Flores de Portugal

A vitória na Eurocopa deixou Portugal em estado de absoluta euforia. E orgulho. Os portugueses, finalmente, colocaram seu futebol no seleto circuito de seleções campeãs de torneios importantes. Orgulho é também o que Portugal pode sentir de sua literatura. Além dos óbvios Camões, poeta fundador de nossa Língua Portuguesa, Pessoa e Saramago, Nobel de Literatura que colocou nosso idioma no mapa, podemos enumerar uma rica coleção de grandes escritores, em um país que sempre se importou com o bom trato da língua. Do meu gosto pessoal, destaco Miguel Torga, Ferreira de Castro e Lobo Antunes. Você, ao ler, certamente terá lembrado de outros autores, contemporâneos ou não, que atestam o lugar de Portugal no cenário literário mundial.

FloresChego a Afonso Cruz, um dos nomes que tem se destacado na literatura d´além mar (eu precisava usar esse clichê, vocês entendem, né?). Seu mais recente romance, Flores chegou ao Brasil pela Companhia das Letras. Edição caprichada, com a capa da foto, que tem uma flor vazada.

A leitura de Flores foi rápida, porque o romance impele o leitor a avançar. É um livro que aguça a curiosidade e nos faz querer chegar ao desfecho, embora este não tenha qualquer dose de suspense ou mistério. A história tramada por Afonso Cruz tem a memória como tema central.

Cruz construiu a trama em torno de um narrador que é jornalista. Sobre esse ponto, os autores deste blog tem conversado bastante. Como tem sido comum lermos romances que têm jornalistas ou escritores como personagens principais. E nos perguntamos se esse é um vício decorrente de uma certa preguiça ou até de incapacidade em ambientar histórias fora do círculo de convívio do próprio autor. Têm sido raras as obras que se passam longe de universo profissional e pessoal dos autores. Esse é um tema para longos debates no encontros literários. Que certamente não terão consenso.

Pois então. O jornalista de Flores passa por uma crise pessoal e conjugal. Ao se ver cada vez mais distante da mulher e da filha, começa a busca um ponto de fuga. Incapaz de reconstruir seu ambiente familiar, passa a se interessar pela história de um de seus vizinhos, o senhor Ulme. E aí que entra em cena a memória. O vizinho, já septuagenário, não se recorda de seu passado. Um acidente cerebral coloca nas trevas todas as lembranças da vida que teve. Não se recorda dos amores, dos amigos, da profissão e nem sequer de sua aldeia alentejana natal.

O instinto jornalístico e a necessidade de se ocupar de algo levam o jornalista a tentar reconstruir as memórias do senhor Ulme. Ele vai à aldeia, encontra amigos e, especialmente, uma das irmãs Flores (que dão no ao livro), Margarida, cantora de fado que foi o grande amor de Ulme. Nesse percurso, descobrimos um personagem cheio de contradições, amado por poucos e odiado por vários de seus amigos. E conhecemos a cortina de silêncio em torno do momento em que a relação do velho boêmio e sua musa cantora se acabou.

O que lemos em Flores é a tentativa de reconstrução da memória afetiva do Senhor Ulme. De buscar entender como e a quem aquele homem amou. De quem não gostou. Quais causas adotou para si e como se posicionou em meio a uma violenta ditadura. Margarida, esse é um dado importante, foi uma importante cantora de fados que continham letras de protesto contra a ditadura. Até acabar presa e torturada pela PIDE, a temida polícia do regime de Salazar.

O fato de o portador dessas memórias não ter o que fazer com os fatos que vão sendo apurados pelo jornalista, levanta um tema inquietante. Revela que a visão que os outros têm daquilo que construímos ao longo da vida é fundamental para estabelecer nosso lugar no mundo. E mostra que quando vamos embora, seja pela morte ou pela perda da consciência, só restará de nós o conjunto de impressões que deixamos ao nosso redor.

Enquanto vai reconstruindo a vida do senhor Ulme, o jornalista tenta reconstruir também seu estado emocional. Em breves conversas com o espelho, dialoga com os mais variados personagens. Uma solução narrativa muito interessante para entrarmos no universo pessoal do narrador, formando um mosaico de sua atribulada vida pessoal. São pausas muito bem construídas na narrativa principal. Que mantém o leitor em estado de suspensão. E exige que estejamos sempre atando os pontos entre as histórias que correm em paralelo.

A leitura de Flores foi agradável e me levará a outras obras do autor. Mas um pequeno incômodo ficou no ar. O livro tem uma sucessão incrível de frases de efeito. Muitas com potencial para que se tornem frases de Caio Lispector, o perfil fake criado para juntar supostos pensamentos de Clarice Lispector e Caio Fernando Abreu que circulam pela Internet. São frases um tanto melosas, muitas vezes. Mas, para você que leu até aqui, não se desanime. Vá em frente e conheça mais este autor português.

Termino, como comecei, lembrando que do território português brotam novos e talentosos escritores. Esse pequeno país, que como disse o poeta Tomás Ribeiro, é um “jardim da Europa à beira-mar plantado”. E que sejam fecundos os campos de Portugal.

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