12 livros que viraram filmes

And the Oscar goes to…

Esta famosa frase-clichê  movimenta a cada ano a roda da fortuna da indústria cinematográfica hollywoodiana. Uma simples indicação ao prêmio mais badalado do cinema aumenta bilheteria, dá bônus a produtores, diretores, roteiristas e alça ao estrelato atores e atrizes. Ganhar o prêmio, então, garante um lugar no Olimpo e muitos milhões a mais em diversas contas bancárias.

Se o Oscar é o evento mais grandioso e midiático do mundo do cinema, este não resume a Hollywood e aos grandes festivais espalhados ao longo do ano e nem só de diretores com ideias geniais nascem os filmes. A arte de contar histórias a 24 quadros por segundo tem um poderoso aliado: a literatura.

Livros, muitos livros, são fonte de inspiração para filmes. Clássicos da literatura, romances medíocres, biografias, quadrinhos. O cinema depende, e muito, do talento dos escritores.

E já que estamos na semana do Oscar, o Lombada Quadrada resolveu fazer sua lista de indicações. Não ao Oscar, pois não queremos ser óbvios como normalmente é a lista da Academia. Aqui você vai encontrar livros que foram adaptados para o cinema. Livros ótimos que viraram filmes ruins. Livros fracos que se tornaram grandes filmes. Tem de tudo. Quadrinho, romance, filme que ainda vai ser lançado, campeões de bilheteria. Faça sua lista e leia, sempre.

 

Carlos indica:

Querelle de Brest, de Jean Genet
Querelle

A gente avisou que não era nada óbvio, não? Então, a lista começa com o romance Querelle de Brest, de Jean Genet, publicado na França em 1947, com edição brasileira pela Editora Nova Fronteira. Nas páginas do livro, homoerotismo em altas doses nas aventuras do marinheiro Querelle no porto Francês de Brest. Sexo, violência, crime, malandragem. O submundo dos navios comerciais e seus marinheiros fortões. O livro é ótimo e o filme, então. Dirigido por ninguém mais do que Rainer Fassbinder, em 1982, tem Brad Davis no papel de Querelle e Jeanne Moreau, que canta a música tema do filme. Fassbinder dedicou o filme ao namorado. Mas jamais viu sua obra na telona, pois morreu meses antes do lançamento. Minha sugestão é começar pelo romance e depois chegar à adaptação para o cinema. O filme é todo noturno, rodado em bares, cantos escuros das ruas de Brest, porões e cabines mal iluminadas dos navios. Dois clássicos.


Crônica de uma morte anunciada,
de Gabriel García Márquez

Crônica

A ligação de Gabo com o cinema foi sempre explícita. O colombiano, que nunca escondeu sua intensa ligação com Cuba, foi co-fundador da renomada  escola de cinema de San Antonio de los Baños, na ilha de Fidel. E orientou muitas turmas em aulas sobre criação (ai, que inveja!!!). Mas a obra de García Márquez teve até agora poucas adaptações para o cinema. Livros complexos, histórias de clima fantástico que talvez possam soar excessivamente realistas nos tempos malucos que vivemos. Além de Erendira, filmada por Ruy Guerra, com Claudia Ohana, destaco aqui a adaptação que o italiano Francesco Rosi fez para Crônica de uma morte anunciada. Elenco estrelado, com Ornela Mutti, Irene Papas, Rupert Everett e Gian Maria Volonté. Mas o filme derrapa numa visão quase de faroeste para a história da morte mais do que anunciada de Santiago Nasar. Fique com o livro, que tem edição brasileira da Record. E esta incrível abertura, que ao contar o desfecho da trama, teria sido rejeitada por muitos editores, não fosse Gabo já mais do que consagrado:

“No dia em que o matariam, Santiago Nasar levantou-se às 5h30 da manhã para esperar  o navio em que chegava o bispo. Tinha sonhado atravessar um bosque de grandes figueiras onde caía uma chuva branda, e por um instante foi feliz no sonho, mas ao acordar sentiu-se completamente salpicado de cagada de pássaros. ‘Sempre sonhava com árvores’, disse-me sua mãe 27 anos depois, evocando os pormenores daquela segunda-feira ingrata.”


O amante,
de Marguerite Duras

O amante

Uma balsa cruza o Mekong. E a vida de uma adolescente francesa se cruza com a do que será seu futuro amante. Um homem de negócios da Indochina, então colônia francesa, nos longínquos anos 1950. A história de Duras, lindamente narrada em páginas repletas de uma prosa que é poética e incisiva, realista, dura. O livro, de 1984, chegou às telas em 1992 pelas mãos de Jean-Jacques Annaud, tendo Jane March no papel da jovem francesa e Tony Leung Ka Fai como seu amante. O filme tem imagens bonitas, uma estética grandiosa e cenas de sexo que te fazem se mexer na poltrona. Mas foi muito criticado pela superficialidade com que abordou a narrativa densa de Duras. Quer um conselho? Fique com o livro, editado no Brasil pela Record. E, se o filme aparecer pelos flix da vida, arrisque.


Persépolis,
de Marnaje Satrapi

Persépolis

Os quadrinhos são a bola da vez na indústria do cinema. Sempre foram fonte de inspiração. Mas, ao que tudo indica, estamos passando por um boom de adaptações, que vão do luxo ao lixo. Os executivos da Marvel, é claro, estão pra lá de sorridentes. E com bônus garantidos para a eternidade. No campo das HQs, o Lombada poderia nadar de braçada, com uma lista exclusiva. Ainda faremos isso. Neste nossa lista vamos ficar com Persépolis, a linda história autobiográfica de Marji, uma menina iraniana que viu a revolução islâmica trazer um sopro de esperança para seu país. Sopro efêmero, que logo se transformou em uma brutal perseguição religiosa que afetou profundamente sua família, tradicionalmente liberal em um Irã cada vez mais fundamentalista. Os quatro volumes de HQ em preto e branco foram adaptados para o cinema de animação, com co-direção da própria Marjani com Vincent Paronnaud. Com vozes de Chiara Mastroianni e de sua mãe, Catherine Deneuve (ahhh!!!), a adaptação é muito fiel à estética dos quadrinhos e nos leva diversas vezes às lágrimas na longa saga da menina Marji, desde a infância no Irã até o exílio na Europa. A dificuldade de entender o fundamentalismo no mundo Árabe e a indiferença e preconceito do ocidente faz da trajetória de Satrapi uma poderosa alegoria dos conflitos atuais na Síria, na Palestina, no Iraque e no Afeganistão. Leia o livro, que tem ótima edição da Companhia das Letras. E assista ao filme, que ganhou prêmios na Europa, foi o melhor filme da Mostra Internacional de São Paulo em 2007 e foi indicado ao Globo de Ouro e ao Oscar.


Dona Flor e seus dois maridos,
de Jorge Amado

Dona Flor

Por mais de três décadas a adaptação que Bruno Barreto fez em 1976 para o romance de Jorge Amado foi a maior bilheteria do cinema nacional, só suplantada recentemente pelos blockbusters de policiais valentões e comédias de besteirol da Globo Filmes. Naquele ano, em casa, houve um acontecimento. Meus pais foram ao cinema para ver o filme sobre o qual todo mundo falava. Meus pais no cinema era um acontecimento. Tanto que só me lembro dessa ida deles ao cine Japi. Eu, moleque, só consegui ver o filme nos anos 1980, com a chegada do videocassete. E o filme é bom. José Wilker e Mauro Mendonça são os dois maridos de Sonia Braga na película cheia de duplos sentidos, que driblou a censura de então. Dona Flor e seus dois maridos é um clássico do realismo fantástico brasileiro e um dos melhores romances de Jorge Amado, escritor de altos e baixos, mas genial, sem dúvida. Um ponto importante a se observar nos romances de Amado: ele foi um arguto observador das relações de poder na sociedade brasileira. E esse tema está sempre presente em sua narrativa. Na tela, assistimos mais ao lado cômico da história em que Dona Flor, saudosa de seu safado e falecido marido Vadinho, evoca sua presença e passa a dividir a cama com o sério e trabalhador Dr. Teodoro, seu atual marido, e o espírito do morto, que vem apimentar suas noites. Leia, assista. As atuais edições da obra de Jorge Amado são da Companhia das Letras.


O nome da rosa, de Umberto Eco

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O ano de 1986 marcou o começo de meu envolvimento com Umberto Eco. Sim, tivemos uma relação duradoura, até a morte dele, na semana passada. Em 1986, comecei a ler textos de semiologia de Umberto Eco, no primeiro ano da faculdade de jornalismo, na PUC-SP. Li também trechos de Apocalípticos e integrados. Até que um dia, passando pela rua da Consolação, vi o grande cartaz do Belas Artes anunciando a estreia de O nome da rosa, com o carão de Sean Connery, o jovem Christian Slater e grande elenco. Me interessei. E quando fui ao cinema, a surpresa: era baseado em  um romance de Umberto Eco. Como assim? Ninguém na PUC tinha me dito que ele era romancista. Claro que depois devorei as páginas da história do monge William de Bakersville e seu noviço Adso von Melk, que chegam a um mosteiro para um debate sobre riqueza e voto de pobreza na igreja católica. O grande debate é pano de fundo para uma história de misteriosas mortes que rondam a grande biblioteca da abadia. E é justamente Baskerville/Connery/007 quem investiga o caso, levando-nos a terríveis descobertas. O filme é de Jean-Jacques Annaud (o mesmo de O amante, resenhado acima). E o livro, longo e repleto de narrativas minuciosas dos grandes debates teológicos do século XIV, é um clássico que deve ser lido. A edição brasileira é da Record.

 

Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago

Ensaio Sobre a Cegueira

Não é dos meus livros preferidos da obra do gênio português. Mas é um belo livro. E talvez um dos mais adaptáveis para o cinema. E a versão de Fernando Meirelles é muito fiel à impressionante história de um país que é acometido por uma cegueira branca, que deixa milhões de pessoas imersas em um mundo leitoso, sem cor, sem imagem. Misteriosamente, algumas poucas pessoas continuam a enxergar. E se há um ditado que diz que em terra de cego quem tem olho é rei, Saramago subverte o dito, pois mostra que ter olho em meio à cegueira pode ser terrível. Pois o espetáculo que se vê é grotesco. Uma grande parábola sobre Ética, que chegou às telas com Julianne Moore, Mark Rufallo, Danny Glover, Gael Garcia Bernal e Alice Braga. Com direito ao minhocão paulista como parte do cenário de caos e destruição deixado por milhares de cegos que, em busca de alimento e água, atacam lojas, pessoas, casas. Um livro e um filme para descrer profundamente da humanidade. A edição brasileira dos livros de Saramago é da Companhia das Letras. A boa notícia é que pela versão de bolso do livro, em papel mais fino, você paga bem menos.


Renata indica:

Lolita, de Vladimir Nabokov

Lolita

Adaptado para o cinema por ninguém menos que Stanley Kubrick em 1962, o clássico de Vladimir Nobokov gerou polêmica quando foi publicado em 1955 e geraria ainda mais nos dias de hoje. O personagem Humbert Humbert, professor de meia-idade, escreve suas memórias na prisão, enquanto aguarda seu julgamento por homicídio. E conta, em detalhes, como se lançou obsessivamente à corte de Lolita, uma pré-adolescente de 12 anos, filha de sua senhoria. Humbert consegue o que quer e o livro apresenta erotismo explícito quanto aos detalhes dessa relação. Assim, Nabokov cunhou o termo ninfeta, hoje de uso corrente. Em função das pressões da censura americana, o filme de Kubrick é muito menos direto na abordagem, deixando a maior parte das situações sensuais apenas sugerida. O roteiro, creditado ao próprio Nabokov, foi indicado ao Oscar, mas não levou. Tanto o filme como o livro costumam despertar a discussão sobre até que ponto a arte deve ter amarras morais, ou apenas estéticas. Seja como for, Lolita tem o que eu considero até hoje um dos melhores parágrafos iniciais de um livro, aqui na magistral tradução para o Português de Jorio Dauster:

“Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo. Li. Ta.”

 

O jardineiro fiel (The constant gardener), de John Le Carré

Jardineiro

Comprei esse livro no aeroporto Madri, em inglês mesmo, prestes a embarcar na maior aventura da minha vida. Enquanto cruzava o Atlântico como tripulante de um veleiro sueco, réplica de uma embarcação histórica, lia O jardineiro fiel nas horas de folga, sentada desconfortavelmente no convés ou deitada na rede que me servia de cama, pendurada quase rente ao teto do dormitório. O livro é um bom romance, um thriller contemporâneo com tudo o que isso significa: uma história global de ameaça a comunidades empobrecidas por uma grande corporação capitalista. Mas o que Fernando Meirelles fez com o filme em 2005 foi fora do comum. A película é muito mais interessante do que o livro, ampliando a dimensão humana dos conflitos internos do personagem Justin Quayle (Ralph Fiennes), que busca desvendar o assassinato de sua esposa (Rachel Weisz), uma ativista pró-direitos à saúde da população africana, enquanto tenta compreender sua infidelidade. No Brasil, a edição é da Record.

 

Desventuras em série, de Lemony Snicket

Desventuras

Em 13 volumes publicados pela Companhia das Letras, Desventuras em série é a melhor literatura infantojuvenil contemporânea que o dinheiro pode comprar. No meu ranking, está acima de Harry Potter, mas tanto sarcasmo e humor negro num trabalho para crianças talvez tenham reduzido um pouco o potencial de popularidade da série. A dedicatória do primeiro volume, por exemplo: “Para Beatrice – querida, adorada, morta” (como não amar?). A história começa no momento em que os irmãos Baudelaire, Violet, Klaus e Sunny, recebem a notícia de que seus pais morreram no incêndio de sua casa. A partir daí, tudo dá errado para as crianças, que passam a ser perseguidas por um parente distante, louco pra ficar com sua herança. O texto é absurdamente inteligente e a trama vai ficando mais complexa à medida em que a história avança. Para as telonas, a adaptação dirigida por Brad Siberling, e com Jim Carrey no papel do vilão Conde Olaf, compilou os três primeiros volumes em um filme bastante fiel ao clima gótico dos livros – talvez por isso, a película também não se popularizou e a esperada sequência nunca aconteceu.

 

Sonhos de uma noite de verão, de William Shakespeare 

Shakespeare

Minha comédia preferida do velho Will teve sua última adaptação para o cinema em 1999, pelo diretor Michael Hoffman, com Michelle Pfeiffer, Rupert Everett, Stanley Tucci e Christian Bale no elenco. O filme adota o texto original e o clima de teatrão, e se o resultado final não é exatamente uma obra prima, cumpre o papel de possibilitar ver o texto encenado com fidelidade (desde que me mudei para São Paulo, soube de apenas uma montagem de Sonho de uma noite de verão por aqui). A peça (ou o filme) se desenvolve na Grécia antiga, em torno de três núcleos de personagens: dois casais de jovens apaixonados ao estilo Quadrilha, de Drummond (João amava Teresa, que amava Raimundo…); um grupo de artesãos ensaiando uma peça amadora para as comemorações do casamento do Duque de Atenas; e os deuses Oberon e Titânia que, entediados em suas deusices, fazem uma aposta que envolve consertar a situação dos casais – e claro, bem ao estilo de Shakespeare, tudo fica uma confusão dos infernos até finalmente dar certo. Há também uma adaptação de 1935, que não conheço, dos diretores William Dieterle e Max Reinhardt. Essa foi indicada ao Oscar de Melhor Filme e venceu nas categorias de Fotografia e Montagem. Minha edição é da Dover Thrift Editions, mas o texto é de domínio público e existem várias edições disponíveis para download.


Tudo se ilumina (Everithing is illuminated), de Jonathan Safran Foer

Tudo se ilumina

Um jovem judeu americano resolve viajar à Ucrânia para tentar descobrir quem foi a moça que, no passado, ajudou o seu avô a fugir dos nazistas. Ele só tem uma foto e o nome de uma vila que não existe mais. Então, contrata uma “empresa” especializada em turismo judaico para levá-lo em uma road trip pelas terras de seus antepassados. A “empresa”, no entanto, é uma furada e o jovem viajante se vê rodando as estradas da Ucrânia em um carro velho com um adolescente fanático pelos Estados Unidos, seu avô motorista e uma cadela vira-latas. Baseado na história pessoal do autor, que empresta seu nome ao personagem principal, o livro é uma autoficção que se desenvolve em três tempos distintos: a viagem narrada pelo adolescente ucraniano, em um maravilhoso inglês de falsos cognatos (de onde vem o título); as cartas enviadas por ele para Jonathan após a viagem, em que comenta o próprio livro; e o passado em Trachimbrod, a vila perdida, que tem um quê de Macondo. O filme, no Brasil com o título Uma vida iluminada, tem Elijah Wood no papel de Jonathan. Nem de longe consegue dar conta da complexidade narrativa e de linguagem do livro, mas é bonitinho e tem uma trilha sonora absolutamente sensacional (confira aqui). Temos a edição inglesa da Penguin e a brasileira, da Rocco.

P.S.: a foto que abre o post foi tirada no bar do CineSesc, em São Paulo, onde é possível assistir a ótimos filmes tomando um espumante.

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