O livro do som

Quem de vocês já parou para ouvir o silêncio? Nas raras oportunidades em que é possível isolar ruídos exteriores numa grande cidade, ficamos então abandonados aos nossos ruídos internos – é impossível escapar à percepção da entrada e saída de ar pelas narinas; os mais atentos vão também sentir as batidas do coração como se fossem sons muito graves, numa reverberação que acontece nas costelas mas que é percebida perto dos tímpanos. O som está dentro de nós, e a forma como nos relacionamos com ele dá conta de parte emocionante da história da humanidade.

IMG_0566O som e o sentido, de José Miguel Wisnik, propõe contar essa história do som que é silêncio, é ruído, é fenômeno físico, por vezes matemático e, eventualmente, dá em música. Publicado originalmente em 1989, o livro será relançado nos próximos dias pela Companhia das Letras, com outra capa e novidade também na forma de acesso ao disco O som e o sint, trilha sonora de Helio Ziskind para acompanhar a leitura. Agora há três playlists públicas no Spotify da editora, uma para cada capítulo, em vez do CD que vinha acoplado à terceira capa do meu exemplar (2ª edição, 1998).

Diferente da historiografia mais convencional, que centra-se na música produzida no ocidente da idade média em diante, Wisnik busca tratar o tema de maneira mais holística. Para isso, ele parte do som como fenômeno da física e percorre a longa jornada da percepção humana sobre este acontecimento, ao longo do espaço e especialmente do tempo. Assim, o som é tratado em sua concretude mas, principalmente, no que tem de intangível: o grande objeto deste livro é a metafísica do som, os significados que a humanidade atribui a ele e como foi (e continua) sendo moldado para criar novos sentidos.

O som e a música estão presentes em todas as culturas do mundo, sendo muito frequente que façam parte dos mitos e narrativas sobre a criação do universo. Parte da explicação é fisiológica – como exemplifiquei no início deste texto, somos feitos de sons. Suas características oscilatória (ondas sonoras), dialética (som x silêncio), de instabilidade e intangibilidade são objeto quase natural de elucubrações metafísicas. Assim, pode-se amar ou odiar a música (como era o caso do poeta João Cabral de Melo Neto), mas dificilmente se fica indiferente a ela:

“A música não refere nem nomeia coisas visíveis, como a linguagem verbal faz, mas aponta com uma força toda sua para o não-verbalizável; atravessa certas redes defensivas que a consciência e a linguagem cristalizada opõem à sua ação e toca em pontos de ligação efetivos do mental e do corporal, do intelectual e do afetivo. Por isso mesmo é capaz de provocar as mais apaixonadas adesões e as mais violentas recusas.

(…) A música, sendo uma ordem que se constrói de sons, em perpétua aparição e desaparição, escapa à esfera tangível e se presta à identificação com uma outra ordem do real: isso faz com que se tenha atribuído a ela, nas mais diferentes culturas, as próprias propriedades do espírito.”

O autor divide o livro como uma das possíveis formas de classificação da música – os três primeiros capítulos são Modal, Tonal e Serial – que coincidem mais ou menos cronologicamente com o percurso ocidental da composição. Embora o objetivo do livro não seja contar essa história, já amplamente tratada em outras obras, ela não deixa de ser uma espécie de espinha dorsal d’O som e o sentido, a partir da qual  Wisnik vai apresentando algumas dissonâncias.

Por todo o livro, ele pontua a ausência de pulso na música europeia. O ritmo, que apela aos sons internos do corpo, era considerado indesejável pela igreja – que, aliás, por muitos séculos se ocupou de normatizar o que poderia e não poderia ser feito, ao menos nas composições sacras (ordem do papa João XXII, em 1324, chegou a proibir o exagero da polifonia e por volta de 1500 o Concílio de Trento proíbe a ininteligibilidade do texto cantado: a música era concebida enquanto veículo da fé oficial, não como finalidade em si mesma). Na passagem do feudalismo ao capitalismo, a música se liberta da religião, torna-se mais dinâmica e emula a própria ideia de história como progresso.

A conciliação entre a música baseada em notas e a percussão só acontece na contemporaneidade e, não por acaso, nas Américas. Mais ou menos em paralelo, a música de concerto europeia chega ao esgotamento e passa a explorar outras possibilidades, como o minimalismo e o serialismo (quase uma aplicação da matemática à música). A mecanização, a revolução industrial, a segunda guerra mundial, chamam a atenção para outros tipos de som, em meio a um desenvolvimento técnico que resulta em instrumentos eletrificados e, depois, na música eletrônica.

O jogo dialético entre o que é ruído e o que é som (e, portanto, utilizável na música) diz muito sobre cada momento ou locus cultural, social e mesmo político. “A música ensaia e antecipa aquelas transformações que estão se dando, que vão se dar ou que deveriam se dar, na sociedade”, diz Wisnik no prefácio à segunda edição. Um dos exemplos citados é como Stranvinski, em Sagração da Primavera (1913), de certa forma antecipa o rock com o uso de (quase) ruídos. “É heavy-metal de luxo”, afirma o autor. Mais tarde, Schoenberg compõe músicas a partir do princípio de que todas as notas deveriam ser tratadas igualmente, e uma só poderia ser repetida após dar lugar a todas as outras.

Wisnik também menciona em várias passagens como a música é interpretada por outras expressões artísticas, em especial a literatura. O Doutor Fausto, de Thomas Mann, é citado diversas vezes: seu personagem principal é um compositor que faz um pacto com um demônio, enquanto discutem sobre os desafios da música contemporânea. Goethe, Dostoiévski e Haroldo de Campos são alguns dos outros autores mencionados.

Embora O som e o sentido seja indicado para músicos como para não-músicos, alguma noção de teoria musical e muito repertório (mesmo como ouvinte) facilita bastante a compreensão do texto, pois Wisnik não perde tempo com didatismo de minúcias. Minhas parcas aulinhas de violão na adolescência nunca tinha sido tão úteis – e, mesmo assim, ainda foi uma leitura desafiadora. O grande barato do livro é a possibilidade de enxergar uma expressão artística de forma mais profunda e relacionada a outros campos do conhecimento humano – algo extremamente necessário nesses tempos de profunda incompreensão do que é e a quê se presta a cultura.

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