Os abismos da cidade

Se a produção artística carrega as marcas do tempo e do espaço onde foi produzida, as obras surgidas nesta década no Recife terão em comum, fatalmente, o desconforto com os rumos que ocupação urbana vem tomando em minha cidade natal.

Os filmes Recife frio (curta metragem) O som ao redor e Aquarius, de Kleber Mendonça Filho; o documentário Um lugar ao sol, de Gabriel Mascaro; a análise sobre as imagens do fotógrafo amador Ivan Granville em O terceiro homem, de Frederico Toscano; diria até que Atlântico, novela de Ronaldo Correia de Brito – são todos exemplos de obras que se movem a partir dessa inquietação compartilhada, que se debruça também sobre a permanência de sistemas de poder oligárquicos e quase coloniais na capital pernambucana.

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Felicidade, de Wellington de Melo, compartilha desse contexto e usa como pano de fundo um fato real e recente para retratar uma cidade cujas relações sociais esgarçadas se refletem no caos urbano e são retroalimentadas por ele. Publicado pela Editora Patuá, o livro toma como gancho o Ocupe Estelita*, oferecendo uma alternativa quase distópica aos rumos que uma radicalização do movimento poderia tomar: expulsos da ocupação pela polícia, os ativistas passam a transmitir ao vivo seu próprio suicídio, jogando-se do alto dos arranha-céus que poluem a paisagem da cidade.

Quem conduz a trama é Ademir, morador de uma pensão e trabalhador de um subemprego numa fábrica de próteses, de onde tem vista privilegiada para a corrupção que envolve a compra dos produtos pelo poder público local. É a uma cobertura que ele vai quando seu patrão o manda buscar dinheiro produzido nesse esquema, numa alusão à altitude na qual o crime do colarinho branco opera – altitude essa que substitui as casas grandes dos velhos engenhos de cana-de-açúcar onde antes se exercia o poder.

Ademir se envolve com o movimento sem um objetivo muito claro e sem qualquer ideologia; talvez numa tentativa de encontrar um rumo qualquer. Pobre, negro e com dono de uma relação atribulada com pais e irmãs – uma delas, trans -, ele sabe que não existe um lugar na cidade para quem tem sua origem e seus desejos. Em torno de Ademir circulam outros personagens igualmente escanteados pela cidade, como o porteiro da pensão e Zê, a sua irmã trans.

São várias as formas que Wellington de Melo utiliza para materializar o não-lugar por onde transitam esses personagens. Na praça de alimentação de um shopping, a cor da pele de Ademir causa mais desconforto do que o grupo de jovens brancos tramando placidamente um suicídio coletivo. Mas ainda quanto ao não-lugar, o meu trecho preferido é um diálogo curto e absolutamente corriqueiro, que acontece quando Zê vai a uma loja de roupas:

“Débito ou crédito?”
“Dinheiro, querida”.

Felicidade aponta na direção de que o embate do movimento Ocupe Estelita é, de certa forma de casa grande econômica contra casa grande intelectual, uma briga na qual gente como Ademir é mais instrumento do que participante. É também como instrumento que ele se sente diante de Ignácio, o escritor para quem ele faz suas confidências. Na relação entre eles, é permanente a descrença de Ademir quanto à serventia da literatura e o uso que o escritor faz das histórias de pessoas reais em suas criações.

O livro inteiro é como uma longa carta de Ademir para Ignácio, num intrincado jogo de metalinguagem e talvez de autocrítica – uma certa angústia diante da eterna pergunta: pra que serve a literatura, afinal? Qual o seu poder efetivo de influir sobre a realidade? É um questionamento nada desprezível vindo de quem vem: além de escritor, Wellington de Melo é editor e coordenador da Mariposa Cartonera, editora artesanal que, inclusive, apoiou o Ocupe Estelita com edições especiais, cuja renda foi revertida para a causa.

No fim das contas, Felicidade é sobre o Hellcife, mas é principalmente sobre os abismos particulares que se concentram no abismo da cidade; ela própria um buraco invertido, em que as bordas estão nas coberturas dos arranha-céus, enquanto para a maioria resta apenas o chão.

Gostou? O livro está à venda no site da Editora Patuá ou no bar Patuscada, perto da Vila Madalena, em São Paulo.

* Nesta década, uma conhecida construtora da cidade arrematou um terreno público em local estratégico do Recife em um leilão posteriormente questionado por suspeita de fraude; pretendia construir um empreendimento com torres de alto padrão à beira da Bacia do Pina, região que liga o bairro de Boa Viagem (a praia) ao centro histórico. Se executado, o projeto alteraria definitivamente uma paisagem icônica da cidade e pela qual seus habitantes têm o maior carinho. Surgiu então o movimento Ocupe Estelita, que ganhou certa projeção nacional quando a construtora tentou demolir os armazéns do terreno na calada da noite, o que causou a imediata mobilização pelas redes sociais, resultando na ocupação do espaço por algumas semanas, até a demolição ser barrada na Justiça. Durante a ocupação, foram realizadas várias atividades culturais voluntárias – inclusive shows – até que a reintegração de posse foi ordenada pela justiça. O movimento continua ativo e a pendenga se arrasta até hoje.

 

PS: a foto em destaque, do Cais José Estelita, é do grupo Direitos Urbanos. O projeto para construção de torres no local inviabilizaria uma das paisagens mais bonitas do Recife: vindo de Boa Viagem para o Centro, a bacia do Pina se abrindo em azul profundo, as igrejas das torres de Santo Antônio despontado por trás dos antigos armazéns. Esse seria o resultado:

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