Michel Houellebecq e o ódio ao multiculturalismo

É bom ficar atento aos lançamentos de romances do francês Michel Houellebecq. Explico. Submissão, já resenhado aqui, estava no prelo quando fanáticos invadiram a redação do hebdomadário Charlie, vomitando seu ódio em forma de balas. O romance distópico tem como pano de fundo uma França submetida a um partido muçulmano radical que em 2022 chega ao poder pelas regras democráticas tão prezadas pelo mundo ocidental. Já Plataforma, que acaba de chegar ao Brasil pela Alfaguara, selo do grupo Companhia das Letras, foi lançado na França, com grande estardalhaço, semanas antes dos atentados às Torres Gêmeas, em 2001. E tem como ápice de sua narrativa um atentado promovido por malucos religiosos de um grupo semelhante à Al Qaeda. Houellebecq certamente não tem dons premonitórios, mas conseguiu a “sorte” de ganhar propaganda gratuita para seus romances com essas coincidências. Na dúvida, eu tomaria cuidado com alvos manjados dos terroristas nas semanas seguintes aos lançamentos de romances do cara.

Platafora foto

Essa foi minha segunda leitura da obra do polêmico e odiado (amado?) romancista ranzinza e reacionário, que vende centenas de milhares de exemplares a cada lançamento, provocando debates apaixonantes e dividindo opiniões.

Do ponto de vista literário, não achei nada de excepcional nas leituras. Pelo contrário. Em Submissão, enxerguei lacunas e incoerências da narrativa, frases mal construídas e personagens fracos. Mas uma história poderosa e assustadoramente possível. Já em Plataforma, a trama é mais bem arquitetada, a história flui melhor e as duas personagens centrais são interessantes, embora alguns acontecimentos em suas trajetórias sejam superficiais, ou pouco verossímeis.

Aí você me pergunta: por que então está resenhando o livro, já que a regra número 1 do Lombada Quadrada, é escrever sobre o que realmente gostamos de ler?

E eu respondo: porque é necessário ler um cara como Houllebecq, ainda mais nos tempos de hoje. E porque a leitura é cheia de camadas que devem ser exploradas.

Não me vejo lendo os ideólogos da onda direitista que toma conta do planeta. Aliás, não gosto de ler ideólogos, de qualquer corrente que seja. Prefiro enxergar nas formas de expressão artística o zeitgeist que orienta as tendências seguidas pela massa.

E a obra de Houllebecq me soa como uma tradução literária desse movimento silencioso que levou eleitores de países como Estados Unidos, Brasil, França, Argentina, Chile entre tantos outros, a optarem por um discurso de ódio aos imigrantes e às minorias, de elegia da violência, elogio da homofobia e da misoginia e de perseguição a grupos étnicos e religiosos que professam valores que não são compreendidos pelos “cristãos de boa família”.

Em Plataforma, esse ódio não aparece na figura do personagem central, o cinquentão Michel Renault, um funcionário de médio escalão do Ministério da Cultura da França que tem como função analisar projetos culturais que devem ou não ser subvencionados por verbas públicas (olha a Lei Rouanet aí gente!). Divorciado, solitário, ao perder o pai ele se “aventura” em excursões a paraísos orientais, como a Tailândia, em busca de praias com águas quentes e transparentes e, principalmente, de experiências sexuais “quentes” com jovens prostitutas. E bote jovens nisso.

Em uma dessas viagens, Renault se envolve com uma moça francesa, com quem passa rapidamente a coabitar no retorno a Paris. Ela, executiva bem sucedida de um grupo que promove justamente os tours exóticos pelo mundo (incluindo o Brasil). Ele, funcionário público bem pago. Juntos, mergulham no hedonismo, frequentam clubes de swing, casas de sadomasoquismo e, claro, fazem turismo sexual pelas ilhas do oceano índico.

Tudo vai bem, até que entram em cena os terroristas. E também aparece, tanto de forma explícita, quanto nas entrelinhas, o ódio de Houllebecq ao multiculturalismo. O curioso é que há um elogio ao modo como os orientais lidam com sexo e com o corpo. Em um primeiro momento você, leitor progressista, até acha que há um traço de liberalidade de costumes. Mas logo percebe que o elogio é na verdade uma crítica direta ao avanço da luta por igualdade de gêneros nas democracias ocidentais. Houllebecq, no fim das contas, mostra todo seu desprezo pelo outro lado. Mas inveja a submissão das mulheres e o subjugamento do corpo às vontades masculinas, ainda dominantes nas culturas do terceiro mundo.

Plataforma também é um livro pessimista sobre a possibilidade de amor. A relação entre Renault e Valérie tem momentos sublimes, mas a impressão é de que o autor faz um julgamento moral das experiências sexuais e de todo o entendimento e cumplicidade que se forma entre o casal. E dá um fim abrupto à história. Um castigo, uma sentença capital.

É preciso ler Houllebecq para entender o mundo que habitamos neste fim de década.

 

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