A censura do Santander, a arte e o “Conto da Aia”

Primeiro foi a arte. Era preciso impor limites, coibir abusos dos artistas. Depois, era preciso controlar os abusos e a indecência das roupas. Então, foi necessário acabar com as conquistas feministas. Proibir as outras religiões, estabelecer um rígido código de conduta para mulheres, dividi-las em categorias de “Esposas”, que só se prestariam a cuidar de suas casas e de seus maridos, comandantes poderosos no novo sistema, cercadas de serviçais. De“Econoesposas”, aquelas mulheres das classes populares, que teriam de se desdobrar também nos serviços domésticos e, horror, procriar. E de “Aias”, aquelas que seriam dedicadas exclusivamente à tarefa de procriação a serviço das esposas dos poderosos comandantes do sistema. As mulheres sem marido e sem idade para reproduzir seriam chamadas de “Marthas” e fariam os serviços sujos das casas dos comandantes. Todas vestidas com roupas semelhantes às burcas, que dividem essas mulheres por cores. Azul para as esposas, listrado para as econoesposas e vermelho para as aias. Estamos falando de O conto da Aia, romance distópico de Margaret Atwood, escritora canadense, que deu origem à série de TV do mesmo nome, vencedora do Emmy 2017 na categoria “Drama”. E qualquer semelhança com o que vivemos nesta década não parece ser mera coincidência.2017-08-24 16.55.38

O livro foi publicado em 1985 e projeta para o final século XX a república religiosa de Gilead,  uma parte do território dos Estados Unidos, onde um grupo de fanáticos cristãos tomou o poder. Expulsaram judeus, colocando-os em barcos errantes pelo Atlântico, afastaram os negros e latinos para os territórios do sul, perseguiram e mataram gays, comunistas e seguidores de outras confissões cristãs. E entraram em uma guerra contra os territórios vizinhos.

Dentro das fronteiras de Gilead reina a aparente ordem de um sistema autoritário, baseado no expurgo diário dos inimigos, cujos corpos são pendurados em muros para espalhar o terror. Em um cenário idílico, em que construções e roupas remetem para um ideal clássico, tudo é asséptico. O grande problema dessa república é a infertilidade de homens e mulheres, causada, ao que tudo indica, por fortes cargas de radiação utilizadas na produção de alimentos e em armamentos utilizados na eterna guerra civil contra os inimigos do Estado.

Então, os gênios do poder, os comandantes, criam o sistema de reprodução baseado na identificação de mulheres jovens, em idade reprodutiva e que já tenham tido filhos na “vida anterior” ou que tenham exames de saúde em perfeita ordem. Elas são capturadas e remetidas para espécies de escolas onde as “Tias”, senhoras que zelam pela moral e pelos bons costumes giladianos, as preparam para sua nova vida. Serão entregues a casais sem filhos e estarão a serviço dos homens para a fecundação. Os líderes religiosos criarão uma justificativa bíblica baseada em um dos capítulo do Gênesis, em que Raquel, impossibilitada de ter filhos, entrega sua serva Bilha à Jacob e este a fecunda.

O romance é narrado a partir de memórias de uma dessas aias, que acaba de chegar à casa de um “comandante”. Ritualmente, a cada mês, em seu período fértil, ela é colocada a serviço do chefe da casa, em um estranho ritual, um estupro coreografado, do qual participa também a esposa, que zela para que o ato sexual de seu marido com a aia seja desprovido de erotismo ou qualquer tipo de toque que pareça carinho.

Este mundo de terror imaginado por Atwood não está longe do que seria o sonho de consumo de fanáticos de todas as espécies. Mulçumanos radicais, cristãos hidrofóbicos e neonazistas têm muito em comum. São misóginos, racistas e homofóbicos. E odeiam a religião alheia. Muitos desses movimentos gostariam de viver em um mundo em que mulheres fossem meros objetos, a arte apenas a reprodução de imagens e sons ditos harmônicos, a comida fosse pura e a sociedade comandada por uma estrutura hierárquica rígida e, claro, absolutamente masculina.

O que impressiona, e assusta, em O conto da Aia, é que muito do que é relatado pela aia Offred já parece acontecer. Quando movimentos políticos e religiosos se voltam contra exposições de arte, clamando por censura, quando políticos pregam o fuzilamento de artistas que produzem, a seu ver, obras indecentes e imorais, o que estamos vivendo senão tentativas de dar início aos movimentos que levaram à república de Gilead?

Distopias como a de Margaret Atwood, ou de Ray Bradbury, que já resenhei aqui, ou o incrível e assustador realismo de Submissão, que também está resenhado pelo Lombada Quadrada, acendem um sinal de alerta. O mundo parece evoluir, a diversidade parece ser um valor estabelecido no arcabouço legal do país. Mas as reações dos fanáticos (veja aqui o que diz Amós Oz sobre o assunto) são reais e parecemos viver um momento de forte ameaça a todas as conquistas recentes.

O romance de Atwood é narrado em camadas, juntando as memórias de Offred, a aia. Apesar de todo o adestramento que recebe para não pensar e da lavagem cerebral para esquecer a vida passada, na solidão de seu quarto ela busca não esquecer os rostos da filha e do marido, tenta lembrar de sua grande amiga Moira, de sua mãe ativista dos direitos humanos e feminista de carteirinha, das roupas que usava, do corpo exposto ao sol, do gosto de um copo de uísque e da fumaça do cigarro. Tudo que lhe foi subtraído pelos fanáticos.

O romance tem um final surpreendente. E isto não é um spoiler. O último capítulo amarra toda a narrativa e preenche as lacunas que o leitor vai sentindo ao longo dasmais de 300 páginas. Portanto, não se desespere se ficar sem entender algumas passagens, especialmente aquelas que dizem respeito a esse estranho país. É nesse capitulo que entendemos o que é Gilead e como foi rápido e avassalador o processo que levou à dissolução dos Estados Unidos da América. De potência decadente a um território de malucos religiosos. E quando o livro foi publicado, Trump era só um empresário excêntrico.

Precisamos ficar em alerta. O conto da Aia é muito mais real do que podemos imaginar.

A nova edição brasileira, da Rocco, está bem caprichada e a tradução, muito boa, é de Ana Deiró.

P.S.: a tela em destaque é de Kandinsky e lembra muito a descrição que a aia faz de uma velha igreja que restou nos arredores da mansão do comandante.

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4 comentários sobre “A censura do Santander, a arte e o “Conto da Aia”

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