O livro, o filme e o plágio

A internet brasileira foi ao delírio em setembro de 2021 quando a cantora britânica Adele foi acusada de plagiar o hit Mulheres, do compositor Toninho Geraes, tornada famosa na voz de Martinho da Vila. Não foi a primeira vez que um artista brasileiro teve sua obra copiada por gringos na cara dura: no final dos anos 1970, o também britânico Rod Stewart colocou a melodia de Taj Mahal, de Jorge Ben Jor, na sua Da Ya Think I’m Sexy?, que acabou entrando nas paradas de sucesso de todo o mundo. Os dois artistas fizeram um acordo sobre os direitos da música e, muitos anos depois, Stewart admitiu “plágio inconsciente”: tinha passado o carnaval no Brasil no ano anterior à composição, e ouvira Taj Mahal tocada incessantemente.

Muitas décadas antes desses dois episódios, outro caso de possível plágio só não virou um escândalo sério porque a autora supostamente copiada preferiu a discrição. Esse levou alguns anos para ser descoberto: em 1940, Rebecca – a mulher inesquecível, dirigido por Alfred Hitchcock, chegava os cinemas com frisson e acabaria levando o Oscar de melhor filme. A obra era baseada no livro homônimo da escritora (também) britânica Daphne du Maurier, lançando em 1938. O filme reacendeu o interesse no livro, então alçado a best seller, até que um crítico do The New York Times notou uma coisa estranha: Rebecca tinha um enredo muito parecido com A sucessora, romance da brasileira Carolina Nabuco – filha do abolicionista Joaquim Nabuco -, lançado em 1934.

Carolina Nabuco havia traduzido seu livro para o inglês na tentativa de publicá-lo nos Estados Unidos e Inglaterra, e essa versão circulou por editoras nos dois países. Foi aí, alegadamente, que Du Meurier teria feito contato com a obra antes de escrever Rebecca. Talvez por orgulho, Carolina nunca quis judicializar a questão – mas também não aceitou acordo algum proposto pela outra parte. Quando o filme de Hitchcock estava para estrear, ela recebeu a visita de advogados do estúdio propondo que assinasse um documento afirmando que as semelhança entre as duas obras eram apenas coincidência, em troca de uma quantia em dinheiro. Carolina não concordou, como conta em sua autobiografia.

Interessante como esses três casos rumorosos ocorreram com artistas britânicos. Coincidência? Ou uma certa atitude colonialista que fica por ali no inconsciente de roqueiros e escritores?

Sobre o que fala A sucessora, afinal?

Se precisamos dar um rótulo a ele, podemos dizer que A sucessora é um romance psicológico. Marina é uma jovem mulher residindo numa fazenda comandada por sua mãe viúva – um lugar parado no tempo, em franca decadência desde a abolição oficial do regime escravocata, em 1888. Um dia, a propriedade hospeda um rico homem de negócios do Rio de Janeiro, Roberto Steen, que visita a região para avaliar a possibilidade de comprar outra fazenda. O rapaz acabara de perder a esposa para o câncer – uma mulher bela, inteligente, elegante e agregadora, capaz de encantar toda a sociedade carioca da época. Roberto se apaixona por Marina e a leva para morar em sua mansão no Rio, onde a moça terá uma convivência dolorosa com a sombra da falecida Alice.

Marina se sente inadequada diante dos amigos, da família e até dos empregados da casa de Roberto, todos sempre a lembrá-la de como a finada era perfeita em tudo. Tem especial papel nessa história um quadro de Alice pintado por um artista famoso, e que parece perseguir Marina e julgá-la em seus próprios pensamentos. A moça desenvolve uma relação de atração e repulsa pela tela, que não suporta, mas da qual não consegue se livrar, nem em sonhos. A pintura vira uma presença quase humana na sua vida. E é nesse ponto que o romance ganha contornos psicológicos fortes, com a ação acontecendo principalmente na cabeça da personagem.

“Nunca ouvira falar em subconsciente, em autossugestão, em psicanálise”, escreve a narradora sobre Marina em um certo momento. Ou seja, se a personagem não conhecia nada disso, certamente a autora tinha todos esses temas em vista e os usava deliberadamente ao construir sua história – algo que não era comum à época. Ecoando talvez as tensões da modernidade, o embate entre a vida no campo, “pura”, e o meio pintado como “artificial” da sociedade carioca em franca industrialização é outro dos contextos relevantes da obra.

Aqui e ali, Carolina Nabuco menciona os anos não tão longíquos da escravidão: a decadância da fazenda Santa Rosa após a abolição; “os cordões dos pretos” que Roberto e amigos vão assistir em um carnaval no Rio; a empregada jovem e negra que Marina leva para a mansão, e que ainda trata como sinhazinha – são exemplos de como a autora cita o tema que fez a carreira de seu pai.

A sucessora é uma leitura ligeira, que traga o leitor na curiosidade de saber o que vem a seguir e, principalmente, quais serão os embates sociais que irão envolver Marina naquele Rio de Janeiro moderno em que ela não consegue se encaixar totalmente. A narrativa termina no tom de novelão – a obra acabou mesmo virando novela da Globo, adaptada por Manoel Carlos, no fim dos anos 1970.

E Rebecca?

Não li o romance de Du Maurier, então a partir daqui cito referências externas. Diferente do livro de Nabuco, piscológico e social, Rebecca é descrito como uma história gótica de suspense – não por acaso acabou chamando a atenção de Alfred Hitchcock. A premissa é bem parecida: uma garota simples casa com um homem podre de rico que acabara de perder a primeira mulher. A menina se sente comparada em tudo com a falecida e desenvolve uma relação conflituosa com a propriedade onde ela reinava – e que, agora, é sua casa. A sombra de Rebecca a atormenta em todos os momentos do dia. Há um retrato (embora não de Rebecca), há um incêndio, há um câncer na falecida, há até um primo ex-noivo da personagem principal (que aqui, é a narradora e não tem nome).

As semelhanças com A sucessora são grandes, mas os defensores de Du Maurier costumam atribuir tudo a coincidências não deliberadas, apontando principalmente as diferenças no estilo e no desfecho. Os contestadores da possibilidade de plágio também citam similaridades dos dois romances com Jane Eyre e o de Carolina com Encarnação, de José de Alencar. Resumindo a tática: “se todo mundo se copia, ninguém pode ser acusado de cópia”.

(Discordo veementemente da comparação com Jane Eyre: há um viúvo, há uma moça jovem por quem ele se apaixona e há um incêndio – mas a premissa que anima o romance de Charlotte Brönte é bem diferente de A sucessora e pouco tem a ver com a sombra da esposa morta sobre a jovem apaixonada).

Fato é, Rebecca é um sucesso de venda desde o seu lançamento, nunca tendo saído de catálogo. Em 2020, ganhou outra adapação para o cinema. Enquanto isso, A sucessora ficou sumido por vários anos até ser reeditado em 2018 pela Intrínseca (na edição que eu li).

Sustentar a alegação de plágio envolve comprovar que o suposto plagiador teve acesso à obra original – como no caso de Rod Stewart, ou como se alega no caso de Adele via seu produtor, co-autor da música, fã de música brasileira ao ponto de ter aprendido a tocar berimbau. Pelo que diz em sua autobiografia, Nabuco tinha indícios que a permitiariam fazer a ligação entre seu manuscrito traduzido e a editora inglesa que publicaria Rebecca em 1938. Ao não abrir contestação judicial, no entanto, a brasileira decretou a eterna incerteza sobre o plágio, beneficiando a autora britânica, que ja saía na vantagem só por isso mesmo: ser britânica.

Polêmicas e incertezas à parte, A sucessora é um romance muito interessante, que tem se valor a despeito da trajetória posterior de Rebecca ou dos filmes de Hitchcock.

3 comentários sobre “O livro, o filme e o plágio

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