Vingança kafkiana

Para onde vamos quando sonhamos?

Há alguns milênios essa pergunta vem ocupando a ciência, a filosofia e a metafísica; o povo de exatas, o de humanas e o de saúde. A resposta já ocupou gregos, freudianos e recentemente a literatura brasileira, no segundo romance da escritora paulista Andréa del Fuego (Companhia das Letras, 2013).

20160213_115142Segundo As miniaturas, quando dormimos vamos parar no Edifício Midoro Filho, na Praça da Sé. Lá dentro, cada pessoa é atendida em pequenos gabinetes por um profissional previamente designado, que a orienta na elaboração dos seus sonhos, usando para isso pequenas maquetes e frases sugestivas. Estes profissionais são os oneiros; nós somos os sonhantes.

Centenas, talvez milhares de pessoas, trabalham no Edifício Midoro Filho, seguindo uma rígida estrutura burocrática que define os sonhantes de cada oneiro, as miniaturas autorizadas, os procedimentos padrão para cada mínima ocorrência. Um sistema aparentemente infalível, que garante o sono, os sonhos e o despertar de todos os viventes.

Uma dessas regras diz que um oneiro não pode atender pessoas que tenham grau de parentesco; no entanto, por  uma falha do sistema, um desses profissionais é o responsável pelos sonhos de uma taxista de meia idade e seu filho adolescente. O oneiro deveria, mas não denuncia essa falha à direção do edifício. Sente uma estranha curiosidade por observar as semelhanças e diferenças de comportamento entre mãe e filho.

Cada um desses três personagens tem sua própria voz na narrativa de Andréa del Fuego. A história vai se alternando entre um e outro, de forma a que acompanhamos simultaneamente a conturbada vida da mãe, rodando a cidade em seu táxi, carente do afeto do filho e do amante; a vida do filho, perdido entre a pressão da mãe para que trabalhe em um posto de gasolina e sua própria indefinição sobre o que quer do futuro; e do oneiro, preso no ambiente do Edifício Midoro Filho e sua burocracia incompreensível.

Estas três camadas superpostas fazem com que o romance traga um interessante e multifacetado painel contemporâneo sobre relações que se desenvolvem em um ambiente urbano desfavorável, em que a falta de dinheiro define atitudes e pensamentos e afeta os sonhos (enquanto desejos de futuro), se não os sonhos (as imagens do inconsciente enquanto dormimos).

O romance de Andréa del Fuego, aliás, é extremamente irônico quanto a isso: os sonhos gerados no Edifício Midoro Filho parecem não ter relação alguma com a vida real dos personagens, tampouco influenciam suas atitudes quando acordados. Toda a estrutura burocrática deste elefante branco não passa então de uma finalidade em si própria, que ameaça ruir por suas contradições internas.

Desenvolvida no campo do fantástico, a narrativa do oneiro é quase como uma vingança contra a imagem da burocracia kafkiana, explorada com maestria em O processo. Enquanto no romance de Kafka um homem comum se vê enredado em um complexo processo judicial que não sabe como começou, em As miniaturas a burocracia se mostra em sua fragilidade e inutilidade, um castelo de cartas prestes a ruir ao menor sopro.

O oneiro narrador é o funcionário que se incomoda com este estado de coisas e assume uma atitude questionadora frente à burocracia burra. Tenta criar uma ligação real com mãe e filho sonhantes, enquanto estes nem ao menos desconfiam de sua existência ou de qual seja a serventia do Edifício Midoro Filho.

Assim, As miniaturas é também uma poderosa metáfora sobre um mundo que gira sobre organizações grandiosas, misteriosas, às vezes dispensáveis, e que no entanto subsistem da pretensão de afetar a vida de todos.

PS: Andréa del Fuego já tinha nos conquistado com Os Malaquias, seu romance de estreia. Ainda não o resenhamos aqui no Lombada Quadrada, mas ele entrou na lista 10 mulheres para ler agora (e continuar lendo mulheres). É uma das autoras contemporâneas que estamos acompanhando com muita atenção.

4 comentários sobre “Vingança kafkiana

  1. Olá, Renata.
    Que coincidência ler a resenha desse livro aqui. Digo coincidência porque o li e resenhei recentemente também.
    Foi meu primeiro contato com a escrita da Andréa e me surpreendi. Positivamente, é claro. No começo, eu esperava que em algum momento houvesse uma explicação do que seria um oneiro, mas no avançar da leitura fica mais do que claro o que é.
    Abraços.

    Minhas Impressões

    Curtido por 1 pessoa

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