Um repórter sobre cadeira de rodas

Repórter da Folha de São Paulo, Jairo Marques notabilizou-se por sua participação em coberturas complicadas, com temas como desvio de dinheiro público em Roraima e uma rede de prostituição infantil no Piauí. Nos últimos anos, tornou-se mais conhecido por outro motivo: cadeirante, resultado da poliomielite que o atacou na infância, criou o blog e coluna Assim como você, em que aborda questões relacionadas às pessoas com deficiência. Para além do tema em si, e tratado por quem tem conhecimento de causa, foi o tom desafiador de seus artigos que chamou a atenção do público e fez de Jairo uma referência na área.

As crônicas da coluna são recheadas de um vocabulário próprio, que inclui serumanopovo ruim das pernas (ou dos sentidos), atrapalhado das partestchubirubi e maraviwonderful. Num País em que a discussão sobre igualdade de direitos costuma parar na decoreba da terminologia apropriada, quando muito, Jairo faz uma escolha consciente de abandonar o politicamente correto para que as atenções estejam voltadas ao que realmente importa. Vindo dele, é também uma piada interna, uma tentativa de rir da própria condição e convidar outros deficientes a fazer o mesmo, enquanto travam uma briga de foice por inclusão.

Em Malacabado – A história de um jornalista sobre rodas, lançado este ano pela editora Três Estrelas, Jairo faz um relato pessoal da trajetória que culminou na sua contratação pela Folha e, mais tarde, com a criação do blog. Principalmente memorialista, o livro não se restringe à experiência pessoal, mas parte dela para lançar questionamentos sobre a forma como a deficiência é tratada no Brasil, política e socialmente. A questão da terminologia, carregada para o título do livro, é o foco da introdução, e dará o tom no restante da obra:

A palavra malacabado, espécie de corruptela de “mal-acabado”, é uma galhofa, uma provocação à falsidade disfarçada em discurso politicamente correto, que abraça e chama alguém de “especial” diante de uma plateia, mas golpeia a cidadania pouco a pouco, nas várias situações em que ela precisa verdadeiramente ser representada e respeitada com inclusão, com acesso, com todos juntos.

20160630_104617A história pessoal de Jairo começa em Três Lagoas, Minas Gerais, com o surgimento de uma doença misteriosa que, aos nove meses, tirou-lhe a força das pernas e a capacidade de respirar normalmente. A descoberta da poliomielite só se deu em São Paulo, pra onde veio trazido pela mãe no auge da crise. Sobreviver foi apenas o primeiro desafio. A partir daí, começaria uma jornada de aprendizado para ele e sua família: todos passaram a conviver com um corpo novo, diferente, e que requeria cuidados e adaptações.

Os seus primeiros anos de vida foram provavelmente bem parecidos com a de grande parte das pessoas com deficiência no Brasil. A desinformação inicial, a peregrinação por serviços públicos de saúde, muita dor, dificuldades financeiras e a fé na cura – no caso de Jairo, protagonizada por sua mãe, que por muitos anos acreditava ainda ser possível vê-lo de pé.

É nesse ponto que o relato sai do caminho esperado pelo senso comum, quando ele percebe que não tinha em si o impulso de andar. “Cada um funciona à sua maneira a partir do que tem, não do que não tem”, explica Jairo. O que ele queria era muito  mais simples, e ao mesmo tempo mais inalcançável: poder sentir-se parte daquela sociedade que parecia invisibilizar pessoas como ele, ou no máximo olhá-las com pena. O mito da cura faz parte do problema: enquanto as atenções estiverem voltadas à possibilidade de consertar as pessoas, pouco se fará para incluí-las como são.

O apoio incondicional da mãe o levou a ser o primeiro entre os três irmãos a sair de casa para morar só, na época para estudar jornalismo na Universidade Federal de Minas Gerais. A partir daí, Jairo também pôde contar com a sorte de uma reitoria sensível e de um amigo rico que lhe proporcionaram rampas e um triciclo motorizado para deslocamentos no campus. Ao se formar, entrou na Folha via programa de trainees.

O repórter narra então sua participação em algumas coberturas importantes da Folha pela via dos bastidores, expondo a estranheza de entrevistados ao se depararem com um repórter cadeirante – a lista inclui governadores, prefeitos e outras personalidades públicas. O não saber o que fazer é uma praxe que às vezes veio acompanhada de grosseria pura e simples; em outras de atitudes exemplares de inclusão. A inconstância, no entanto, é sintomática de um Brasil pouquíssimo preparado para viver com as diferenças, o que fica ainda mais gritante quando Jairo narra sua experiência em viagens e coberturas internacionais, incluindo a dos jogos paraolímpicos de Londres.

O repórter também expõe no livro algumas passagens de sua vida amorosa e de como sua condição influenciou seus relacionamentos. Num livro que discute sobretudo igualdade, é interessante notar que essas passagens não estão livres de uma certa nota machista na forma como são retratadas suas ex-namoradas – algo que ele admite em parte no próprio texto. Isso ilustra como o caminho da diversidade é infinito, inclusive em suas contradições internas.

Gostou? O livro está à venda aqui:
Malacabado – A história de um jornalista sobre rodas

2 comentários sobre “Um repórter sobre cadeira de rodas

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