Um mundo sem livros?

Na tribuna das redes sociais e nas ações de governo, cultura costuma ser considerada como elemento nocivo à produtividade. Artistas são chamados de vagabundos, muitos livros são tachados de esquerdistas e doutrinadores, orçamentos de secretarias de cultura, municipais ou estaduais, já ridiculamente baixos, são os primeiros que sofrem cortes. E ainda houve a recente tentativa (por enquanto) frustrada, de acabar com o Ministério da Cultura. Em um cenário como esse, não se torna um delírio pensar que podemos voltar a viver a perseguição à arte dita como degenerada, como aconteceu no nazismo, que também queimou livros indesejados ao regime, aos milhares.

FahrenheitFoi também o que pensou Ray Bradbury, ao escrever Fahrenheit 451, publicado originalmente em 1953. A obra reflete o clima do pós-guerra e, como toda distopia, carrega uma forte carga de pessimismo e descrença na humanidade. O cenário daqueles anos 1950, embora edulcorado pela geração baby boomer e pelo crescimento econômico dos países ocidentais, era marcado pelo assombro com os horrores da Segunda Guerra. E vivia-se o começo da Guerra Fria, que deixava o planeta à mercê de governantes malucos e suas armas de destruição em massa.

Tudo isso está presente no livro de Bradbury, que em 1966 ganhou uma excelente e perturbadora adaptação para o cinema, pelas mãos de François Truffaut.

Fahrenheit 451 é a temperatura (equivalente a 233 graus Celsius) em que o papel utilizado nos livros se queima de maneira imediata.

Em um futuro relativamente distante, os livros são considerados um grande mal para a humanidade. As casas são totalmente à prova de fogo. E nessa sociedade, que é controlada por grandes aparelhos de televisão e câmeras espalhadas por todas as cidades, o corpo de bombeiros não existe para apagar incêndios. Bombeiros, no romance de Bradbury, são guardiães da lei, que proíbe todo cidadão de portar livros. E quando uma biblioteca ou um simples volume são identificados, é dado do alarme. Os bombeiros, portando lança chamas ajustados à temperatura ideal, queimam livros e seus donos, tudo para proteger os cidadãos de “bem”, como explica o capitão da corporação, Beatty, dizendo que “um livro é uma arma carregada na casa vizinha”.

No romance, acompanhamos a vida de Montag, um pacato bombeiro, que começa a fazer algo que aquela sociedade imaginada por Bradbury odeia: pensar.

E nos devaneios de Montag aparecem questionamentos à ordem estabelecida. Por quê queimar livros? O que têm eles de tão perigosos? Como seria ler um?

Movido pela curiosidade, ele começa a pegar livros nas casas em que vai promover as queimas, mesmo sabendo que pode ser condenado por isso. E também passa a questionar Beatty, seu chefe, trazendo o perigo para perto de si.

Em suas buscas, Montag se depara com o terceiro personagem central da trama, Faber (não por coincidência, nome de uma tradicional marca de lápis), professor universitário aposentado, em um mundo no qual não existem mais cursos de ciências humanas. Nas breves conversas com este senhor, Montag descobre que há quem resista e guarde livros não apenas fisicamente, mas na memória, lugar que não é detectado pelos bombeiros.

É o caminho para o desfecho do romance. A descoberta do crime de Montag, uma implacável perseguição feita por um sabujo mecânico capaz de detectar milhares de cheiros diferentes e destroçar suas vítimas e o encontro com legiões de resistentes que se espalham pelas áreas não povoadas do país. Nas cenas finais, eclode uma grande e avassaladora guerra, lembrando que a hecatombe nuclear é uma possibilidade, uma ameaça concreta, que não fará distinção entre quem tem ou não livros.

A distopia de Ray Bradbury assusta por lembrar que a humanidade é capaz de criar sistemas de poder que perseguem o pensamento. Pois, como diz o chefe dos bombeiros, “o crime não é ter livros. Montag, o crime é lê-los”. Pensar, questionar, duvidar, agir. Verbos que atrapalham os planos de governantes e seus secretos desejos de comandar uma sociedade de autômatos, programados para pagar seus impostos e obedecer.

Li a edição para Kindle, do selo Biblioteca Azul, da Editora Globo. Além de um prefácio de Manuel da Costa Pinto, traz dois posfácios do próprio Bradbury. Em um deles, o autor fala da tentação que teve, depois de publicado o livro, em mudar cenas, fazer novos arranjos com os personagens. E lembra que a versão para o cinema deu a uma personagem feminina, a jovem Clarisse, vizinha de Montag, um papel mais relevante. No romance, ela frequenta as páginas iniciais como uma adolescente “desajustada”, que vaga pelas ruas e tem conversas proibidas com seus tios, realizando o perigoso exercício de pensar. E logo desaparece, morta. No filme, ela reaparece como uma das andarilhas que buscam memorizar livros inteiros para que eles não se percam.

Que os livros nunca mais sejam queimados.

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