidade universitária de Columbia que não seria nos Estados Unidos que o fascismo não teria espaço para existir.

E Eco começa a elencar as várias características que nos permitem identificar nos movimentos patrióticos-nacionalistas os sinais do que ele chama de Ur-Fascismo, aquele pensamento que sempre “está ao nosso redor, às vezes em trajes civis”. Ou seja. O fascismo está sempre aí e se não estivermos vigilantes ele pode brotar.

O italiano começou a conferência falando de sua infância na Itália governada por Mussolini. E de como os símbolos nacionalistas povoaram sua formação inicial, até que pudesse finalmente descobrir o significado real da palavra liberdade. Foi quando se deu conta de que não existe liberdade real em um sistema totalitário e moralista, calcado na ideia de pátria grande, religiosidade, culto ao líder supremo, controle de costumes e muita, mas muita repressão.

Umberto vai elencando as características principais de um regime fascista. Desprezo pela ciência, líderes carismáticos e incultos, veneração da morte e do armamentismo, combate às instituições democráticas, apelo para a estratégia de guerra como ferramenta de mobilização social permanente contra inimigos internos e externos, reais ou, na maioria, imaginários – e quase sempre tachados de comunistas – e uso massivo dos meios de comunicação para disseminar, vejam só, notícias alarmantes, muitas delas falsas, para manter a coesão social baseada no medo.

Especialmente quanto à comunicação Eco, vejam bem, em 1995, fala o seguinte da então nascente internet:

“Em nosso futuro desenha-se um populismo qualitativo de TV ou Internet no qual a resposta emocional de um grupo selecionado de cidadãos pode ser apresentada e aceita como a ‘voz do povo’.”

Como em todos os textos ensaísticos de Umberto Eco, a linguagem é clara, precisa, mas há muita densidade, tanto nos conceitos como nos exemplos históricos. Não pode haver melhor guia do que O fascismo eterno para identificar os fascistas em nossos dias, quando os movimentos antidemocráticos estão saindo à luz do dia, sem interdições, tomando o poder por via eleitoral ou por meio de golpes dos mais variados (ou uma combinação de ambos), perseguindo os contrários, usando as ferramentas da internet para disseminar notícias falsas, derrubar reputações, criar mitos. Ao ler o ensaio, certamente você vai identificar muita gente que povoa seus grupos de WhatApp e perfis de redes sociais. Que possamos manter os valores democráticos em meio a tantas ameaças.

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