O anti-Bartleby de Alan Pauls

“Escribir no es difícil. Lo difícil es seguir escribiendo.  ¡Todo conspira tanto! Pero ¿no es eso lo que hacen los buenos editores: conseguir (con astucias, engaños, adulación, cheques, como sea, pero siempre leyéndolos) que los escritores sigan escribiendo? Yo seguí.”

Seguir escrevendo depois do primeiro livro. Esse dilema é muito frequente entre escritores de primeira viagem. Bloqueio criativo, esgotamento, medo de adotar uma fórmula  ou autoimposição para não adotar uma fórmula. Muitas são as variáveis que tornam a vida de um autor estreante um tormento assim que finalmente consegue ser publicado. A frase em epígrafe está no posfácio do escritor argentino Alan Pauls à reedição, em 2014, de seu primeiro romance, El pudor del pornógrafo, originalmente lançado em 1980. Ele seguiu escrevendo, construiu uma sólida carreira, vive de literatura (!!!!) e tem a certeza e a confiança de que começou sua trajetória com uma obra-prima.

É só dar um “Google” sobre o livro, para saber o quanto foi acertada a decisão da Editoral Anagrama, de Barcelona, em reeditar a obra. Há uma legião de fãs, críticos, ensaístas e escritores que gostam muito de El pudor. Eu passei a ser um deles.

Se você acompanha o Lombada Quadrada, sabe que nosso lema é que “todo livro tem uma história”.  E se você está chegando agora, fica sabendo. E este tem sua história.

Comprei o exemplar numa sanha consumista de livros (só tenho igual mania por vinhos, tatuagens e, recentemente, meias coloridas) em um viagem que fiz a Buenos Aires com meus filhos, em julho de 2017. Foi naquele templo de perdições chamado El Ateneo. Não tinha a menor informação sobre esse livro. Botei na sacola de compras porque era de Alan Pauls, de quem já tinha lido e resenhado Wasabi e A vida descalço. Não sabia que era seu primeiro livro, não sabia do que se tratava.

E aí você me pergunta: vai falar do livro? Claro!!! Vamos a ele.

el pudor del pornógrafo

Tirei o título desta resenha a partir da própria definição de Pauls, que no posfácio chama seu personagem de anti-Bartleby. Um homem de uns quarenta anos, sem nome, que tem uma profissão peculiar: é um pornógrafo!

Mas o que é um pornógrafo?

Explico.

Ele recebe cartas (hoje seriam e-mails ou mensagens de WhatsApp) de pessoas que relatam suas fantasias sexuais, as mais variadas, perversas e pornográficas. E, ao contrário do incrível personagem de Melville, ele pensa que “PREFIRE SIM” e responde a todos e todas, emanando compreensão, empatia e, claro, muito erotismo em sua acepção mais explícita, o que só faz aumentar o volume de correspondências. É uma atividade verborrágica, exaustiva, que toma o tempo dessa criatura de um modo desumano, pois um de seus princípios é não deixar ninguém sem resposta. Ao contrário do escrevente, o pornógrafo vai ampliando suas horas de trabalho. Dorme menos, muitas vezes deixa de comer. E não sai jamais de casa, pois a chegada de cartas nunca cessa.

Até que aparece Úrsula. Uma jovem com a qual começa a manter uma relação tão estranha quanto a troca de correspondências que mantém com milhares de anônimos. Úrsula não entra em seu apartamento. Todos os dias, em determinada hora, ela se posta no parque que está do outro lado da rua, à vista da sacada do pornógrafo. Essa relação se dá por olhares, gestos, expressões corporais. Uma relação voyeurística, sem contato físico, sem falas, sem erotismo. Talvez como uma extensão da atividade de pornógrafo, que também prescinde de qualquer interação real. Ele não é um atleta sexual, que usa de suas experiências reais para aconselhar homens e mulheres sequiosos por novidades. Trata-se apenas de um sujeito cuja habilidade com as palavras ajuda a dar vazão às mais variadas e bizarras fantasias de seus “clientes”. De uma certa forma, Alan Pauls coloca em cena a própria atividade do ficcionista, querendo lembrar ao leitor que nem tudo que está na obra de um escritor é baseado em sua experiência. E mostrando que a literatura é o campo por excelência da criação da fantasia.

A princípio estes “encontros” são um respiro na extenuante rotina do missivista, que aproveita os momentos de mudo contato visual para tomar o “ar fresco que vem do parque” e nutrir sua paixão platônica pela dona daquele olhar.

Até que Úrsula resolve mudar a relação. Primeiro, muda sua posição no parque, dando a ele apenas uma visão confusa de sua presença mais distante. Além disso, de forma sempre ambígua,  começa a aparecer a figura de um jovem. Não fica claro se ele está com ela ou apenas de passagem. E, finalmente, o pornógrafo tem a certeza de assistir a relações sexuais entre sua amada e esse homem em um canto escuro e pouco frequentado do parque.

Em dado momento, Úrsula deixa de frequentar o parque. E a relação passa a ser feita exclusivamente por cartas. Mas não pelos meios convencionais, via correio. Ela decide que um portador lhe entregará as cartas, esperando por respostas imediatas. É aí que há uma inflexão na trajetória do pornógrafo e do romance, que ganha a forma epistolar. Tal qual em Los Vigilantes, de Diamela Eltit, resenhado aqui, e em Caixa Preta, de Amós Oz, nos é dada uma sequência alucinante de mensagens enviadas por ele, sem que possamos ler as respostas dela. A história vai se construindo com lacunas que nem sempre são preenchidas.

Desesperado por demoras e ausências prolongadas de novas cartas, se vê em meio a uma desconfiança crescente de que aquele jovem portador, de aspecto esbelto, que sempre se apresenta mascarado, é na verdade um amante de Úrsula. E o modo com as histórias sexuais de seus clientes começam a aparecer nas epístolas da amada jogam o protagonista num vórtice de paranoias. Sentindo-se vigiado, com a certeza de que o conteúdo das mensagens de terceiros chega às mãos de Úrsula, somos encaminhados para um desfecho que, além de surpreendente, se dá em um ritmo alucinante, revelando a habilidade do jovem Alan Pauls em mexer com o ritmo da narrativa, quase que alterando também os batimentos do coração de quem lê com ansiedade o destino do trio.

Não existe tradução disponível no Brasil. Mas é possível encomendar essa nova edição espanhola pela Amazon. Fica a dica para que as editoras brasileiras se mexam. É sempre tempo de trazer bons livros.

2 comentários sobre “O anti-Bartleby de Alan Pauls

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