Fórmula Ferrante

2018-01-26 19.19.01O Lombada Quadrada hesitou um pouquinho para aderir à Ferrante fever, que assolou os círculos de leitores. No começo de 2016, víamos as amigas do #leiamulheres falando da escritora italiana e de sua tetralogia napolitana. E apesar de entender que essa galera não ia falar de livro ruim, ficava a sensação de que Elena Ferrante era modinha. O mistério em torno de sua verdadeira identidade, até hoje não oficialmente revelada, dava mais força à desconfiança de que tudo não passava de uma jogada de marketing. E, eu, Carlos, confesso que temia me deparar com uma versão só um pouco melhorada de aberrações como Cinquenta tons de cinza. Mas, como se pode ler aqui, aqui e aqui, Renata e eu fomos tomados pela Ferrante fever. A tal ponto, que os livros da tetralogia foram bicampeões nas melhores leituras do blog em 2016 e 2017.

No embalo da leitura da história de Lenu, Lila & companhia, arrematei em uma estante da Livraria da Vila o romance Dias de abandono, que foi direto pra nossa biblioteca e ali ficou à espera de minha atenção. Quase um ano depois, resolvi conferir se Ferrante não teria gasto todos os seus recursos literários nos quatro livros da Série Napolitana. E descobri que, ao que tudo indica, existe uma “Fórmula Ferrante”, que se repete também nesse romance.

E isso não é um problema.

Em dias de abandono, Olga, a personagem central da trama, é uma moça napolitana que vive com o marido e um casal de filhos em um bairro burguês de Turim. Olga já publicou um livro, quer ser escritora, mas acaba anulando sua carreira para cuidar dos afazeres domésticos. Existe uma crise familiar, uma separação – que não é spoiler, porque está no primeiro parágrafo do livro – e uma série de infortúnios, narrados com incrível maestria, em pequenos capítulos que sempre terminam impondo ao pobre leitor o avanço para o próximo, que chama o próximo, que chama o próximo e eis que estamos no fim. Quem nunca foi dominado por um livro?

Se você leu a tetralogia, já sabe que essa é “Fórmula Ferrante”. E embora tudo possa parecer uma mera repetição das histórias de Lenu, na verdade é diferente. Igual, mas diferente. Ou, diferente, mas igual.

Elena Ferrante tem uma prosa muito envolvente e poderosa. Consegue desenvolver um enredo que permite uma leitura superficial da trama e ganha assim os leitores que buscam histórias comoventes, com começo, meio e fim, que não exijam muita elaboração. Já dissemos isso sobre a tetralogia e Dias de abandono não é diferente.

Mas existem inúmeras camadas nas histórias de Ferrante. Se você prestar atenção, verá uma miríade de abordagens de temas bastante complexos. Feminismo, família, vida intelectual, educação dos filhos, a relação dos adultos com a infância, política, sexualidade, amizade, amor, fidelidade, lealdade, trabalho.

Neste romance, saímos do universo do bairro operário napolitano. Olga vem de Nápoles, assim como o marido. Ambos de origem pobre, mas toda a narrativa já é feita no contexto turinense. Ele, engenheiro bem sucedido, ela dona de casa. O bairro burguês lindeiro a um parque que acompanha as margens do rio Pó e o círculo de amizades de intelectuais, amantes da música erudita. Gente de bem, pouco afeita às gritarias e escândalos “daquela gente” de Nápoles.

E aí vem a ruptura. O anúncio unilateral da separação, que dá um nó na vida de Olga. E ela mergulha em uma profunda crise, assombrada pelos escândalos da barulhenta vizinhança de sua infância em Nápoles. Se vê despreparada para enfrentar a vida sem o marido, porque abdicou de sua própria vida por longos 15 anos. Sem carreira, sem dinheiro, sem entender os motivos que levaram ao rompimento. Nesses dias de abandono, vai se embrenhando em uma confusa teia de acontecimentos que oscilam entre o quase cômico e o muito trágico, afetando a vida dos filhos, do cachorro, do vizinho músico, das amizades conquistadas em Turim. Olga tem apagões e momentos de grande desespero. Em meio a ataques de nervos, vai remontando o quebra-cabeças de sua vida desde o momento em que ainda muito jovem conheceu o marido. E tenta entender onde foram parar as peças que se perderam à medida em que abandonou os desejos literários, deixou a sexualidade no piloto automático e anulou possibilidade de ser autônoma.

Em meio a isso, o leitor astuto descortina os grandes temas propostos pela autora. O romance se passa ali pelos anos 1980 e nele aparecem alguns dilemas das famílias de intelectuais burgueses. Os filhos, por exemplo, parecem ser muito mais um estorvo do que uma realização. O desejo de ascensão social e econômica leva a jogos de poder no trabalho, relações hipócritas que só ficarão claras para Olga quando ela entrar em conflito com os amigos do casal e ouvir algumas doloridas verdades sobre seu marido. Neste preparado de sua “fórmula” Ferrante volta também a uma questão que é muito forte na tetralogia. A distinção entre trabalho intelectual e braçal, que é colocada em evidência quando uma dupla de marceneiros vai executar uma pequena obra na casa de Olga. Há uma forte presença da discussão gramsciana sobre o papel do intelectual na sociedade. E, para completar o caldo, temos Carrano, o vizinho músico e solteirão  a quem Olga vê com imenso desprezo. Enxerga nele um fracassado. Essa visão parece representar um preconceito contra artistas, que ainda vigora com força, seja à esquerda ou à direita do espectro político. Enquanto não conhece melhor o vizinho, Olga parece ser uma daquelas pessoas que hoje facilmente chamam um artista como Chico Buarque de vagabundo. Ou então perguntam algo como: “além de tocar, você trabalha?”, o que não é uma visão de mundo exclusiva de obtusos direitistas. Nas esquerdas existe muita gente que vê com desprezo aqueles que nada produzem com a força de seus braços ou de suas ideias.

A “Fórmula Ferrante” é de uma eficácia aterradora. Dificilmente alguém conseguirá copiar o estilo da italiana. E se o fizer, provavelmente só atingirá as camadas superficiais dessa incrível capacidade de escrever com simplicidade entrando nos recantos mais escondidos da psique.

Há que se perguntar qual o limite da paciência dos leitores para essa fórmula e para o universo retratado. Preciso ler mais Elena Ferrante para dar a minha resposta pessoal. E esta será uma das metas de leitura de 2018. Testar o limite do encantamento com a obra da escritora italiana. É um risco que parece valer a pena correr.

P.S.: a obra em destaque é de Julio Le Parc, artista argentino, em exposição até fevereiro de 2018 no Instituto Tomie Ohtake.

3 comentários sobre “Fórmula Ferrante

  1. Carlos, depois da tetralogia, li, bem recentemente, A Filha Perdida, que mergulha nas mesmas questões. Na história, a personagem principal é Leda, meio Lenu, meio (pelo que vi no seu artigo) Olga. Fala da maternidade, mas principalmente explora as questões do feminino. Lindo, como toda a tetralogia. Seu artigo é perfeito na interpretação e fiquei curiosa para saber suas impressões depois deste ano de mergulho na obra da Ferrante. Vou tentar fazer o mesmo. Nos “encontramos” no final do ano.
    Só por curiosidade, você ou a Renata leram “Laços” de Domenico Starnone? Existe uma suspeita que a mulher do escritor (que é tradutora) ou até mesmo o próprio Starnone seja a real identidade de Elena Ferrante. Ao ler Laços entendi o motivo. Super dica de literatura também sobre o feminino, a separação, os filhos.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oi, Cintia. Obrigado pelo comentário. Fico contente de saber que a percepção que tive sobre a obra de Ferrante não é de todo absurda. Confesso que fiquei inseguro quando publiquei esse post, achando que poderia ser contestado pelos fãs incondicionais por dizer que há uma fórmula em sua escrita. Essa afirmação não é nem de longe uma crítica à obra de Ferrante, mas sim um elogio à capacidade de produzir narrativas envolventes e tão diversas em torno de temáticas e personagens que se repetem. Logo partirei para “A filha perdida” e outras obras. E ao final do ano podemos propor um novo “Café Ferrante” ao #leiamulheres.
      E por falar em Café Ferrante, foi lá que eu e Renata ouvimos falar da obra de Domenico Startone e das especulações em torno da identidade de Elena estar ligada à figura dele. Interessante sua dica. Iremos atrás para ler ainda neste ano.
      Valeu!

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