Quilombo em quadrinhos

Se ainda existe alguma dúvida sobre a qualidade das histórias em quadrinhos produzidas no Brasil, o Eisner Awards concedido a Marcelo D’Salete a enterrou de vez. Vencedor da categoria para edições americanas de livros estrangeiros, Cumbe (editora Veneta) é um conjunto de contos ambientado no período colonial, tendo como protagonistas personagens negros escravizados que lutaram por sua liberdade. Lançado no ano anterior – e, segundo o autor, produzido em paralelo a Cumbe – a graphic novel Angola Janga já havia estabelecido este ponto de vista, mas numa narrativa única e bem mais longa, com foco no Quilombo dos Palmares.

img_20190105_121955686

Marcelo D’Salete é negro e mestre em História da Arte; os livros são uma elaboração que combina suas vivências como cidadão em uma sociedade racista e sua experiência acadêmica. São livros de resistência a partir da identidade comum que é cultura, mas também se dá sob as restrições e ameaças generalizadas, institucionais ou não, a que parte da população é submetida até hoje por causa da cor de sua pele. Por isso, é significativo que a tão conhecida história da escravização no Brasil seja recontada a partir do olhar de um artista cujos antepassados foram vítimas diretas desse regime.

Como bem escreve Allan da Rosa no prefácio de Cumbe:

“(…) o manancial banto estruturou sociedades em Palmares e em muitos outros quilombos em vários campos, roças e matas brasileiras, além dos mocambos contemporâneos, urbanos, nos bailes da comunidade negra, nos cortejos ou em feitos dos movimentos em luta por moradia, a favor da continuidade de jeitos próprios de viver, contra o racismo que vigora em todos os tipos de relações, das econômicas às institucionais, das federais e municipais às de vizinhança e de teto, no banheiro, no quintal e na cama.”

Da vivência acadêmica, D’Salete traz a pesquisa aprofundada para embasar a ambientação de suas narrativas, da construção de cenários à fala dos personagens – a começar do título dos livros: cumbe é um sinônimo de quilombo, já Angola Janga é “pequena angola”, como os habitantes de Palmares se referiam ao seu território de resistência. Ao longo das histórias, há inúmeras outras referência ao vocabulário banto usado pela população negra no período escravocrata. As menções a elementos de resistência cultural também são inúmeros e afloram com uma potência da qual apenas as artes narrativas visuais – como os quadrinhos, ou o cinema – são capazes. É o caso de símbolos geométricos e ideogramas africanos, que em sua narrativa são usados como sinais de comunicação entre os negros rebelados.

Marcelo D’Salete desenha em preto e branco quase chapados, com contraste absoluto entre luz e sombras. A partir dessa escolha, a representação de texturas são um desafio que ele enfrenta nos dando um espetáculo na forma como desenha os cabelos crespos dos personagens, os telhados das casas, as folhas de árvores ou de plantações e – o meu preferido – a superfície crispada de um rio.

img_20190105_122030437

A grande força dos dois livros reside na apresentação de narrativas que passam longe da mitificação e da superficialidade: não há vitimização, mas tampouco romantização da luta contra a escravidão. O primeiro conto de Cumbe é emblemático: inconformado com a namorada que não quer fugir com ele do engenho onde são escravos, o personagem mata a moça a facadas, e passa a ser assombrado por sua lembrança. Já Angola Janga traz como elemento primordial da narrativa as disputas políticas entre Ganga Zumba e Zumbi no período mais crítico de resistência do quilombo de Palmares contra a repressão bandeirante. É maravilhoso o diálogo teológico entre Zumbi e o padre que o criou, sobre as razões que o levaram a se rebelar. Em outras palavras, são histórias absolutamente humanas.

img_20190105_122152414

Os volumes trazem ao final a lista das referências biográficas utilizadas por Marcelo D’Salete, assim como glossários contextualizados e, no caso de Angola Janga, um resumo histórico e mapas sobre as investidas contra Palmares.

Desde 2003, o Brasil conta com uma Lei federal que institui a obrigatoriedade do ensino transversal de história e cultura afro-brasileira nas escolas do País (a 10.639/03), nunca implementada. É inacreditável que precise haver uma Lei sobre algo tão óbvio, que é levar em consideração a origem de metade da população brasileira na formação dos estudantes. Ao mesmo tempo, isso diz muito sobre as formas como o racismo opera institucionalmente. Trabalhos como o de Marcelo D’Salete mostram outros caminhos possíveis para não deixar morrer o espírito da Lei.

2 comentários sobre “Quilombo em quadrinhos

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s