Sem palavras

O Lombada Quadrada se dedica principalmente à literatura, mas é sempre bom lembrar: nosso foco é o objeto livro, mesmo quando ele prescinde de palavras. É o caso do álbum composto pela dupla de ilustradores Raul Aguiar e Thales Molina, um projeto pessoal viabilizado por meio de crowdfunding. Foi, portanto, com a ajuda de amigos e fãs que eles publicaram as histórias Timo e Vagaluz, que dividem ao meio a publicação, no esquema de dupla capa: cada história abre um extremo do livro, uma de ponta cabeça com relação à outra, ambas se encontrando no meio do miolo.

As duas histórias se desenvolvem em silêncio, sem balões. Toda a narrativa e ambiência são dadas pelas ilustrações; no caso de Timo, de Raul Aguiar, com uma certa linearidade, enquanto Vagaluz, de Thales Molina se desenvolve num tom que é principalmente climático. Nos dois casos, itens cotidianos se transformam em portais para mundos paralelos, mas as coincidências param por aí. Tanto visualmente, quanto nos temas escolhidos, os dois trabalhos são bastante diferentes entre si.

Em Timo, Raul Aguiar oferece o estilo de ilustração que vem desenvolvendo há alguns anos e que costuma aparecer em revistas e trabalhos diversos. O traço de Raul tornou-se mais amplamente reconhecível desde o ano passado, quando ele desenvolveu para o Facebook a série de stickers De boa, inspirada nas gírias recifenses. Seu trabalho tem um aspecto quase pixelizado que remete imediatamente aos primórdios da cultura gamer. 

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Para esta história, ele escolheu uma paleta de cores cítricas e vibrantes, com a qual desenha uma Recife distópica, meio vazia, com as ruas tomadas por pedras, detritos e uma gang punk. Em um rápido flashback, ficamos sabendo que uma série de protestos culmina no banimento e destruição de livros. O garoto Timo e seu pai percorrem a cidade numa van quando são atacados e roubados. Timo então faz de tudo para recuperar o bem mais valioso que lhe restava – um único livro, que funciona como uma espécie de portal para outras realidades.

No outro extremo do álbum, Vagaluz parte de um prosaico nascer do sol, a partir do qual um personagem anônimo se prepara para sair de casa em direção ao metrô. É quando ele percorre as escadas rolantes da estação que têm início o foco da história. Como numa estampa de Escher, as escadas se cruzam em três dimensões e ganham direções completamente improváveis, cada uma delas levando a um outro mundo, definido pela fonte de luz que o ilumina.

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A história passa então a ser protagonizada por insetos, répteis e aves da noite, sempre em busca de luz. Ao contrário do trabalho de Raul Aguiar, o de Thales Molina está baseado em cores noturnas, com predomínio do roxo e do preto, que intensificam no leitor, tanto quanto nos personagens animais, a busca pela iluminação. É um trabalho extremamente metafórico, sem um enredo fácil.

Ao descer aos subterrâneos pelas escadas do metrô, estamos fazemos o percurso inverso dos animais que, por instinto, procuram a luz? Viver numa cidade tão grande que nos obriga ao deslocamento sob a terra seria antinatural?

Essas são só algumas das leituras possíveis, e elas são infinitas. A começar pelo título da história: Vagalume seria uma escolha muito óbvia, até meio reducionista. Com Vagaluz, Thales amplia o leque de entendimentos possíveis. Nós, humanos também, estamos em busca incessante por luz em meio às trevas; uma luz fugidia, que não se deixa entrever com facilidade, e que precisa ser praticamente caçada.

Em um momento da humanidade em que os pensamentos obscurantistas ganham força, é uma provocação bastante salutar, assim como a de Raul a respeito dos livros, como metáfora do conhecimento.

Timo/Vagaluz foi editado pela Rochedo Press, criada pelos artistas especialmente para o projeto. Sei que o álbum está à venda em São Paulo na Gibiteria (Praça Benedito Calixto), mas qualquer coisa, dêem um alô pra eles pelo email rochedopress@gmail.com. No fim do ano, eles participarão novamente da Comic Con Experience aqui em São Paulo, no Artist’s Alley.

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