O doce veneno do futebol

Veneno 1O melhor do futebol é a experiência do estádio. Ir a um campo, seja o da rua Javari, da foto acima, que nos transporta aos tempos românticos, ou as modernas arenas padrão FIFA, não tem substituto. Nem a TV, nem as narrações do rádio. Nada é mais emocionante do que ver o gramado, acompanhar a movimentação dos times. E observar as reações dos torcedores. Tem maluquice e palavrão para todos os gostos.

Mas este é um blog sobre livros. E vamos falar deles. Li pouco sobre futebol, que é um tema árido para as artes em geral e para os acadêmicos. Nas artes, especialmente o cinema e a TV, o futebol nunca é retratado com sua real carga de dramaticidade. Fica algo ensaiado, uma coreografia que parece futebol. Mas não é.

Nos livros, por muito tempo dependemos de clássicos como os de Mario Filho e seu irmão, Nelson Rodrigues (o Google te ajuda a levantar a bibliografia) e o célebre texto de Eduardo Galeano. Não li, ainda, nenhum deles, acreditem.

Mas li o ensaio de Pasolini sobre prosa e poesia no futebol. E recomendo. Para quem não conhece, uma palhinha: Pasolini analisa a final da Copa do Mundo de 1970, entre Brasil e Itália, com o conhecido resultado de 4×1 para o time de Pelé, Tostão, Rivellino, Jairzinho e companhia. O ensaísta italiano diz que o Brasil, ali, representava a poesia, o improviso, a inspiração, mas também a métrica do jogo bem jogado. E a Itália, a prosa. A densidade, a defesa, a compactação. Bons tempos, não?

O ensaio de Pasolini é uma das muitas referências do excelente (desculpem, o adjetivo se faz necessário) livro Veneno remédio – o futebol e o Brasil, de José Miguel Wisnik.

O livro foi lançado em 2008, pela Companhia das Letras. Mas resolvi começar a ler a edição autografada pelo Zé Miguel (que luxo!) bem no período da Copa do Mundo de 2014.

E não é que o livro tem uma sequência muito parecida com a trajetória da seleção (???)  brasileira na malfadada copa dos 7×1? Confiram:

12 de junho, São Paulo – Arena Corinthians

Brasil 3 x 1 Croácia  

O jogo começou com um gol contra, a favor dos croatas. Pânico.

No livro, os capítulos iniciais mostram que o futebol chegou tímido ao Brasil. Enfrentou desconfiança e até mesmo foi condenado por gente como Graciliano Ramos, que via nesse “estrangeirismo” mania passageira, que não pegaria entre nós.

O Brasil virou o jogo, teve pênalti estranho a favor.

E no livro, o futebol começava a se abrasileirar. Os primeiros futebollers se insinuavam nos clubes elegantes do Rio e de São Paulo. E também surgiam os primeiros times oriundos das classes operárias emergentes do começo do século XX.

17 de junho, Fortaleza – Castelão

Brasil 0 x 0 México

Decepção com um jogo amarrado. O Brasil questionava pela primeira vez a capacidade dos comandados de Felipão.

Enquanto isso, em Veneno remédio, as primeiras competições internacionais não eram muito favoráveis ao Brasil. Os vizinhos uruguaios ganhavam a primeira Copa do Mundo e comandavam o esporte na América do Sul ao lados dos argentinos, a quem derrotaram na final. Por aqui, os negros ainda não eram aceitos na maioria dos clubes. Vasco e Corinthians rompiam com o racismo. E alguns jogadores se pintavam para defender clubes brancos. Eita, Brasil que vai pra frente. E sem racismo, claro!

23 de junho, Brasília – Estádio Mané Garrincha

Brasil 4 x 1 Camarões

Agora vai. Neymar & cia comeram a bola.

A partir de 1938, o Brasil entra no cenário internacional. Leônidas é o primeiro grande craque. Negro, Diamante Negro. Boa campanha na copa da França e os campeonatos regionais. E começamos a jogar de igual para igual com os vizinhos do Sul. O futebol passa a fazer parte do imaginário brasileiro.

28 de junho, Belo Horizonte – Mineirão

Brasil 1 (3) x (2) 1 Chile

Uma bola na trave. Uma quase tragédia. Uma sombra sobre o escrete favorito para ganhar a Copa.

Aqui o livro chega a 1950. A tragédia do Maracanazo, cujas marcas doloridas não ficaram restritas ao futebol. Uma nação entristecida. Derrotada pela vitória cantada de véspera. A certeza do triunfo de quem não “combinou” com os russos. Wisnik descreva a tragédia a partir de textos clássicos sobre futebol e sobre o Brasil. Seria 1950 uma tragédia insuperável?

Enquanto isso, o futebol era usado pela política. O mito da democracia racial era reforçado pela mistura de negros e brancos. Futebolistas negros alçados à fama, mostravam que o Brasil, esse tolinho, era um país de pessoas cordatas e tolerantes.

4 de julho, Fortaleza – Castelão

Brasil 2 x 1 Colômbia

Um adversário duro, que derrotamos com a categoria que é coisa nossa. E o começo de mais uma tragédia.

Dá pra incluir esse jogo em uma extensa análise que Veneno remédio faz do que viria a ser a época de ouro do futebol brasileiro. Surgiu Pelé, o grande reforço do mito da democracia racial. Gênio sem igual, anunciado como rei ainda aos 17 anos, por outro gênio, este das palavras, Nelson Rodrigues.

Durante o reinado de Pelé o Brasil se firmou como mito do futebol poesia que viria a ser elogiado por Pasolini em 1970, justamente no grand finale da carreira de Edson Arantes do Nascimento, quando enfeitiçou o mundo ao lado de um time que encantou e encanta a todos que amam o futebol. É nesta sequência que explico o veneno remédio do título do livro. Zé Miguel defende que o futebol é para o Brasil como aquelas substâncias que se bem usadas são remédio. E se tomadas na dose errada, são veneno.

Parece que é nesse ponto que o futebol brasileiro vai saindo de sua época miraculosa e começa a deixar de ser poesia para virar uma prosa banal.

Não sem ter momentos de prosa poética, como em 2002. Ou de de poesia pura e injustamente derrotada, como em 1982. Ou, ainda, de boa e pesada prosa, como em 1994.

Passamos a viver dos lampejos de (poucos) craques.

8 de julho, Belo Horizonte – Mineirão

Brasil 1 x 7 Alemanha

Ninguém vai esquecer esse dia. E esse placar colou no futebol brasileiro para todo o sempre. Sem o garoto Neymar, fomos um zero à esquerda.

A grande elipse do futebol brasileiro é o nome da parte final de Veneno remédio. Li esta parte na véspera e no dia do jogo contra a Alemanha. É quando nosso futebol vai se tornando algo comum. Nossos campeonatos não têm mais craques. Nossos melhores valores saem do Brasil antes de podermos conhecer como jogam. E a Seleção Brasileira vira um produto de exportação. Jogos do escrete canarinho são raros em nossos gramados. E vaiamos a seleção ao menor 1×0. Será ainda o futebol um fator determinante de nossa cultura?

8 de julho, Brasília – Estádio Mané Garrincha

Brasil 0 x 3 Holanda

E eis que chegamos ao fundo do poço. E bebemos no nosso veneno. Duas derrotas vexaminosas seguidas para seleções de países que nos tinham como deuses do futebol.

O Brasil tomou sua droga. E dela surgiu um torpor que parece longe de se recuperar. Wisnik escreveu Veneno remédio durante a Copa de 2006, jogada na Alemanha. Mas é possível dizer que o livro tem tudo a ver com nossa segunda tragédia caseira. Mas é também uma elegia ao futebol. E não é pessimista como esta resenha faz crer. É um belíssimo livro de um autor apaixonado por futebol. Que usa de um realismo cruel para analisar a pátria de chuteiras. Além de tudo, é um delicioso guia para conhecer uma extensa bibliografia sobre futebol, no Brasil e no mundo.

Veneno 2

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