Porque ler Solaris

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Eu estava decidida a não pisar na Festa do Livro da USP em novembro do ano passado, mas fui fraca. Convenci Carlos a dar uma passadinha “só pra olhar” e saímos de lá com 16 livros, boa parte comprada no estande da editora Aleph, especializada em ficção científica. Entre eles, veio Solaris, de Stanislaw Lem, um dos grandes clássicos do gênero. A escolha não foi por acaso: àquela altura já sabia que o projeto Replicante traria para São Paulo em janeiro uma cópia restaurada do filme homônimo, dirigido pelo russo Andrei Tarkovsky. O filme será exibido nesta terça-feira, com ingressos esgotados (os nossos estão comprados há mais de mês) e queríamos muito ler o livro antes de rever o clássico do cinema soviético.

Sei que muita gente tem preconceito contra ficção científica, talvez como reflexo de um certo tipo de seriado comum entre as décadas de 60 e 70 que realmente beirava o besteirol. Carlos era um dos que torcia o nariz para o gênero, até eu convencê-lo de que alienação passa longe do sci-fi, um dos segmentos mais politizados das artes narrativas, especialmente na literatura. Nesse sentido, Solaris não só entregou o que eu esperava como surpreendeu, ao questionar a própria ciência.

No livro, o psicólogo Kris Kelvin é enviado a uma base instalada no planeta Solaris para avaliar o comportamento dos três cientistas residentes. Estamos em um ano indefinido no futuro, mas depreende-se que há pelo menos uma centena de anos o planeta intriga os terráqueos, pois além de ter uma órbita irregular em torno de dois sóis – um vermelho e um azul – é formado por um oceano que aparenta ter vida e inteligência, pois reage de forma estranha à presença de humanos em sua superfície.

Uma dessas reações é materializar pessoas já mortas a partir das lembranças dos cientistas, algo que eles confundem com alucinações por boa parte do romance, o que faz com que o livro tenha, principalmente em seu início, um tom que beira a literatura de terror.

Mas o cerne de Solaris é a limitação da ciência, ou da capacidade humana de compreender algo totalmente estranho às experiências terráqueas. Essa hipótese é trabalhada com maestria por Stanislaw Lem. O autor coloca questões de entortar o cérebro – e, como de costume em toda boa sci-fi, fala mais sobre o nosso presente como sociedade do que sobre um hipotético e longínquo futuro.

Confira alguma das coisas mais bacanas desse clássico da ficção científica:

A fé cega na ciência como outra forma de religião

O futuro em Solaris é formado por uma sociedade de maioria ateia, em que deus é apenas um conceito ultrapassado. No entanto, os quase 100 anos de pesquisas sobre o planeta acabam contrapondo grupos de cientistas com opiniões diferentes mas sem provas concretas: teorias inconciliáveis mais baseadas em crenças do que em fatos, e que vão caindo por terra à medida em que outras teorias vão surgindo, sucessivamente. Um lembrete de como a ciência não pode ser tomada sem crítica. Lembremos que a discriminação racial e a tese de que as mulheres são inferiores ao homem, para citar dois exemplos, foram legitimadas por teorias científicas até o século passado. Ao fim do livro, um desiludido Kelvin tem uma epifania quase religiosa diante do mistério que é o planeta inteligente.

Sei que é perigoso levantar esse ponto em uma época em que estão levando tão a sério o terraplanismo que tem gente ganhando dinheiro vendendo cruzeiros para a borda do mundo, mas eis outro lembrete de quão complexamente opera o binômio fé e ciência entre homens. Nada é destituído de intenção política. Absolutamente nada.

Estamos realmente preparados para lidar com outras formas de vida?

Em Solaris, o personagem Kelvin passa bastante tempo elaborando esse pensamento ao questionar a incompreensão sobre a inteligência que aparentemente se manifesta no oceano do planeta. O que faz muito sentido: apenas a arrogância caracteristicamente humana para achar que uma eventual forma de existência em outra galáxia poderia ser compreendida a partir do conhecimento acumulado sobre a vida na terra. Com olhar crítico, Kelvin passa a questionar a tendência de procurar algo familiar na forma como oceano se comporta e interage com a presença deles ali, chegando à conclusão de que a humanidade está longe de alcançar em entendimento os anos-luz que conseguiu em distância.

Bom, estamos em 2019 e a sociedade terráquea sequer conseguiu parar de fiscalizar o c* alheio, então a resposta a esse questionamento tinha que ser, obviamente, não.

A linguagem corre na frente

Em vários momentos de Solaris, Kris Kelvin consulta livros e compêndios sobre a história do planeta e da pesquisa sobre ele, fazendo longas digressões sobre o passado da ciência solarista. É um recurso engenhoso de Stanislaw Lem para compor a cosmogonia de Solaris e colocar o leitor a par do que levou a história para aquele ponto em que a acompanhamos. Uma das questões mais sensacionais dessa revisão é a manipulação da linguagem para dar conta de um entendimento ainda não pacificado. Por exemplo, quando se descobre que o oceano de Solaris tem composição e comportamento inesperados, os cientistas da época passaram a dizer que se tratava de uma formação orgânica.

“(naquela época, ninguém tinha a coragem de dizer que ele era vivo). Os biólogos viam nele uma formação primitiva – algo parecido com um sincício gigantesco, como se fosse uma única célula fluida, monstruosa em seu crescimento celular embora o tivessem chamado de ‘formação pré-biológica’)”.

Tudo, meus amigos, é uma disputa por narrativas. Quem trabalha com comunicação sabe exatamente o peso da escolha das palavras certas.

Um certo anacronismo

Essa vai mais a título de curiosidade, mas serve para reforçar um ponto que eu sempre ressalto quando escrevo sobre ficção científica: imaginar traquitanas tecnológicas faz parte, mas o cerne do gênero está em projetar como a sociedade e as pessoas se comportariam diante de realidades diferentes, hipotéticas. Daí que Solaris embarca inúmeros anacronismos tecnológicos, até engraçados de observar. Tipo: os caras estão num planeja distante 16 meses de viagem da Terra, pesquisando um planeta cujo oceano possivelmente é um ser vivo e pensante, mas quando precisam registrar um audio, usam um gravador de fitas e a biblioteca da estação é composta por livros de papel. Rs.

Aquilo que nos faz humanos

Embora em tom absolutamente pessimista, um dos pontos de Stanislaw Lem parece lembrar-nos que há algo sobre o ser humano que jamais será explicado em termos científicos. Quando projeta pessoas mortas a partir das lembranças dos cientistas, o oceano de Solaris provavelmente está acessando os registros químicos mais fortes no cérebro de cada um deles, mas não faz a menor ideia da importância dessas memórias. Em outras palavras, assim como não entendemos o outro, talvez ainda haja muito para entender sobre nós mesmos.

PS: Para quem não sabe, a Festa do Livro é um evento tradicional da Universidade de São Paulo em que dezenas de editoras vendem seus livros direto ao consumidor com descontos mínios de 50%. Não recomendo se você tem compulsão bibliófila.

4 comentários sobre “Porque ler Solaris

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