Vanzolini, Adoniran, Bananére e o sotaque paulistano

Um dia eu ia azarado

Meio bebido, mamado,

Querendo procurá briga

Pelas ruas do Bexiga.

Os versos acima poderiam ser de Adoniran Barbosa. Ou de Juó Bananére. Mas, na verdade, são de Paulo Vanzolini. Isso mesmo. O compositor de Ronda, Volta por cima e tantos outros sucessos musicais, também se aventurou pela poesia, além da brilhante carreira científica, que sempre foi a sua principal atividade.

Seja nas letras de suas canções, como nos versos um tanto caricaturais e satíricos do livro Tempos de cabo Vanzolini se alinha a Bananére e Adoniram no registro de uma semântica paulistana, baseada na mistura do acento italiano do sul com o português brasileiro, carregado de expressões e palavras indígenas e mais uma mistureba de sotaques dos imigrantes que na primeira metade do século XX chegaram aos borbotões na capital paulista. Dessa miscelânea, que também migrantes de todos os quadrantes do Brasil, nasceu o sotaque paulistano, um tanto cantado e anasalado, com uma fome que faz com que muitos comam sílabas e engulam os finais de palavras, notadamente os “esses” que marcam o plural.

Sim, minha gente. Existe um sotaque paulistano, embora muita gente por aqui insista em dizer diante de um carioca, mineiro, gaúcho ou nordestino coisas como “nossa, você tem um sotaque forte…”

Um alerta. Não estou afirmando que o trio citado foi responsável pelo sotaque do português falado no planalto de Piratininga. Mas cada um deles, com sua obra, contribuiu para registrar em canções, poemas e crônicas esse modo peculiar da fala paulistana.

Juó Bananére, pseudônimo de Alexandre Ribeiro Marcondes Machado, descendente de portugueses, nascido no interior, chegou à capital paulista no começo do século XX e captou no ar o sotaque que se espalhava. Criou o personagem e escreveu saborosas crônicas dos italianinhos, publicadas semanalmente na revista O Pirralho. Com seu humor ácido, atacou prefeitos, presidentes e notáveis acadêmicos com o que melhor sabia fazer, paródias de poemas clássicos e crônicas mordazes, carregadas do acento italianado que ouvia pelas ruas da cidade.

Adoniran, nascido João Rubinato, curiosamente fez o contrário de Alexandre Marcondes Machado. Filho de italianos, adotou sobrenome de origem portuguesa. Mas seguiu a linhagem de Bananére e transportou para o samba o linguajar das ruas e da malandragem paulistana.

Paulo Vanzolini, nascido assim mesmo, não precisou de pseudônimo. Mas desde sempre dedicou-se aos estudos e à vida acadêmica. E teve vida dupla, sem estar oculto, mas dividindo os laboratórios com a vida boêmia. Compositor de mão cheia, deixou sucessos que estão na mente de muitos brasileiros, com versos emblemáticos, como “cena de sangue num bar da avenida São João”, ou “levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”, em meio a uma vasta obra gravada por muita gente boa da MPB.

Vanzolini era bom de copo. Não desgrudava de sua Brahma, assim mesmo, usando a marca como sinônimo de cerveja. E mandava pra dentro algumas doses de branquinha. Culto, mas com antena potente para a voz dos botequins, foi parceiro de Adoniram em algumas canções, citou o amigo em outras e foi citado por Rubinato também em um diálogo musical carregado de malandragem e italianidade.

E é a malandragem do Bexiga, do Brás, do centro, da Mooca e da Barra Funda que está nos versos de Tempos de cabo, livro de pequenas histórias contadas em verso. Em comum entre elas, os botequins, gafieiras, boates e prostíbulos que, como sugere o nome, foram frequentados pelo poeta durante seu tempo de serviço no exército.

São historietas carregadas de “brigas de faca”, disputas pela atenção de mulheres da noite, uma dose razoável de machismo e o romantismo tosco de personagens que vagueiam pelas madrugadas em busca de uma cachaça para aplacar a dor e a chance de amanhecer no colo de uma morena em qualquer hotel vagabundo.

Não espere erudição. Os versos seguem a oralidade das ruas e a cada linha pode haver um leve assassinato da norma culta. É a licença poética entrando em cena para dar ao leitor a exata noção do sotaque paulistano que está impregnado nas palavras recolhidas por Vanzolini em suas andanças.

A história do livro

O lema do Lombada Quadrada é “todo livro tem uma história”. Acreditamos que cada livro chega à nossa estante por meios diferentes e carrega uma trajetória. Talvez a maioria fique no denominador comum da compra pura e simplesmente por conta de gostarmos do autor, de ser algo que queremos ler. Mesmo estes, ganham particularidades no momento em que são lidos, ficam retidos na lembrança ou entram na conta de “mais um livro lido” e se perdem em meio a tantos outros.

E existem os livros com histórias peculiares. Seja por que se tornam livros de cabeceira (como os que relatei aqui) e vão nos acompanhar por toda a vida em inúmeras releituras ou consultas a trechos marcantes. Seja porque nos chegaram de forma pouco usual. É o caso dos livros que compramos pela capa. Ou que saltam aos nossos olhos em meio a inúmeras ofertas nas livrarias, como aconteceu para mim com este aqui.

E a história deste livro começou quando, há algumas semanas, procurava pelo novo romance de Micheliny Verunschk, na Livraria da Vila. Não o achei, mas ao percorrer os autores começados com V, chapei no nome de Paulo Vanzolini, cujo centenário de nascimento foi comemorando justamente próximo do dia em que fui à livraria.

Além do nome do poeta, compositor e cientista, o que me chamou atenção foi a edição do livro Tempos de cabo, feita pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo. Folheei rapidamente e resolvi comprar. E ler.

Tempos de cabo foi publicado originalmente em 1981 pela editora Palavra e Imagem, que teve vida fugaz. É um livro de poesia, com ilustrações especialmente feitas para aquela edição por Aldemir Martins. Veja algumas amostras no álbum abaixo.

O livro foi republicado em 2009 pela Imprensa Oficial, em edição fac-similar, reproduzindo fielmente a original. E é lindo. Vale para ter em casa um registro literário desse sotaque criado pela mistura de gentes de todo o planeta e temperado com italianidade. E vale pela beleza da arte gráfica. Por quê todo livro tem uma história.

4 comentários sobre “Vanzolini, Adoniran, Bananére e o sotaque paulistano

  1. Não acho que esse sotaque com o “r ” meio caipira seja o real sotaque paulistano. O “r” do paulistano não é assim, e o falar paulistano tem um ritmo meio italianado. Até a década de 80, lembro bem desse sotaque. Sou santista e convivi muito com paulistanos. Não sei se é devido à migração dos interioranos, mas acho que o sotaque paulistano está mudando. Andando por Sampa, sinto que estou em uma cidade do interior.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Reinaldo, obrigado pelo comentário. Sou paulistano do Tatuapé, filho de portugueses. São Paulo tem múltiplos sotaques. O predominante é realmente o de influência italiana. Mas tem muito r caipira pronunciado em nossas ruas. Assim como o sotaque alemão, o japonês, o judaico do leste europeu, o espanhol…

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