A guerra do Brasil

GuerraAo terminar de ler A guerra do fim do mundo, de Mario Vargas Llosa, uma dúvida ficou a me rondar. Salvo eu esteja enganado, e peço que me provem, caso tenham fortes evidências, a literatura brasileira é carente de romances de ficção construídos a partir de fatos marcantes de nossos 500 e poucos anos de história. Excluam da lista livros efetivamente de história, como os de Laurentino Gomes, e relatos como o de Euclides da Cunha, em Os sertões.

Temos na lista alguma coisa de Érico Veríssimo, Jorge Amado, Rubem Fonseca, muitos de Ana Miranda e outros autores, aqui e ali. O curioso é que são raros ou quase inexistentes os livros de boa ficção em torno dos personagens e acontecimentos de vulto em nossa história, como a Independência, a chegada da República, revoltas e revoluções e, especialmente o longo e doloroso período da escravidão, que parece ser o mais evitado.

Foi preciso que um escritor peruano mergulhasse na incrível história de Canudos para dar a ela um relato ficcional, baseado em fatos reais, claro. E o fez com maestria. Grudei na leitura das mais de 500 páginas desse romance publicado em 1981, que li na péssima 10ª edição da Francisco Alves, repleta de erros graves de revisão, apesar da boa tradução de Remy Gorga, filho.

Repito. Um peruano, que viria a ser Nobel de Literatura e é um dos mais consagrados escritores do planeta, debruçou-se sobre a história de Antônio Conselheiro, o sujeito que reuniu em torno de si, em fins do século XIX, no sertão da Bahia, uma legião de seguidores para combater a “República, os maçons e os ateus” e reinstaurar no Brasil a Monarquia, à espera do retorno de Dom Sebastião, o rei português desaparecido quase quatro séculos antes, em mais um episódio que mostra o quão marcante foi o sebastianismo, nos dois lados do Oceano Atlântico.

Essa maluquice toda provocou a morte de milhares de brasileiros, em um dos maiores massacres de nossa história. Foi objeto de um dos livros mais sensacionais de toda a língua portuguesa, o já citado Os sertões, em que o jornalista Euclides da Cunha faz uma descrição geográfica e humana do sertão e dos sertanejos, e um relato minucioso da guerra empreendida pela jovem República brasileira e seus militares violentos e eternamente golpistas, para apagar do mapa qualquer sombra de rebeldia, mesmo que esta tenha vindo de um punhado de brasileiros armados com pedras, facões, parabelos e altas doses de fanatismo religioso.

Vargas Llosa pegou essa história, botou nomes, personagens e nos leva a acompanhar jagunços, barões da política baiana, coronéis e generais de um exército trapalhão e sanguinário, estrangeiros e curiosos pelo fenômeno que foi Canudos. Gente central na história real. Mas, de longe, os melhores personagens são homens e mulheres que circularam à margem dos figurões. E, interessante, Conselheiro é praticamente uma ausência na maior parte do romance.

O relato nasce com um spoiler inevitável. Qualquer pessoa de mediana cultura no Brasil sabe que Canudos foi vencida e hoje seus escombros estão sob as águas de uma represa. Mas aí é que entra a maestria de um grande escritor. A narrativa é repleta de desfechos surpreendentes de personagens e situações. A cada capítulo há uma troca de ambiente. Ora estamos no acampamento dos militares. Ora estamos em um casarão de Salvador e, de repente, vamos para a vila de Canudos ou para Belo Monte. E tem o sertão, o calor, a dura topografia e a honra sertaneja permeando os caminhos dessa guerra insana.

É incrível que tudo tenha saído da lavra de um escritor estrangeiro, com tantos detalhes, frutos de uma pesquisa que merece admiração. Não esperem por experimentos narrativos. Vargas Llosa é acima de tudo um exímio contador de grandes histórias. E essa é uma delas. Uma história que explica muito o Brasil que vem sendo construído, ou, quem sabe, destruído, pela violência de sua mentalidade militar, pela segregação de negros e índios. E pela marginalização dos pobres. A leitura que A guerra do fim do mundo faz do Brasil não é abonadora. E, talvez, por isso, tenhamos tão poucos escritos ficcionais sobre nossa história. Terão nossos escritores medo de expor nossas fraturas? Se for isso, é uma pena.

Ah, para quem quer se aventurar na leitura, sugiro comprar a nova edição, publicada pela Alfaguara. Certamente bem tratada e revisada.

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