A Europa tem medo de si mesma

Submissão1Medo é a matéria prima do badalado e polêmico romance de Michel Houellebecq. E ele não poderia ter chegado às livrarias em momento mais oportuno para fazer sucesso. Submissão, vocês lembram, estava no prelo quando o Charlie Hebdo foi atacado. O autor e a editora seguraram o lançamento e foram alvo de críticas pelo oportunismo do tema. O tema? Ah, sim. A França dominada por um partido de orientação muçulmana, que ganha as eleições de 2022 e instala um regime religioso no país, afastando da vida pública e dos postos nas universidades, escolas e demais instituições as pessoas que não professam a religião do Profeta.

Coincidência? Sim. Mas não se pode acusar Houellebecq de surfar na onda do Je Suis Charlie. O livro estava pronto e impresso antes do atentado. E seria lançado naquela semana. O adiamento, é claro, deu mais destaque a Submissão e ampliou o interesse que poderia causar entre leitores. Foi justamente por essa “propaganda gratuita” que a obra saltou aos meus olhos nas ofertas do Kindle. Resolvi encarar. E tentar entender o porquê de tanto ódio dirigido ao autor.

Parte das críticas faz sentido. Michel Houellebecq escreve mal. Tem uma escrita bruta, o livro tem contradições, cenas forçadas e um desencadeamento de acontecimentos que agride a verossimilhança. Mas é ficção, vocês dirão, o autor não precisa se preocupar com isso. É uma meia verdade. Na medida em que a história contada se propõe a ter um pé na realidade, é preciso cuidado para dar ao leitor a sensação de que tudo aquilo pode acontecer do modo como está sendo narrado. E ele derrapa em várias curvas de sua própria narrativa.

Lembro de Jean-Claude Carrière, em A linguagem secreta do cinema. Ele diz que um bom roteiro é, acima de tudo, coerente. Um exército de amebas roxas pode invadir Paris, ameaçar a cidade, espalhar o pânico e ser derrotado por um esquadrão de poodles guerreiros? Pode. Desde que a história ligue lé com cré. E essa ligação se perde em alguns acontecimentos narrados por Houellebecq. A velocidade com que o partido islâmico “moderado” muda as orientações na Universidade onde o narrador leciona, a apatia demasiada dos franceses diante do crescimento do partido e a submissão de toda Europa ao novo estado de coisas parecem pouco prováveis.

Submissão tem qualidades também. A maior delas reside na coragem que um autor polemista, rabugento e raivoso pode exercer. Ele aponta o dedo para a Europa e diz: vocês têm medo. Medo do que fizeram no passado. Medo do futuro que os espera. E muito medo do presente.

A ocupação islâmica pela via eleitoral, sem bombas, sem guerra e quase sem resistência é alegoria das sombras que pairam sobre o continente europeu que se vê “invadido” por milhões de imigrantes. Os Europeus têm medo de perder sua identidade e ver seu processo civilizatório ser implodido por meio das regras eleitorais que eles próprios criaram.

Submissãotrecho

Europeus têm medo de que a conta dos séculos de dominação colonial e das décadas de ocupações militares feitas para garantir a “democracia e a segurança” esteja sendo cobrada agora com juros, na forma de uma invasão sem precedentes em sua história moderna. Os bárbaros estão chegando, nos diz Houellebecq em seu novo romance.

Vale a pena ler? Se você não está sedento por uma obra-prima, vale. Em poucas horas dá pra devorar a prosa fácil de Houellebecq, sem grandes danos a sua integridade de bom leitor. E ainda vai ter um belo assunto para as mesas de boteco, falando de uma história assombrosa e quase possível de um lindo país ocidental tomado pelo fanatismo religioso por meio do voto popular. E se perguntará: isso é mesmo tão inverossímil em um mundo que tem bancadas evangélicas, bancadas da bala e outros monstros engordando diante de nossos olhares submissos?


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P.S.: a foto que ilustra o post é de uma obra dos irmãos Jake e Dino Chapman, artistas geniais britânicos. Saiba mais sobre eles em http://jakeanddinoschapman.com/

2 comentários sobre “A Europa tem medo de si mesma

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