Oh abre alas, que os livros vão passar

O Grêmio Literário Carnavalesco Bloco Unidos do Lombada Quadrada entra no reinado de Momo. Os autores deste blog são foliões confessos, mas nem por isso deixam os livros de lado. Entre um bloco e outro, um show no Recife antigo e uma cerveja no Empório Sertanejo, existem aqueles momentos em que é preciso dar um descanso aos pés. Pode ser na cama do hotel ou em uma cadeira na praia de Boa Viagem. Estaremos acompanhados de livros.

E se você não tem a sorte de um Carlos Carvalho ou de uma Fátima Bernardes, de conhecer o carnaval do Recife pelas mãos de um/uma recifense, ou é daqueles que prefere o silêncio das montanhas ou uma praia sem carnaval (existe?), o Lombada traz algumas dicas de leitura. É só clicar no link da Amazon abaixo ou ir até sua livraria preferida, e colocar livros na bagagem.

Bom carnaval e boas leituras!

  • Livros com cenas de carnaval

Renata e eu fizemos um esforço para lembrar cenas marcantes que se passam em carnavais. Lembramos de três. E vocês, lembram de mais alguma? Enviem dicas pra gente nos comentários

Felicidade clandestina, de Clarice Lispector. Rocco.img_71501.jpg

A Ucraniana mais recifense em linha reta de todo o universo publicou nesse livro o conto Restos de um carnaval. Três páginas de lembranças de um carnaval de sua infância no Recife. A primeira fantasia, um susto, um flerte, aos 8 anos de idade. Clarice deixou esta frase que define a empatia do Recife e dos recifenses com o carnaval:

“E quando a festa ia se aproximando, como explicar a agitação íntima que me tomava? Como se enfim o mundo se abrisse de botão que era em grande rosas escarlate. Como se as ruas do Recife enfim explicassem para o que tinham sido feitas. Como se vozes humanas enfim cantassem a capacidade de prazer que era secreta em mim. Carnaval era meu, meu.”

 

Melhores contos, de António de Alcântara Machado. Global.IMG_7149[1]

Nesta seleção de contos, já resenhada aqui, estão os textos de Brás, Bexiga e Barra Funda, crônicas de uma São Paulo que crescia desvairadamente nos anos 1920. Além do saboroso, por motivos óbvios, Corinthians (2) x Palestra (1), tem o conto O mártir Jesus, que mostra o ambiente carnavalesco de uma São Paulo que já estratificava sua folia entre o elegante corso da avenida Paulista, com os barões do café e ricos industriais italianos desfilando em seus reluzentes automóveis, e o carnaval “sem vergonha” do Brás e adjacências, lugar de imigrantes brutos, amontoados nos cortiços. A descrição de Alcântara Machado é mordaz:

“Domingo carnavalesco. Serpentinas nos fios da Light. Negras de confete na carapinha bisnagando carpinteiros portugueses no olho. O único alegre era o gordo vestido de mulher. Pernas dependuradas da capota dos automóveis de escapamento aberto. Italianinhas de braço dado com a irmã casada atrás. O sorriso agradecido das meninas feias bisnagadas. Fileira de bondes vazios. Isso que é alegria? Carnaval paulista.”

 

Dona Flor e seus dois maridos, de Jorge Amado. Cia. das Letras.

“No outro dia, às dez da manhã, saiu o enterro, com grande acompanhamento. Não havia bloco nem rancho naquela manhã de segunda-feira de carnaval capaz de comparar-se em importância e animação com o funeral de Vadinho. Nem de longe.”

IMG_7142[1]A cena genial de Jorge Amado pulou para as telas da TV e do cinema. Dona Flor, no funeral de Vadinho,  como a porta-estandarte de um desfile animado pra bloco algum botar defeito. Se você é dos que apenas viram as adaptações, vá correndo para o livro e mergulhe no universo fantástico da obra de Amado. Orixás, cultura popular, política na escrita daquele que poderia ter sido o nosso Nobel de Literatura.

 

 

  • E mais 7 livros pro seu carnaval

Pra quem vai pra folia, como a gente, o carnaval vai ser de uma leitura, no máximo. Mas se a vibe é de se jogar em uma rede, você pode aproveitar para colocar em dia seu amor pelos livros. Se não tem uma fila na sua cabeceira, aqui vão algumas dicas aleatórias de leituras que o Lombada recomenda.

 

História do olho, de Georges Bataille. Cosac Naify.

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Um clássico da literatura erótica, História do olho foi publicado em 1928 e trata das aventuras e fantasias do narrador com Simone, sua namorada. Texto para os fortes e que encaram o erotismo sem moralismos. A tradução de Eliane Robert Moraes e os ensaios de Michel Leiris, Roland Barthes e Julio Cortázar fazem valer a pena ir atrás dessa edição. Um carnaval com nudes e sexo à flor da pele.

 

Nossa Teresa, de Micheliny Verunschk. Patuá.

IMG_7147[1]Em uma cidade imaginária, uma moça suicida passa a ser louvada como santa. Uma história incrível, em uma narrativa envolvente, que nos leva a um universo de fanatismo, exploração da religiosidade e a resistência de uma família de ateus, que não vê sua menina como uma santa milagreira. Muitas camadas para explorar nessa leitura que já resenhamos aqui.

 

A teta racional, de Giovana Madalosso. Grua.img_71461-e1517839403113.jpg

O poderoso livro de contos marcou a estreia de Giovana Madalosso na literatura. Maternidade, relacionamentos, igualdade de gênero, machismo. Nos contos, resenhados aqui por Renata, um universo rico para reflexões naquelas longas tardes longe da folia ou nas manhãs de praia ou piscina antes de cair na farra.

 

A peste, de Albert Camus. Record.

img_71451.jpgClássico da literatura humanista. A cidade de Orã, na Argélia, é tomada por uma peste transmitida pelos ratos. Enquanto a doença vai dizimando a população, o salve-se quem puder toma conta das ruas é narrado sob o ponto de vista de um médico que luta contra a doença e contra a terrível natureza humana que se revela no meio do caos. Boa leitura para tempos de febre amarela.

 

O papel de parede amarelo, de Charlotte Perkins Gilman. José Olympio.

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Um pequeno conto que acabei de ler e causou um impacto incrível. Publicado em 1892, narra a história de uma mulher que é levada pelo marido médico a uma casa de campo para repousar e se recuperar de uma doença dos nervos. Loucura, machismo, misoginia, o poder patriarcal. Tudo condensado em um texto curto, na forma de um pequeno diário. Livro de referência para o movimento feminista, devia ser lido por meninos e meninas, na adolescência, como um guia para combater o machismo. E um papel de parede que também é personagem.

Os sertões, de Euclides da Cunha. Edições Sesc + Ubu.

img_71431.jpgQuer levar um tijolão daqueles pro carnaval? Que tal ler este clássico tão citado e pouco lido? Garanto que vale a viagem. E tem essa edição novinha em folha da Ubu, com revisão crítica de Walnice Nogueira Galvão. Muito do que o Brasil é hoje está explicadinho nesse longo relato que Euclides fez da Guerra de Canudos. E se quiser uma belíssima ficção feita em cima da história, pode ler A guerra do fim do mundo, de Mario Vargas Llosa, que resenhei aqui.

 

Xica da Silva, a cinderela negra, de Ana Miranda. Record.

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Para quem ama biografias, Ana Miranda é um prato cheio. Sua obra mais recente faz um mergulho na vida de Xica da Silva, essa figura marcante do Brasil colonial.  Esse livro está na lista de leituras do Lombada, que já resenhou a incrível saga do poeta Gregório de Matos feita pela pena lírica e precisa de Miranda. O olhar da autora se debruça sobre as relações de seus biografados, faz conexões com o contexto social, econômico e político da época e transborda de poesia. Leitura para ficar na história.

 

***

P.S.: fiz a foto que ilustra o post no encontro de maracatus na zona rural de Aliança, na zona da mata norte de Pernambuco, no carnaval de 2014.

P.S.2: as edições fotografadas são as que temos em nossa biblioteca. Em alguns casos, o livro e o autor ou autora estão sendo publicados por outras editoras, como aconteceu com a obra de Jorge Amado, hoje no catálogo da Companhia das Letras.

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4 comentários sobre “Oh abre alas, que os livros vão passar

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