Mistério com história brasileira

IMG_5126Dan Brown não inventou a roda, mas convenhamos que depois de O Código Da Vinci, as histórias de mistério baseadas em fatos ou especulações históricas viraram um filão e tanto. Seguindo o sucesso do livro americano, a fórmula foi replicada em todo o mundo, inclusive com pouca variação temática: lembro bem da invasão dos templários às prateleiras das livrarias – me sentia como uma moura acuada, com uma espada no pescoço enquanto era obrigada a aceitar Jesus. Não importa de onde fosse o autor, o tema prioritário dos mistérios históricos continuou, por vários anos, sendo a Idade Média europeia.

Talvez a culpa toda seja de Umberto Eco. Depois do triller cult O nome da rosa, os templários viraram o novo FBI e o gênero do mistério nunca mais foi o mesmo. Mas a erudição de Eco não é pra todo mundo e, ainda que Dan Brown tenha feito pipocar as tramas baseadas nos rastros do mundo medieval, uma renovação de temas foi lentamente ocorrendo. Promotora de Justiça em Pernambuco, Andreia Nunes vem fazendo sucesso com tramas que envolvem os bastidores do Judiciário brasileiro, como Código Numerati e A Corte infiltrada, esse último um romance policial (não li nenhum dos dois).

Mas tudo isso pra chegar em Luize Valente e seu romance de estreia, O segredo do oratório, que traz para o centro do suspense episódios do início da colonização no Brasil: a chegada de cristãos-novos, judeus obrigados à conversão ao catolicismo para fugir à perseguição religiosa. Luize teve a ideia para o livro durante a produção de um trabalho para TV no interior do Rio Grande do Norte, numa cidade chamada São Paulo do Potengi, onde conheceu uma prática local chamada caixão das almas. “As pessoas pedem para ser enterradas nesse caixão, que se abre na beira da cova para que o corpo seja jogado na terra limpa. As pessoas lá dizem: ‘a terra é que come nóis‘”, ouvia-a contando, em 2013, em um debate com autores finalistas ao Prêmio São Paulo de Literatura daquele ano.

Da prática da simplicidade absoluta no enterro, veio o clique para um suspense histórico sobre a névoa que recai sobre o passado de grande parte das famílias brasileiras de imigração mais antiga – terão um passado judaico? Práticas religiosas hoje comuns, mas alheias aos ritos estritamente católicos, seriam a reinterpretação de costumes dos judeus. Um exemplo é acender velas ‘para as almas’ no anoitecer da sexta-feira, o que equivaleria no judaísmo ao início do Shabat. Além disso, é quase mitológica a crença nacional de que sobrenomes alusivos à natureza – Carvalho, Pereira, Monte e por aí vai – teriam sido adotados por famílias judias convertidas à força, em Portugal e no Brasil, justamente para evitar perseguição.

Em Segredo do Oratório, a personagem principal é uma estudante de Medicina paraibana, residente no Recife, que guarda elementos suficientes da história familiar para acreditar ser descendente de cristãos-novos e, portanto, de judeus. Interessada em reassumir o que seria a religião original de sua linhagem, ela quer ser reconhecida como judia. As autoridades judaicas oferecem a ela uma conversão, mas a personagem não aceita: não quer ser ‘convertida’ ao que ela já é. A partir daí, começa uma odisseia por pistas e referências históricas que possam ajudá-la a provar suas origens, o que a leva em viagens pelo Sertão nordestino, por São Paulo e até Nova Iorque.

Enquanto a personagem busca por estas provas – não sem muitos percalços e algum suspense, é claro – o romance descortina dados interessantes sobre a história da primeira colonização judaica no Brasil, na época da ocupação holandesa no Nordeste (1630-1654). A história do Recife e de Pernambuco, portanto, é quase a segunda protagonista do enredo, que começa numa conferência na sinagoga da Rua do Bom Jesus, a mais antiga das Américas, redescoberta no Recife Antigo no começo dos anos 2000.

Como todo bom recifense sabe, o período de ocupação holandesa foi de liberdade religiosa, o que atraiu inúmeras famílias judias que fugiram da Península Ibérica durante a Inquisição. Quando a ocupação acabou, parte delas se converteu forçadamente ao catolicismo, parte fugiu para o Sertão, e um pequeno grupo entrou num navio rumo ao Norte, onde estabeleceu uma pequena colônia na ilha de Manhattan. Sim, minha gente: segundo a modesta mitologia Pernambucana, Nova Iorque é culpa nossa. Brincadeiras à parte, é fato que existe até hoje um Cemitério Pernambucano na Big Apple, onde estão enterrados estes pioneiros e seus primeiros descendentes.

O romance não é especialmente bem escrito e carece de consistência na ligação entre os personagens. Na busca por suas próprias referências, a moça em questão é ajudada por uma pesquisadora, sua assistente, mais alguns outros. As relações entre eles são irritantemente superficiais, mas vá lá. Luize teve o grandessíssimo mérito de enxergar parte da nossa própria história como um gancho para uma literatura atraente e com potencial de formar novos leitores, interessados em nossa memória. Tomara que isso se consolide em um filão nacional.

xxx

PS: A foto é do anoitecer no Bairro do Recife. Fiz há uns seis anos, da varanda do antigo trabalho.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s