Loucos por livros

2015-10-16 16.18.42Esse livro me escolheu. Tenho certeza disso. Não fui eu quem o comprou. Ele me viu perambulando entre prateleiras, saltou aos meus olhos e disse: você, caro leitor, é meu. A partir de agora, eu o tenho. Leia-me. E não tem outra opção se não gostar de mim. Muito.

Foi exatamente assim que A casa de papel, do argentino Carlos María Domínguez, chegou às minhas mãos, em uma singela tarde em que fui à Livraria da Vila com a inocente intenção de comprar livros para meus filhos.

Em formato de livro de bolso, com capa de papel cartão, esse danado furou minha fila de leituras e foi devorado. Trata-se, na verdade, de um conto robusto. São 90 páginas, em uma edição caprichadíssima da Realejo Livros, com ilustrações de Helena Campos (vejam lá embaixo a abertura de um dos capítulos) e tradução cuidadosa de Joca Reiners Terron.

A casa de papel é um livro sobre livros. E sobre pessoas loucas por livros. Não vou contar muito das aventuras do professor universitário argentino, residente no Reino Unido, que recebe um estranho pacote, destinado a uma colega recém morta em um atropelamento, senão faço spoiler. Não posso sequer dizer porque o livro tem esse nome, porque não quero que me chamem de espírito de porco.

Mas posso brindar a quem chegou até aqui com a abertura do livro, que já coloco entre minhas preferidas.

“Na primavera de 1988, Bluma Lennon comprou em uma livraria do Soho um velho exemplar dos Poemas, de Emily Dickinson, e ao chegar ao segundo poema, na esquina seguinte, foi atropelada por um automóvel.”

Carlos Domínguez concentra em poucas páginas dezenas de referências a autores e obras clássicas da literatura mundial.

O personagem, possivelmente um alter-ego do autor, vai à bacia do Rio da Prata em busca de quem enviou a sua colega o estranho pacote, que contém um livro de Joseph Conrad, A linha da sombra, envolto em uma mistura de cimento e areia.

Nessa busca, ele se depara com colecionadores compulsivos de livros, raros ou não. Bibliotecas imensas, engolindo os cômodos de suas casas, invadindo sua vida conjugal. A busca pelo próximo livro que se torna uma obsessão. São pessoas que não vivem mais para si. Vivem para seus milhares de livros.

E com a proximidade da morte, angustiam-se pelo destino que será dado a seus preciosos bens. Por conta disso, cometem atos insanos, crendo que irão eternizar seus livros e impedir que sejam doados, abandonados nos arquivos de uma grande biblioteca pública ou, tragédia suprema, sejam separados uns dos outros.

Divagações sobre os melhores métodos para classificar e guardar livros em prateleiras que não param de se multiplicar também estão entre as obsessões dessa gente misteriosa.

Muito se falou de A casa de papel, que foi lançado em 2014 e vendeu imediatamente mais de 150 mil exemplares em vários países.

Para mim, esta pequena obra-prima remeteu diretamente às desventuras de Peter Kien, o professor do romance Auto-de-fé, de Elias Canetti, um colecionador obsessivo de livros. Que sabe exatamente onde está guardado cada um dos milhares de exemplares de sua biblioteca, com a qual tem uma relação patológica. Se você ainda não leu, deixo aqui uma dupla recomendação. Comece por Auto-de-fé, uma leitura longa, densa e repleta de surpresas. E que está entre os principais romances do século XX. E, depois, devore A casa de papel, uma leitura breve, mas igualmente densa e cheia de referências literárias. Ou faça o contrário. Mas faça.

E como diz o personagem principal de A casa de papel, cuidado com os livros:

“Cada vez que minha avó me via ler na cama, costumava dizer: ‘Deixa disso, que os livros são perigosos’. Durante muitos anos acreditei que era ignorante, porém o tempo demonstrou a sensatez de minha avó alemã.”

2015-10-16 16.19.43

4 comentários sobre “Loucos por livros

  1. Muito bacana, já li algo similar. ” O campeonato ” de Flávio Carneiro, mais um romance policial contando a história de um jovem obcecado por livros, romance policial diga-se de passagem e que vê sua vida se transformar em um propriamente dito, pois torna-se um detetive acidentalmente desvendando um mistério de uma organização “criminosa” um tipo de clube de amigos que vive um conto de Rubem Fonseca, a “Conjunção carnal”. Interessante o desenrolar da história e como vários autores são introduzidos no desfecho, a enorme paixão por livros.

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