A pedra no caminho de Drummond

Quando vi “Maquinação do mundo – Drummond e a mineração”, de José Miguel Wisnik, entre as novidades da Companhia das Letras em 2018 não tive dúvidas. Juntar o poeta mineiro ao professor de letras e literatura,  ensaísta,  pesquisador, pianista e compositor paulista já seria motivo de curiosidade. E se no meio disso aparece a palavra mineração, este que vos escreve acendeu o grau máximo de interesse. Mais pra frente, explico o porquê.maquinação do mundo

E eis que mergulhei na leitura das 262 páginas do livro, em minhas mini-férias de fim de ano, entre um café e outro, devorando cada página com a atenção de quem busca faiscantes pedras preciosas no meio da aluvião em uma beira de rio das Minas Gerais. E como valeu a pena.

Pra começar, Wisnik nos conta que o interesse dele pelo tema foi despertado em uma viagem a Itabira, terra natal do poeta, na qual participou de um evento literário. O cenário da cidade logo remeteu a escritos que ao longo de sua longa e produtiva vida Drummond produziu sobre a cidade e, especialmente, a respeito da atividade mineradora que ali se desenvolveu.

O pico do Cauê, que marcava a paisagem da janela do menino Carlos, nos anos 10 e 20, um maciço de ferro de alta pureza foi o ponto de partida para uma exploração mineral que teve seu ponto de virada nos anos 1940, com a criação de uma certa companhia, a Vale do Rio Doce, inicialmente para explorar aquela mina, que parecia uma fonte inesgotável de riquezas, transformando pra sempre a vida da cidade.

Wisnik ficou impressionado com o que viu, especialmente com a cratera que restou do antigo pico. E resolveu fazer um mergulho na obra do poeta. Foi atrás das poesias, de contos, ensaios, crônicas e também pesquisou a fortuna crítica a respeito da obra do itabirano.

Tinha uma ideia na cabeça. Um ensaio sobre a ligação de Drummond com o tema da mineração. E encontrou muito material, para uma farta análise. E, salvo engano, uma abordagem praticamente nova a respeito da obra. Em muitos textos, o minério, a pedra, as conturbadas relações de Carlos com a Vale do Rio Doce e com as mineradoras em geral até aparecem. Mas nunca como um ponto que poderia ser considerado central na arte do poeta.

Wisnik concentra sua análise em torno do poema A máquina do mundo, publicado no livro Claro enigma, de 1951. É um épico, que remete à máquina mundi presente em Os Lusíadas e que também aparece em Dante Alighieri. O poema pode  ser lido aqui. E para se ter uma ideia de sua importância, em janeiro de 2000, naquela sanha de fazer listas da virada do milênio que se avizinhava, 10 críticos ouvidos pela Folha de S.Paulo escolheram A máquina do mundo como a melhor poesia brasileira de todos os tempos. E olha que temos Cão sem plumas, Navio negreiro, Marília de Dirceu e tantos outros.

No poema, Drummond retoma um episódio narrado por Camões, no qual é dada ao navegador Vasco da Gama a visão de uma engenhoca que lhe permite conhecer a “totalidade das coisas”.

Mas, ao contrário do herói lusitano, o poeta mineiro, com a prudência e o silêncio que lhes são peculiares, vê diante de si a sedutora oferta de olhar para a máquina. E a nega. Ou, como diz Wisnik, em certa altura do ensaio:

com seu mineirismo profético e encaramujado, o caminhante drummondiano poderia ser alinhado entre alguns renitentes contumazes da literatura moderna – a galeria dos despiciendos despicientes que, diante da mecanização generalizada dos processos produtivos e interpessoais, da burocratização e da alienação da Lei humana consignada em lei metafísica, ou, em outras palavras, diante da máquina maquinadora do mundo, preferem, de modo desconcertante, cada um à sua maneira, não fazer (como o Bartleby de Herman Melville e sua fórmula lapidar: I would prefer not to), não se mover (O Kafka do Diário íntimo como outra versão do Bartleby), não subir o caminho que leva ao Paraíso (como o Belacqua do Purgatório dantesco, retomado como emblema por Samuel Beckett): não tomar para si a máquina do mundo.

A recusa drummondiana parece ser também uma forma de poder denunciar ao mundo o que se passa na Itabira agora tomada por grandes máquinas, que espalha seu ferro pelo mundo. Desde a criação da companhia, Carlos denuncia o contraste entre a feérica atividade mineradora e a constante miséria da cidade. E o faz em poemas, cartas, artigos para jornal, brigando com poderes estabelecidos e com uma gigantesca máquina de fazer divisas e gerar prestígio político para o então ditador Getúlio Vargas, cujo nome chegou a batizar Itabira por alguns anos (!!!).

Wisnik é um intelectual com grande repertório analítico e uma amplitude de temas. Escreve com maestria sobre música, como aqui ,e com poesia sobre futebol, como neste livro incrível. Mas é desses pesquisadores que têm o dom da escrita clara e envolvente. Faz sua análise com o rigor de um professor doutor, mas com a ciência de que é preciso se fazer entender. Maquinação do mundo concentra história, literatura, sociologia, antropologia, política e psicanálise. Ele vai nos entregando, em pílulas, a história da  exploração mineral em solo mineiro, mostrando, por exemplo, a destruição da serra do Curral, aquela que dá o nome a Belo Horizonte, hoje uma casca, um cenário oco. O mesmo acontece com o que era o centro da paisagem itabirana e tantos outros recantos das montanhas mineiras.

Junto com a história, vem a poesia e a hipótese levantada pelo ensaísta: de que a obra de Drummond é profundamente marcada pela mineração, pela pedra (parece óbvio, mas nem tanto) e pela sensação de que todo aquele ferro que sai de Itabira vai conectando a cidade com um mundo inteiro de automóveis, máquinas, como fragmentos de “Uma rua começa em Itabira, que vai dar em qualquer ponto da terra”. E junto com a poesia e a genial análise de diversos poemas, vem a mineiridade, o sentido profundo, ensimesmado e ao mesmo tempo universal da obra do poeta, aquele que, segundo Wisnik, mais usou a palavra mundo em toda a história da grande poesia brasileira.

E se falei em análise, é justamente o capítulo 5, chamado A máquina poética o de maior fruição. Nele, cada um dos versos de A máquina do mundo é analisado com clareza e erudição, mas sem hermetismo. E com uma ótima bibliografia, que só me faz pensar em ter mais livros (socorro!).

São muitos os aspectos que ainda poderiam caber aqui. Mas não quero abusar da paciência de quem chegou até este ponto. Digo, simplesmente, que ler Drummond (e reler) tornou-se um imperativo para este 2019.

E como afirmei no começo da resenha, buscarei os sentidos ocultos e alusões à mineração também como uma procura pessoal. Irmã, cunhado e irmão trabalharam em uma grande mineradora, que foi por décadas o sustento da família. Meu primeiro emprego foi em uma mineradora francesa, já falida, que fez (má) fama explorando e beneficiando chumbo e contaminando inteira a cidade de Santo Amaro da Purificação, na Bahia, a ponto de “ganhar” uma canção nada elogiosa composta por um dos célebres filhos da terra, Caetano Veloso.

E por falar em canção, o Lombada preparou uma playlist de músicas que remetem ao universo do livro. Mineração, pedras, vales, o Brasil profundo. Tem Milton Nascimento, Lô Borges, Caetano, Chico, Siba e Metá Metá. Cliquem e sigam nosso perfil no Spotify

E leiam o livro.

 

PS.: a obra que ilustra do texto é de Tunga. Ferro e imã em grande quantidade, expostos na Estação Pinacoteca, em São Paulo. Quem sabe se não veio de Itabira?

Gostou? Comprando o livro na Amazon pelo link a seguir, você ajuda a manter o Lombada Quadrada: Maquinação do mundo – Drummond e a mineração.

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