Miró foi o meu primeiro contato com a poesia contemporânea, e quando digo “a poesia”, era isso: um homem franzino de roupas coloridas que circulava entre os estudantes recém-chegados ao edifício brutalista do Centro de Artes e Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco, recitando seus próprios versos com uma cestinha de palha na mão. Dentro dela, vários papeizinhos xerocados e dobrados muitas vezes, que ele vendia a centavos. Era 1997, eu acabara de entrar na faculdade de Jornalismo e centavos ainda valiam alguma coisa.
Até aquele momento, poesia pra mim eram os parnasianos, os românticos, os modernistas, os concretistas que tinha acabado de estudar para o vestibular. Naquele momento, passou a ser um homem negro de corpo esguio e de olhos muito abertos. Não abertos de susto, pelas pálpebras: abertos intencionalmente com os músculos do rosto inteiro, culminando nas sobrancelhas levantadas, numa expressão que era algo entre o espanto e a curiosidade, e que ele estreitava quando queria nos fazer pensar.
Infelizmente, não guardei o papelzinho que comprei com uma moeda de 50 centavos, mas guardei isso: os olhos de Miró sempre muito abertos.
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– Óa, tais vendo ali aquele terreno? Do lado do hospital? Eu morei ali com a minha mãe quando era pequeno. Numa casinha ali naquele terreno onde estão os carros.
Muitos anos depois dessa primeira visagem na universidade, Miró olhava do 13º andar para o lugar onde sua vida tinha começado, muito antes de ser faxineiro e muito, muito antes de tomar a decisão de viver de poesia. Estávamos no apartamento para onde eu acabara de me mudar no centro do Recife, em 2005. Àquela altura, já convivia com Miró, muito amigo do meu primeiro marido, que saíra de Muribeca pra ir morar comigo.
O terreno de que Miró falava tinha sido um dia a Vila José Revoredo, local de sua lembrança mais antiga: a mãe, dona Joaquina, chamando-o para comer oiti colhido na rua. Mas isso eu só saberia ao ler Estou quase pronto: uma biografia de Miró da Muribeca, lançado em outubro de 2025 ano pela CEPE Editora. Fui uma das primeiras leitoras do livro pronto, pois convidada pelo autor Wellington de Melo para mediar um dos lançamentos em São Paulo, na Livraria Simples.
De Wellington, vocês já viram por aqui a resenha do romance Felicidade. Ele é fundamentalmente um ficcionista, e diz que se surpreendeu um pouco quando a CEPE encomendou a biografia de Miró. Àquela altura, o poeta já estava bastante debilitado por um câncer recém-descoberto, entrando e saindo de hospitais e clínicas de reabilitação de alcoolismo. Wellington era então uma das pessoas mais próximas a ele, um dos voluntários que acompanhava o seu tratamento, administrava as despesas e a vida prática de Miró.
Welligton concordou com o projeto e partiu para a empreitada, entrevistando o próprio Miró e pessoas que foram próximas a ele ao longo da vida; visitando lugares e levantando documentos, cartas, anotações, fotografias que registravam, de alguma forma, como um rapaz preto e pobre tinha não apenas se tornado poeta como virado referência de poesia contemporânea e performática no Brasil.
Estou quase pronto é um passeio pela vida de Miró a partir dos lugares que foram importantes para ele: Recife, é claro, mas também Petrolina, Fortaleza, a Vila da Maromba, em Visconde de Mauá, São Paulo e, é claro, Muribeca, o conjunto habitacional que Miró agregou ao seu nome artístico e do qual foi um dos últimos moradores.
Aqui, um parêntese: a partir de 2005, vários prédios começaram a ser interditados por risco de desabamento, no que eram vícios construtivos de um projeto mal feito começando a ter consequências. Muribeca rapidamente se tornou uma cidade fantasma, mas Miró continuou morando no apartamento que havia sido de sua mãe mesmo sob interdição, o único morador de um prédio totalmente desocupado. Muribeca é um escândalo sem tamanho, sobre o qual a imprensa pouco se ocupou. Soube pelo livro que indenizações foram pagas em meados da década de 2020. Fecha parêntese.
O projeto gráfico do livro, de Janio Santos, remete a esta estrutura e organiza os capítulos como as paradas de uma linha de ônibus – “janela de ônibus é danada pra botar a gente pra pensar”, escreveu Miró em um dos seus textos mais repetidos – enquanto as capas internas reproduzem o mapa central do Recife, com os nomes das ruas substituídos pelos das pessoas que foram importantes para a carreira do poeta.
A biografia tem uma cronologia singular e se dá em três tempos: no presente do texto, Wellington conversa com Miró e lida com as questões relacionadas à gestão de suas internações, despesas, do processo de indenização de Muribeca. No tempo passado, a biografia em si, que vai buscar um Miró adolescente na Vila José Revoredo que, através do futebol se torna amigo de adolescentes brancos, vizinhos de bairro, mas integrantes da elite econômica e intelectual da cidade. Os rapazes abrem as portas para Miró, que então tem seus primeiros contatos com a poesia e com a produção cultural do período.
O nome artístico que ele adotou, inclusive, tem a ver com futebol: o rapaz João Flávio Cordeiro era um ótimo jogador, que os amigos consideravam parecido em estilo com o atacante Mirobaldo, do Santa Cruz. O apelido do campinho pegou e foi levado para a identidade de poeta.
Ainda neste tempo biográfico, Wellington alinhava como Miró contou com ajuda de muita gente pelo caminho: pessoas que lhe arranjavam emprego, espaço para publicar na imprensa, compartilhavam ideias, conhecimento sobre transformar sua arte em meio de vida, abrigo e companhia para viajar. Após um dos longos períodos fora de Pernambuco no início da carreira, Miró se estabelece definitivamente em Muribeca e passa a ser como uma antena parabólica do bairro, trazendo para dentro dele as referências culturais que captava em suas andanças.
Em um dado momento, estes dois tempos se fundem inesperadamente, no que são os momentos mais tensos do livro: durante a pesquisa, Wellington descobriu um filho do qual Miró nunca falara. O poeta confirmou e, perguntado pelo biógrafo, disse que gostaria de conhecê-lo. Teve início uma investigação paralela para descobrir o paradeiro da mãe, através dela do filho, e tentar fechar esse contato – uma operação que envolveu apelo nas redes sociais e a ajuda inesperada de uma operadora de telemarketing (não narrada no livro, mas contada por Wellington no lançamento).
O filho, é claro, não reconhecia Miró como pai, ausente que fora, e a princípio se recusa e encontrá-lo. Mas quando a situação de saúde do poeta se deteriora de forma definitiva, surge uma questão prática: ele é o único herdeiro de sua obra.
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No tempo intermediário, mais recente, o livro narra a peregrinação do poeta pelos serviços de saúde do Recife: clínicas de reabilitação e hospitais nos quais passou grande parte dos seus últimos anos de vida, tentando lidar com as consequências do alcoolismo e de um câncer. Este tempo intermediário é pesado, triste e revoltante: mesmo reconhecido como um dos maiores escritores do Recife, Miró é tratado com descaso violento e se vê em situações de completa indignidade. Pra mim, que me mudei pra São Paulo em 2011 e só via Miró nas esporádicas vindas dele para eventos literários, foi um choque ler os detalhes desse período, a prova de um racismo insidioso e persistente:
“(…)só escrevendo esta biografia compreendi que o corpo de Miró era naturalmente insubmisso, confrontava as regras estabelecidas de comportamento e se interpunha às cancelas que a sociedade racista colocava diante dele”.
Miró incomodava por existir, como toda pessoa preta, mas incomodava especialmente pelo modo entre alegre e melancólico de estar no mundo, pouco afeito às convenções e ao que dizem pra gente que é o certo.
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Miró até agora, o livro com o compilado da obra do poeta, é o livro mais vendido da CEPE Editora até agora. Welligton continua como curador de sua obra, representando o filho de Miró, e diz que veremos mais de sua produção ainda não publicada.
Do meu amigo Miró, vou guardar sempre a visão de seus olhos abertos e daquele dia em que minha janela no 13º andar foi o céu de onde ele pôde ver de novo onde tudo começou.