A primeira distopia da história

As narrativas sobre futuros distópicos são hoje uma das expressões mais comuns da ficção científica e da cultura pop, e um dos gêneros de maior culto no meio audiovisual – Blade Runner que o diga. Na literatura, Fahrenheit 451 (Ray Bradbury), Admirável Mundo Novo (Adoux Huxley),  1984 (George Orwell) e o mais recente O conto da aia (Margareth Atwood) são incensados como clássicos visionários por problematizar os caminhos da sociedade presente por meio de uma especulação sobre o futuro retratado em tons sombrios: enfim, o contrário da utopia. Uma ideia genial – mas de onde ela veio?

IMG_20180201_130946830Se Mary Shelley é tida como a mãe da literatura de horror com o seu Frankenstein, pode-se dizer que o pai das distopias é o russo Ievguêni Zamiátin, com o romance Nós. Publicado em 1924, o livro surgiu no calor dos primeiros anos pós revolução russa de 1917, causando inúmeros problemas para o autor: Zamiátin foi preso várias vezes, teve peças e livros banidos e acabou, na prática, proibido de escrever, até finalmente conseguir autorização para sair da Rússia e se exilar voluntariamente em Paris. Não é difícil imaginar porque: o futuro projetado por Nós espelhava a nascente União Soviética e soava como uma crítica direta ao regime em suas restrições à liberdade e à individualidade.

No longínquo século 26 de Nós, apenas 0,2% da população mundial sobreviveu à implantação de novo um alimento fabricado à base de petróleo. Quem sobrou para contar a história foi reunido em um território cercado do resto do planeta, batizado de Estado Único.  Neste novo regime, ninguém é um, mas um dos; conceitos como meu e minha são considerados ridículos e a felicidade incompatível com a liberdade, tida como um estado de desorganização selvagem e um caminho direto para o crime. Os habitantes do Estado Único vivem em prédios de apartamentos completamente transparentes – ninguém tem nada a esconder – e são identificados não por nomes, mas letras e números.

O livro tem o formato de anotações no diário do engenheiro D-503, responsável pela construção de uma nave espacial chamada Integral. Pelos seus olhos, sabemos que o Estado Único tem a matemática como a verdade mais absoluta e a poesia só existe como um veículo de propagação de ideais estatais. Eleições são uma lenda do passado: periodicamente, o povo se reúne para o Dia da Unanimidade, em que todos concordam, ordeiramente, em continuar sendo chefiados pelo grande Benfeitor. D é um entusiasta do regime: suas anotações são, portanto, um registro laudatório sobre como esta humanidade é a ideal.

A ordem começa a ser abalada quando D conhece I, uma mulher esbelta e insinuante, dada a pequenas subversões diárias. As intenções dela serão reveladas à frente, mas o importante aqui é que D começa a ceder a certos impulsos individualistas que o levam a questionar essa sociedade homogeneizante em que vive, o que abre espaço para o retorno de instintos primitivos. Não é um processo interno pacífico, pois D é antes de tudo um cidadão exemplar do Estado Único. Lançar dúvidas sobre a ordem das coisas acaba significando duvidar de si mesmo, de sua sanidade, de suas motivações e também de que tipo de futuro é possível nesse estado de coisas.

As alusões às práticas do regime socialista soviético não poderiam ser mais diretas, embora George Orwell defenda numa resenha de 1946 que Nós trata muito mais da era da industrialização do que do caso russo em particular. Pode até ser que Zamiátin tenha sido movido pelo processo inexorável de mecanização da produção e do domínio da técnica, o que explica a profissão do personagem principal e as alusões frequentes à matemática. Porém, é impossível que apenas o processo de industrialização explique o Estado Único em Nós. Além disso, embora seja totalmente viável associar a era industrial à perda da individualidade, são diretos os sinais de que Zamiátin se referia à homogeneização não somente como consequência do processo produtivo, mas principalmente como resultado de uma política ativamente repressora.

Minha leitura de Nós foi bastante enriquecida pela de O fim do homem soviético, da Nobel Svetlana Aleksiévitch, que li mais recentemente: um grande livro reportagem com personagens que viveram o ocaso da União Soviética, nos anos 1990. De certa forma, a confusão na cabeça de D prenuncia aquela que aconteceria de verdade após a Perestróika, quando uma população inteira se viu, de uma hora pra outra, órfã da ideologia socialista dentro da qual foi estritamente educada – não vou discutir se isso foi bom ou ruim, mas o impacto foi inegável. Muitos dos sovóks entrevistados por Svetlana narram a dificuldade de lidar com a liberdade, a individualidade e a ausência súbita de um “objetivo comum”, que era a base da ideologia soviética – exatamente algumas das inquietações narradas pelo personagem de Nós.

Zamiátin não era um escritor excepcional. Seu texto carece de refinamento, as relações entre os personagens são meio frouxas e algumas soluções narrativas beiram a ingenuidade. No entanto, além de criar o conceito da distopia, o escritor russo o fez com uma enorme atenção à condição humana. Como bem avalia George Orwell, Admirável mundo novo, de Adous Huxley, certamente se inspirou em Nós. Ambos compartilham a ideia do confronto entre o mundo da técnica e outro primitivo; no entanto, apenas o Nós reconhece instintos atávicos que guiam tanto o totalitarismo irracional do Estado Único quanto a necessidade de individualidade do personagem D, enquanto na muito mais conhecida obra de Huxley o confronto se dá apenas externamente.

Seja como for, a beleza de Nós está na sua existência e no contexto de sua criação – uma obra de absoluta resistência. A belíssima edição da Aleph – a foto em destaque neste post é das páginas internas do livro – é outro estímulo ao mergulho na primeira distopia da história.

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