Para gostar de si

“Todos me mandam fechar a boca. Todos me dizem que é fácil. Não é. Tenho fome de pão. Preciso de atestar o estômago para sossegar, dormir e trabalhar sem cessar.”

Isabela Figueiredo tem uma literatura crua, direta, sem floreios, como nesse trecho destacado. Mesmo assim, ela consegue imprimir um certo lirismo a sua prosa. Depois de ler Caderno de Memórias Coloniais, que já foi resenhado aqui, mergulhei em A gorda, romance da moçambicana, uma “retornada” – expressão lusitana para os cidadãos portugueses que voltaram para a “Metrópole”, sem eira nem beira, depois das guerras de independência das colônias ultramarinas.

A cada menção que fiz ao Caderno, recebia fortes recomendações para ler A gorda. Ficou bem clara a popularidade desse livro nos círculos de leitores e leitoras e na ênfase com que os vendedores da Livraria da Vila me falavam da obra. Então, fui à lida, com grandes expectativas.

E elas se cumpriram.

a gordaO primeiro aspecto já mencionei. A linguagem de Isabela é envolvente. Trata de temas como sexualidade, relações familiares, política e cultura com palavras precisas. Tem pau, boceta, gozo, tem gente hipócrita na família, tem pai ao mesmo tempo canalha e terno. Tem mãe submissa e omissa, tem tias terríveis, tios abusadores, primas bacanas, amiga de toda a vida que vira inimiga íntima. Tem namoro, descoberta do tesão, tudo narrado na linguagem mais próxima do dia a dia de quem não tem pudores para tratar desses assuntos.

O romance faz uma ligação com as memórias de Caderno. Se estas narram a vida em Moçambique, em A Gorda acompanhamos a vida da menina que chega a Lisboa, deixando para trás pai, mãe e todas as referências de vida. Descobrindo o frio, a pobreza, os rigores de um internato católico e as agruras dos tempos passados com avó, tias e tios, jogada de casa em casa. E, claro, mergulhando na comida, como forma de aplacar as angústias que se manifestam pelo estômago.

O sucesso do livro tem muito a ver com o título. A menina vai engordando sem limites, tornando-se alvo de piadas, perseguições e preconceitos. Vítima de um autojulgamento implacável, passa a usar roupas cada vez mais largas para esconder a expansão do corpo. Banhos às escondidas no vestiário do colégio. Tudo pelo que passa uma pessoa que não corresponde aos padrões medianos de beleza.

Imagino que muito do que fez o romance ser tão recomendado venha do fascínio que as pessoas têm por “histórias de superação”. Pessoalmente, tenho preguiça dessas histórias, pois para cada atleta que saiu do nada e ganhou milhões, para cada pessoa que se construiu em meio a adversidades, existem milhões que continuam engordando, emagrecendo, viciando-se em drogas pesadas, vivendo a miséria cotidiana de um país extremamente desigual. Não acho que a história narrada por Isabela Figueiredo tenha como pano de fundo essa coisa melosa da superação.

A gorda é um romance acima de tudo político, no mais nobre sentido da palavra.

Porque a narradora vai construindo sua história quando percebe que a leitura, a escrita e sua capacidade de contar histórias podem lhe dar um lugar no mundo, independentemente da circunferência de seu abdômen ou do tamanho de seus seios.

E a menina cresce entre leituras, se faz professora, editora e locutora de um programa de rádio. Faz da literatura seu porto seguro. E começa a viver suas experiências sexuais. Primeiro, com extremo afeto e quase materialidade na relação com uma amiga de colégio. Depois, com homens. Namorados, moços mais novos e também coroas, com quem vai descobrindo as artes do gozo. E com quem vai percebendo que seu corpo pode, sim, ser objeto de desejos, fetiches e fantasias.

Também vai descobrir o mundo perverso do machismo, da violência contra a mulher, do abuso sexual no ambiente familiar, mostrando mais uma vez que seu crescimento pessoal tem um conteúdo intrinsecamente político.

Nesse percurso, vai também acertando-se com seu passado de menina branca em uma sociedade colonial, racista e segregacionista. E entende o papel que seu pai desempenhou na Lourenço Marques (hoje Maputo, capital de Moçambique) dos anos 1950 a 1970.

Como em Caderno, fica patente nesse romance a consciência de ser uma pessoa sem lugar. Nem portuguesa, embora legalmente cidadã, e muito menos moçambicana, porque o sítio de nascimento não era efetivamente seu chão.

A construção do romance é baseada literalmente em uma construção. Ou melhor. Em uma casa. Cada capítulo corresponde a um dos cômodos do sobrado que ela passou a habitar na Almada, cidade à beira do Tejo, do outro lado da ponte, diante de Lisboa. Nessa casa, já adolescente, ela foi morar com os pais, quando estes finalmente conseguiram sair de Moçambique. É nesse seu primeiro efetivo lar lusitano que morrerão pai e mãe. E que ela, filha única e órfã, construirá sua vida, livrando-se aos poucos dos restos de móveis e lembranças do período ultramarino.

A cada cômodo, a narrativa se detém sobre um aspecto da vida, compondo um interessante mosaico, que mostra a força da literatura de Isabela Figueiredo, autora que o Lombada continuará a seguir com todo o interesse.

A obra foi lançada em Portugal em 2016. Chegou ao Brasil em 2018 pela Todavia. Nosso exemplar já é da primeira reimpressão, o que, em se tratando de nosso mercado editorial já é revelador de uma carreira bem sucedida. Tá esperando o que pra ler?

 

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