10 mulheres pra ler agora (e continuar lendo mulheres)

O feminismo e o empoderamento das mulheres estão cada vez mais na pauta da sociedade contemporânea (aleluia, irmãs!) e o tema, claro, também envolve a literatura. É fato que a presença de mulheres nas estantes é irrisória, muito aquém do potencial criativo do gênero. O discurso médio de deslegitimação se volta sempre ao argumento da meritocracia: “basta escrever bem, e qualquer uma pode chegar lá”. A-hã.

Em abril deste ano, cansada de ficar sem resposta das editoras, a escritora americana Catherine Nichols resolveu submeter seu manuscrito com um pseudônimo masculino. Recebeu 8,5 vezes mais respostas para o mesmo material, enviado às mesmas casas (veja mais no The Guardian). Ao longo de 108 anos, apenas 14 mulheres receberam o Nobel de Literatura, sendo duas em edições recentes: Alice Munro (2013) e Svetlana Alexievich (2015).

Não se trata aqui de defender cota para publicação de livros escritos por mulheres, mas de cobrar um olhar igualitário sobre o trabalho criativo de ambos os gêneros. Espera-se que mulheres escrevam livros femininos (ou feministas), enquanto aos homens é dado escrever sobre o que bem entenderem. Há mesmo uma discussão idiota sobre a suposta existência da literatura feminina – o que seria isso, afinal? Mulheres escrevem de maneira diferente porque são mulheres? A sensibilidade (açucarada, é claro) é uma commodity de quem menstrua?

Que conversa. Minha crença pessoal é que, se existe algo comum a todas as mulheres escritoras, é o fato de que suas carreiras são uma eterna corrida com barreiras, que não termina com o livro publicado. Autoras em festas literárias são constantemente divulgadas por suas carinhas bonitas e viram musas a figurar bem nas fotos de divulgação. Só um tapado pra não enxergar o quanto tudo isso é limitador, a priori e a posteriori.

Recentemente, a blogueira María Barrios escreveu para o El País sobre a proposta pessoal de passar um ano lendo apenas mulheres. Teve esse ideia depois de percorrer sua estante e ver que, entre 200 livros, nem 30 tinham sido escritos por autoras. No meu próprio Desafio dos 52 livros, dos 41 volumes que li até agora, apenas cinco foram escritos por mulheres (!!!). Recomendo a leitura do post de María, e especialmente dos comentários na página e no Facebook do El País. Não, sério: “machismo ao contrário” me fez rir por horas.

A boa notícia é que essas questões têm sido discutida em todo o Brasil pelo movimento Leia Mulheres, que promove debates públicos gratuitos sobre autoras. O próximo em São Paulo acontece no dia 27 de outubro na livraria Blooks, no Shopping Frei Caneca, sobre Frankenstein, de Mary Shelley.

E porque o Lombada Quadrada é contra tudo isso que está aí, resolvemos listar 10 autoras que mostram como a única limitação da escrita feminina é o machismo. O universo de seleção é o das nossas próprias estantes – e se admitimos o quanto elas estão defasadas da presença feminina, a lista abaixo prova que as possibilidades são infinitas. O post conta com contribuições de Carlos, assinaladas ao final de cada texto.

(A propósito, a foto que ilustra esse post é do Autorretrato (1958) de Rosa Rolanda, na mostra Frida Kahlo em cartaz no Instituto Tomie Othake, em São Paulo)

1. Mary Shelley, com Frankenstein
IMG_5030Entre os anos de 1816 e 1817, foi uma moleca de 19 anos que escreveu uma das histórias de terror mais conhecidas da humanidade, hoje parte do inconsciente coletivo em escala praticamente global. Mas a primeira edição do livro sequer levou o nome da autora na capa. Em vez disso, o volume trazia apenas um prefácio escrito por seu noivo. O poder da ciência, a relação criador/criatura, preconceito, injustiça e solidão são alguns dos temas tratados no romance narrado pela voz do  Doutor Victor Frankenstein, às voltas com o monstro que ele gera a partir de pedaços de cadáveres. Ótima sacada do Leia Mulheres debater esse romance.


IMG_50372. Rachel de Queiroz, com O Quinze

Se existe algo mais árido que o Sertão nordestino é a escrita de Rachel de Queiroz. O Quinze, seu primeiro romance, foi escrito quando ela tinha apenas 20 anos. O drama dos cearenses obrigados a deixar suas terras em função de uma das mais perversas estiagens da história é tratado sob a ótica da questão social. Político, o livro foi a estreia acachapante da primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras. Dela, recomendo também, e fortemente, O Não Me Deixes, sobre a culinária sertaneja. Esqueça a fofura das receitas da Dona Benta e prepare-se para enfrentar os detalhes sangrentos sobre a melhor forma de abater uma galinha com suas próprias mãos.

3. Clarice Lispector, pelo conjunto da obra IMG_5036
Sim, pode-se dizer que Clarice Lispector tem uma literatura feminina – que é só dela e não comprova nenhuma regra sobre como as mulheres em geral escrevem. A escritora ucraniana (e moralmente recifense) ousou ao colocar sua sensibilidade de mulher nos romances e crônicas, mas não confunda sensibilidade com sentimentalismo. Esqueça as frases melosas que você vê circulando no Facebook, metade delas é falsa e a outra metade está fora de contexto. Clarice é provavelmente a autora (e incluo os homens) mais perturbada e perturbadora da literatura brasileira. Lembre-se que A paixão segundo G.H. se desenvolve em torno da epifania de uma mulher sobre a condição humana, desencadeada pelo esmagamento acidental de uma barata. Se você quer entrar aos poucos no universo de Clarice, comece com seu primeiro romance: Perto do coração selvagem.


4. Ana Miranda, pelo conjunto da obra 

Minha atual ídola literária se especializou IMG_5035em romances históricos desde seu romance de estreia, Boca do inferno, sobre o poeta barroco Gregório de Matos. Logo em seguida, passou a abordar também a condição feminina ao longo das eras, mesmo quando os personagens “principais” de seus romances são homens notáveis. Desmundo é o meu preferido; trata da imigração forçada de adolescentes órfãs para o Brasil recém-descoberto, com a finalidade de casá-las com colonos portugueses e iniciar uma comunidade pura e branca nas bandas de cá. Adoro também o recente Musa praguejadora, biografia de Gregório de Matos em que as mulheres, outra vez, ganham destaque (veja a resenha que escrevi para o suplemento Pernambuco).


5. J.K. Rowling, com a série Harry Potter
 
O maior fenômeno literário deste século IMG_5034(até agora) também foi rejeitado por diversas editoras antes de ser finalmente publicado na Inglaterra, tornando-se de imediato um fenômeno da cultura pop. Joanne Rowling, então mãe solteira, estava desempregada quando escreveu o primeiro volume da série. Quando finalmente recebeu o “sim” da Bloomsbury, teve que aceitar também a supressão de seu nome na capa do livro, sob a alegação de que “meninos não leriam um livro escrito por uma mulher” (180 anos depois de Mary Shelley, as editoras não aprenderam nada). Harry Potter é ótimo e tem o enorme mérito de estar contribuindo para a criação de uma geração inteira de leitores.

IMG_50386. Paula Fábrio, com Desnorteio
Vencedora do Prêmio São Paulo de
Literatura em 2013, como estreante, Paula Fábrio recorreu à história de sua família para a construção de Desnorteio. Três homens inaptos para o convívio social vão aos poucos se isolando do mundo numa casa no interior de São Paulo. Com a narrativa fragmentada e extremamente sutil, o livro demanda muito da imaginação do leitor e só se constrói junto com ele – qualidade rara na literatura contemporânea. Paula lança novo livro em breve (aguardamos ansiosamente!).


7. Marguerite Duras, com O amante da China do Norte
Escritora, dramaturga, roteirista de IMG_5039cinema, cineasta, ativista política, feminista e, acima de tudo, polemista. Marguerite Duras foi uma mulher de personalidade complexa, que influenciou uma geração de leitores e esteve presente em todos os grandes debates na sociedade francesa entre os anos 1960 e 1990, quando morreu. Sucesso de público e crítica, seus textos renderam ao menos dois grandes filmes. Hiroshima Mon Amour, de Alain Resnais e O amante, de Jean-Jacques Annaud. Em O amante da China do Norte, que deu origem ao filme de Annaud, Duras volta a seu livro O Amante e lança um novo olhar sobre a relação entre a jovem francesa e um sedutor comerciante chinês nos anos da ocupação europeia na Indochina. É um texto sobre a descoberta do corpo e a busca pela liberdade. Feminista, sim senhor. “Nunca achei que houvesse diferença entre uma linguagem falada e uma linguagem escrita. Há um deslocamento, mas não uma incorreção”, disse Duras no começo dos anos 1990. Essa frase resume seu estilo e atrai a leitura. (Carlos).


8. Elfriede Jelinek, com DesejoIMG_5041
Prêmio Nobel de 2004, a austríaca Elfriede Jelinek tem uma escrita dura, sem floreios, nada poética. Em Desejo, Jelinek se utiliza de jogos de palavras refinados e narrações cruas de relações sexuais para provocar e incomodar o leitor, do começo ao fim. É um romance sobre a relação de poder que se instala entre um homem e uma mulher a partir do primeiro momento em que se beijam até o desfecho de sua vida em comum. Uma denúncia do machismo que se revela no antagonismo entre o silêncio desesperado da mulher e a voz ativa e autoritária do homem, sempre legitimada pelas relações sociais. Elfriede Jelinek tem uma obra conhecida do grande público. Seu romance A pianista foi para as telas do cinema com o nome de A professora de piano, com direção de Michael Haneke e Isabelle Huppert no papel principal. Apesar do Nobel em 2004, só fui conhecer e ler sua obra em 2014, com a publicação tardia de Desejo, pela Tordesilhas. (Carlos)

9. Tatiana Salem Levy¸com A chave da casa
Conhecemos Tatiana Levy por sua IMG_5042indicação ao Prêmio São Paulo de Literatura, em que foi premiada como melhor autora estreante, na edição de 2008. A chave da casa, também Prêmio Jabuti, nos apresenta uma narradora que tem diante de si um mistério sobre o passado de sua família. Em capítulos curtos, quase no formato de um diário íntimo, ela nos abre suas angústias em pílulas de memória que compõem um mosaico de dúvidas e desejos. A relação violenta com um homem, a onipresença da mãe, a irmã e o segredo guardado em uma casa. Leitura obrigatória da nova geração de autoras brasileiras. Aqui, um desses micro capítulos que talvez resuma esse estado de busca contínua do desconhecido:“Tenho medo de ser feliz quero ser feliz tenho medo de ser feliz quero ser feliz tenho medo”. (Carlos)


10. Andrea del Fuego, com Os Malaquias
IMG_5040Mais um livro da nova geração de autoras. O que mostra o vigor da literatura contemporânea feita por mulheres. E não é qualquer livro. Andrea del Fuego, em Os Malaquias nos leva à Serra Morena e à Fazenda Rio Claro. Ali, acompanhamos uma trama de histórias paralelas em torno de três irmãos que ficam órfãos depois que seus pais são mortos por um raio fulminante. A partir daí, a vida de Antonio, um menino que não cresce, Nico, que é engolido por um bule de café e Júlia, uma garota que está sempre em fuga, é contada em narrativas fantásticas. Cavernas e navios misteriosos, uma cidade fantasma à espera da inundação de uma represa. Um mundo rural e suas histórias assombrosas. Os Malaquias é um romance impressionante, belo e poético. E a edição da Língua Geral faz do livro uma pequena obra de arte para guardar com carinho redobrado na prateleira. (Carlos)

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29 comentários sobre “10 mulheres pra ler agora (e continuar lendo mulheres)

  1. Li boa parte da lista e gostaria de acrescentar algumas. Quando quero emoção, leio Izabel Allende. Quando quero rir, leio Maryan Keyes. Quando quero tesão, leio Anais Nin. Jodi Picout para suspense e Cecília Meireles, Elisa Lucinda e Florbela Spanca quando quero poesia!

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  2. Dos últimos 100 livros que li, desde 2010, apenas 10 foram escritos por mulheres. Um percentual realmente muito baixo. Dicas anotadas, pretendo agora engordar esse número (blablablasobrelivros.wordpress.com).

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  3. são ótimas autoras, adoro ler, uma autora muito boa que até fiz minha monografia de uma obra sua é Anna Gavalda, ela é francesa e seus livros são ótimos, alguns já fizeram até filmes.

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    1. Muito interessante, não havia parado para pensar quantos livros escrito por mulheres ja li …
      Vou seguir as sugestoes acima, e reler Cecilia Meireles e Florbela Spanca.
      Deixo minhas sugestões:
      Cora Coralina
      e
      Ligya Fagundes Telles, a qual me apaixonei aos quinze anos e para sempre!

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  4. Obrigada pela lista! Tenho muito o que ler! Queria sugerir também Gloria Anzaldúa com La Frontera, pra mim um marco da literatura periférica e feminista; e tem também a clássica Virginia Woolf – o ensaio “Um teto todo seu” tem tudo a ver com esse tema.

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  5. Clarice, mais um vez e de novo… Porque, não, no lugar dela, Lya Luft (que, fora a Veja, tem romances incríveis, de mulheres que sofrem por suas condições de filhas, esposas, irmãs “menos populares” etc)?

    E Angélica Freitas! Nossa, ela é a Voz Feminina do Brasil no século XXI (na minha humilde opinião de homem).

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    1. Porque eu li Clarice, não Lya Luft, rs… Sugestão anotada! E de qualquer forma, acho que é importante falar de Clarice sim, que é muito mencionada mas pouco lida, e ainda menos compreendida.

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  6. Senti falta de Jane Austen, uma grande autora, das mais conhecidas mundialmente. Feminista numa época difícil e com diversos livros declarados clássicos e literatura obrigatória na faculdade.

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    1. Então… Li “Razão e Sensibilidade” recentemente e não curti, pra ser bem sincera. Não achei feminista, pelo contrário. Mas gostaria de saber mais sobre seu ponto de vista quanto a isso.

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  7. Gosto de uma escritora Italiana Líbia Troisi, ela é formada em astrofísica mas escreve no estilo fantasia e ficção científica. … eu simplesmente adoro, em uma entrevista ela afirmou que cansou de ler livros de aventura onde o herói era sempre um homem e resolveu escrever suas próprias aventuras com heroínas incríveis e humanas como a Nihal da trilogia Crônicas do Mundo Emerso ou a Dubhe da trilogia As guerras do mundo emerso. Já chegou ao Brasil novos livros sempre com mundos incríveis com dragões, magos e personagens femininos maravilhosos para quem gosta do gênero é imperdível.

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    1. Poesia realmente não é meu forte. Tenho poucos livros no geral, e de poetas mulheres, especificamente, acho que nenhum (eu sei, vergonha). Como eu só lendo o que efetivamente li, não entrou nenhuma…. Mas fique à vontade para sugerir. 🙂

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      1. Tem crescido bastante o numero de poetas mulheres, que mudam completamente o jeito de se fazer e entender poesia. Enquanto os homens poetas partem da premissa que ” o poeta é um fingidor”, separando o seu ser do seu ser poeta, as mulheres colocam tudo de si em seus poemas, elas sentem, elas emanam energias femininas e muito tem a acrescentar à poesia cotidiana na nossa vida. Sou poeta e amo ler mulheres poetas!!! Elisa Lucinda, Florbela Espanca, Cecilia Meireles, Ana Cristina Cesar, Rita Santana,,, muitas e tantas…

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    2. São muitas as poetisas… mas parece que estamos correndo demais para conseguir atribuir sentido a algo talvez menos explícito… Gilka Machado, Ana Cristina César, Cecília Meireles, Adélia Prado, Hilda Hilst, Alice Ruiz, Florbela Espanca, Adília Lopes, María Rosa Lojo

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  8. Há algum tempo essa questão do julgamento não literário do texto escrito por mulheres me angustia muito. Adorei as sugestões postadas aqui. Queria acrescentar Vésperas, de Adriana Lunardi e, para quem lê em espanhol, María Rosa Lojo, escritora argentina contemporânea traduzida para vários idiomas, mas ainda não para o português. María Rosa Lojo escreve contos, poemas, romances e crítica literária. Parte significativa de sua obra poética pode ser acessada gratuitamente no site dela (um conto de cada livro também). http://www.mariarosalojo.com.ar

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