Antes de Kafka, Melville

Pode parecer um chavão, um clichê. Mas é importante dizer que a leitura de bons livros leva um atento leitor a descobertas fascinantes. Por bons livros podemos entender aqueles que trazem referências que vão além de suas páginas e do fio condutor da história que carregam. Referências nem sempre explícitas. Por isso, precisamos garimpar em páginas impregnadas de filosofia, artes, contexto social, político e econômico de um tempo ou de uma sociedade chaves secretas ou evidentes para novos conhecimentos. São romances, contos ou poesias que enriquecem seu vocabulário. E te levam a outros livros. E o leitor, curioso, ávido de informação, segue as pistas deixadas pelo autor.

Foi o que me aconteceu na recente leitura de Bartleby y compañía, de Enrique Vila-Matas (veja aqui a resenha), que me deixou dezenas de pistas. Como é de seu costume, Vila-Matas recheia o romance de referências literárias. Entre elas, a principal, a do título: Bartleby, o inspirador da literatura do não, o personagem que não lê, não escreve, não faz nada senão cuidar de sua medíocre vida de burocrata.

Bartlebly Escriturário Foto

Esse personagem é de Herman Melville, autor de Bartebly, o escriturário. Para quem ainda não se ligou, Melville é o autor de um dos maiores clássicos da literatura em todos os tempos, Moby Dick. Sua obra é eclipsada por esse grande (em todos os sentidos) livro. E mesmo leitores curiosos, e eu me incluo nessa categoria, ignoram os demais textos. Talvez até por medo de encarar outras mil páginas.

Ao terminar a leitura do romance de Vila-Matas, baixei imediatamente a versão de Bartleby para Kindle. Escolhi a edição da Rocco, na coleção “Novelas Imortais”, destinada a jovens leitores. A edição é muito bacana e tem um prefácio escrito por Fernando Sabino, que por si já vale a leitura.

Mas o pequeno texto de Melville de pequeno mesmo só tem o tamanho. Você lê rapidinho. Mas fica a matutar sobre as diversas camadas sobrepostas nas linhas intensas da curta novela.

No texto, o narrador nos fala de sua vida de proprietário de um cartório de notas na Nova York fervilhante da segunda metade do Século XIX. Este narrador, um respeitável homem de negócios, apresenta ao leitor a estranha história de um de seus funcionários, recém contratado. E assim ele faz sua apresentação:

Em resposta a um anúncio, apareceu certa manhã no meu escritório um jovem que se postou imóvel na soleira da porta da entrada, toda aberta porque era verão. Ainda me parece estar vendo essa figura – um lívido perfil, tristemente respeitável, incuravelmente perdido! Era Bartleby.

Pois o notário contrata esse jovem de aparência incerta e circunspecção aterradora. E vai se vendo às voltas com uma personalidade misteriosa. Que faz do escritório sua morada. Que não lê, não gosta de política, não gosta de diversões.

Bartebly, o escriturário é Kafka puro. E Kafka gostava, muito, de Melville. Mais do que antecipar o universo kafkiano, Melville também lança bases de uma certa literatura de suspense, que dará origem também a uma linhagem de filmes hollywoodianos de mistério, obsessão e suspense psicológico, fazendo par com um de seus notórios contemporâneos, Edgar Allan Poe.

O patrão de Bartebly tem sua vida transformada, e transtornada, por aquele homem simples, quase invisível, que consegue com seu silêncio e sua obsessão pelo ambiente do escritório criar uma situação de horror que parece não deixar saídas ao seu empregador.

Não vou fazer spoiler da história, até porque recomendo demais a leitura dessa pequena novela. Reitero que você se defrontará com um enredo complexo, concentrado em poucas páginas. Melville, um escritor que foi marinheiro, caçou baleias, foi preso e esteve prestes a ser devorado por canibais, parece olhar para a burocracia e as atividades confinadas de um escritório como o verdadeiro horror na vida de uma pessoa. Em Bartleby, o escriturário fica evidente a demonização da burocracia. E este personagem chega ao cartório de notas como o elemento perturbador que denúncia a estupidez dos carimbos e protocolos. Ao final da leitura, compreendi que preciso ler mais Melville.

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5 comentários sobre “Antes de Kafka, Melville

  1. Eu tive uma outra leitura sobre esse conto. Claro que a burocracia desempenha um papel importante na história, mas não acho que o texto seja sobre a burocracia. Bartleby chega como um escrevente quieto, dedicado a seu trabalho de copiar documentos, alheio a tudo a seu redor – não sai para comer, não tem casa, descobre-se que ele dorme no sofá do escritório – e acaba deligando-se pouco a pouco do mínimo de contato humano que já suportava, recusando-se a realizar atividades até que se deixa até mesmo de copiar documentos, sempre se recusando a explicar as motivações para suas negativas. Ele acaba virando um item imóvel dentro do escritório, um homem sem humanidade – ou talvez com uma humanidade pura, despida de objetivos, tarefas, obrigações. Bartleby apenas existe. Fiquei com a sensação de que o conto tem muito mais camadas do que fui capaz de perceber numa primeira leitura, e certamente o lerei de novo. 😉

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    1. Concordo que haja mais camadas a desvendar nesse livro que é mais um conto que um romance, mas tão denso como se tivesse as mil páginas de Moby Dick. Mas entendo que há sim uma crítica à burocracia. Que pode ser lida talvez com mais ênfase na tentativa desesperada do patrão em manter a “normalidade” do escritório diante daquele elemento perturbador. Nesse sentido, talvez a leitura mais correta seja mesmo de entender Bartleby como um personagem chave do questionamento à burocracia. Embora escrito antes do advento do Fordismo, o livro também parece criticar pesadamente as atividades meramente repetitivas do mundo do trabalho, não acha?

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  2. Li Bartleby na universidade e adquiri, anos depois, o exemplar da Cosac Naify que é um primor. Indico para colegas professores, pois a genialidade do conto e a singularidade do personagem central por si só já despertam sentimentos no leitor capazes trazendo reflexão e rendendo boas conversas. Ótimo livro para impulsionar um debate em sala de aula.

    Curtido por 1 pessoa

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